ESCRITORES



A NOVA CALIFÓRNIA





Autor: Lima Barreto
Título: A NOVA CALIF?RNIA
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 06/06/2005

A NOVA CALIFÓRNIA

(Conto de A Nova Calif?rnia)

 

Lima Barreto

 

Ningu?m sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspond?ncia que recebia. E era grande. Quase diariamente, o carteiro l? ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um ma?o alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em l?nguas arrevesadas, livros, pacotes…

Quando Fabr?cio, o pedreiro, voltou de um servi?o em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.

? Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.

Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de t?o extravagante constru??o: um forno na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabr?cio p?de contar que vira bal?es de vidros, facas sem corte, copos como os da farm?cia ? um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utens?lios de uma bateria de cozinha em que o pr?prio diabo cozinhasse.

O alarme se fez na vila. Para uns, os mais adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o tinhoso.

Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a chiar, e olhava a chamin? da sala de jantar a fumegar, n?o deixava de persignar-se e rezar um ?credo? em voz baixa; e, n?o fora a interven??o do farmac?utico, o subdelegado teria ido dar um cerco ? casa daquele indiv?duo suspeito, que inquietava a imagina??o de toda uma popula??o.

Tomando em considera??o as informa??es de Fabr?cio, o botic?rio Bastos concluir? que o desconhecido devia ser um s?bio, um grande qu?mico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos cient?ficos.

Homem formado e respeitado na cidade, vereador, m?dico tamb?m, porque o doutor Jer?nimo n?o gostava de receitar e se fizera s?cio da farm?cia para mais em paz viver, a opini?o de Bastos levou tranq?ilidade a todas as consci?ncias e fez com que a popula??o cercasse de uma silenciosa admira??o a pessoa do grande qu?mico, que viera habitar a cidade.

De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente as ?guas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do cresp?sculo, todos se- descobriam e n?o era raro que ?s ?boas noites? acrescentassem ?doutor?. E tocava muito o cora??o daquela gente a profunda simpatia com que ele tratava as crian?as, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que elas tivessem nascido para sofrer e morrer.

Na verdade, era de ver-se, sob a do?ura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava aquelas crian?as pretas, t?o lisas de pele e t?o tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e tamb?m as brancas, de pele ba?a, gretada e ?spera, vivendo amparadas na necess?ria caquexia dos tr?picos.

Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a raz?o de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua ternura com Paulo e Virg?nia e esquecer-se dos escravos que os cercavam…

Em poucos dias a admira??o pelo s?bio era quase geral, e n?o o era unicamente porque havia algu?m que n?o tinha em grande conta os m?ritos do novo habitante.

Capit?o Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de Tubiacanga, ?rg?o local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o s?bio. ?Voc?s h?o de ver, dizia ele, quem ? esse tipo… Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladr?o fugido do Rio.?

A sua opini?o em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival para a fama de s?bio de que gozava. N?o que Pelino fosse qu?mico, longe disso; mas era s?bio, era gram?tico. Ningu?m escrevia em Tubiacanga que n?o levasse bordoada do Capit?o Pelino, e mesmo quando se falava em algum homem not?vel l? no Rio, ele n?o deixava de dizer: ?N?o h? d?vida! O homem tem talento, mas escreve: ‘um outro’, ‘de resto’…? E contra?a os l?bios como se tivesse engolido alguma cousa amarga.

Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores gl?rias nacionais. Um s?bio…

Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Candido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola sa?a vagarosamente de casa, muito abotoado no seu palet? de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dous dedos de prosa. Conversar ? um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se t?o-somente a ouvir. Quando, por?m, dos l?bios de algu?m escapava a menor incorre??o de linguagem, intervinha e emendava. ?Eu asseguro, dizia o agente do Correio, que…? Por a?, o mestre-escola intervinha com mansuetude evang?lica: ?N?o diga ‘asseguro’ Senhor Bernardes; em portugu?s ? garanto.?

E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras, houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o seu apostolado de vernaculismo. A chegada do s?bio veio distra?-lo um pouco da sua miss?o. Todo o seu esfor?o voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia t?o inopinadamente.

Foram v?s as suas palavras e a sua eloq??ncia: n?o s? Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas, como era generoso? pai da pobreza ? e o farmac?utico vira numa revista de espec?ficos seu nome citado como qu?mico de valor.

 

II

Havia j? anos que o qu?mico vivia em Tubiacanga, quando, uma bela manh?, Bastos o viu entrar pela botica adentro. O prazer do farmac?utico foi imenso. O s?bio n?o se dignara at? a? visitar fosse quem fosse e, certo dia, quando o sacrist?o Orestes ousou penetrar em sua casa, pedindo-lhe uma esmola para a futura festa de Nossa Senhora da Concei??o, foi com vis?vel enfado que ele o recebeu e atendeu.

Vendo-o, Bastos saiu de detr?s do balc?o, correu a receb?-lo com a mais perfeita demonstra??o de quem sabia com quem tratava e foi quase em uma exclama??o que disse:

? Doutor, seja bem-vindo.

O s?bio pareceu n?o se surpreender nem com a demonstra??o de respeito do farmac?utico, nem com o tratamento universit?rio. Docemente, olhou um instante a arma??o cheia de medicamentos e respondeu:

? Desejava falar-lhe em particular, Senhor Bastos.

O espanto do farmac?utico foi grande. Em que poderia ele ser ?til ao homem, cujo nome corria mundo e de quem os jornais falavam com t?o acendrado respeito? Seria dinheiro? Talvez… Um atraso no pagamento das rendas, quem sabe? E foi conduzindo o qu?mico para o interior da casa, sob o olhar espantado do aprendiz que, por um momento, deixou a ?m?o? descansar no gral, onde macerava uma tisana qualquer.

Por fim, achou ao fundo, bem no fundo, o quartinho que lhe servia para exames m?dicos mais detidos ou para as pequenas opera??es, porque Bastos tamb?m operava. Sentaram-se e Flamel n?o tardou a expor:

? Como o senhor deve saber, dedico-me ? qu?mica, tenho mesmo um nome respeitado no mundo s?bio…

? Sei perfeitamente, doutor, mesmo tenho disso informado, aqui, aos meus amigos.

? Obrigado. Pois bem: fiz uma grande descoberta, extraordin?ria. . .

Envergonhado com o seu entusiasmo, o s?bio fez uma pausa e depois continuou:

? Uma descoberta… Mas n?o me conv?m, por ora, comunicar ao mundo s?bio, compreende?

? Perfeitamente.

? Por isso precisava de tr?s pessoas conceituadas que fossem testemunhas de uma experi?ncia dela e me dessem um atestado em forma, para resguardar a prioridade da minha inven??o… O senhor sabe: h? acontecimentos imprevistos e…

? Certamente! N?o h? d?vida!

? Imagine o senhor que se trata de fazer ouro…

? Como? O qu?? fez Bastos, arregalando os olhos.

? Sim! Ouro! disse, com firmeza, Flamel.

? Como?

? O senhor saber?, disse o qu?mico secamente. A quest?o do momento s?o as pessoas que devem assistir ? experi?ncia, n?o acha?

? Com certeza, ? preciso que os seus direitos fiquem resguardados, porquanto…

? Uma delas, interrompeu o s?bio, ? o senhor; as outras duas, o Senhor Bastos far? o favor de indicar-me.

O botic?rio esteve um instante a pensar, passando em revista os seus conhecimentos e, ao fim de uns tr?s minutos, perguntou:

? O Coronel Bentes lhe serve? Conhece?

? N?o. O senhor sabe que n?o me dou com ningu?m aqui.

? Posso garantir-lhe que ? homem s?rio, rico e muito discreto.

? E religioso? Fa?o-lhe esta pergunta, acrescentou Flamel logo, porque temos que lidar com ossos de defunto e s? estes servem…

? Qual! E quase ateu…

? Bem! Aceito. E o outro?

Bastos voltou a pensar e dessa vez demorou-se um pouco mais consultando a sua mem?ria… Por fim, falou:

? Ser? o Tenente Carvalhais, o coletor, conhece?

? Como j? lhe disse…

? E verdade. E homem de confian?a, s?rio, mas…

? Que ? que tem?

? E ma?om.

? Melhor.

? E quando ??

? Domingo. Domingo, os tr?s ir?o l? em casa assistir ? experi?ncia e espero que n?o me recusar?o as suas firmas para autenticar a minha descoberta.

? Est? tratado.

Domingo, conforme prometeram, as tr?s pessoas respeit?veis de Tubiacanga foram ? casa de Flamel, e, dias depois, misteriosamente, ele desaparecia sem deixar vest?gios ou explica??o para o seu desaparecimento.

 

III

Tubiacanga era uma pequena cidade de tr?s ou quatro mil habitantes, muito pac?fica, em cuja esta??o, de onde em onde, os expressos davam a honra de parar. H? cinco anos n?o se registrava nela um furto ou roubo. As portas e janelas s? eram usadas… porque o Rio as usava.

O ?nico crime notado em seu pobre cadastro fora um assassinato por ocasi?o das elei??es municipais; mas, atendendo que o assassino era do partido do governo, e a v?tima da oposi??o, o acontecimento em nada alterou os h?bitos da cidade, continuando ela a exportar o seu caf? e a mirar as suas casas baixas e acanhadas nas escassas ?guas do pequeno rio que a batizara.

Mas, qual n?o foi a surpresa dos seus habitantes quando se veio a verificar nela um dos repugnantes crimes de que se tem mem?ria! N?o se tratava de um esquartejamento ou parric?dio; n?o era o assassinato de uma fam?lia inteira ou um assalto ? coletoria; era cousa pior, sacr?lega aos olhos de todas as religi?es e consci?ncias: violavam-se as sepulturas do ?Sossego?, do seu cemit?rio, do seu campo-santo.

Em come?o, o coveiro julgou que fossem c?es, mas, revistando bem o muro, n?o encontrou sen?o pequenos buracos. Fechou-os; foi in?til. No dia seguinte, um jazigo perp?tuo arrombado e os ossos saqueados; no outro, um carneiro e uma sepultura rasa. Era gente ou dem?nio. O coveiro n?o quis mais continuar as pesquisas por sua conta, foi ao subdelegado e a not?cia espalhou-se pela cidade.

A indigna??o na cidade tomou todas as fei??es e todas as vontades. A religi?o da morte precede todas e certamente ser? a ?ltima a morrer nas consci?ncias. Contra a prolana??o, clamaram os seis presbiterianos do lugar ? os b?blicos, como lhes chama o povo; clamava o Agrimensol Nicolau, antigo cadete, e positivista do rito Teixeira Mendes; clamava o Major Camanho, presidente da Loja Nova Esperan?a; clamavam o turco Miguel Abudala, negociante de armarinho, e o c?tico Belmiro, antigo estudante, que vivia ao deus-dar?, bebericando parati nas tavernas. A pr?pria filha do engenheiro residente da estrada de ferro, que vivia desdenhando aquele lugarejo, sem notar sequer os suspiros dos apaixonados locais, sempre esperando que o expresso trouxesse um pr?ncipe a despos?-la ?, a linda e desdenhosa Cora n?o p?de deixar de compartilhar da indigna??o e do horror que tal ato provocara em todos do lugarejo. Que tinha ela com o t?mulo de antigos escravos e humildes roceiros? Em que podia interessar aos seus lindos olhos pardos o destino de t?o humildes ossos? Porventura o furto deles perturbaria o seu sonho de fazer radiar a beleza de sua boca, dos seus olhos e do seu busto nas cal?adas do Rio?

Decerto, n?o; mas era a Morte, a Morte implac?vel e onipotente, de que ela tamb?m se sentia escrava, e que n?o deixaria um dia de levar a sua linda caveirinha para a paz eterna do cemit?rio. A? Cora queria os seus ossos sossegados, quietos e comodamente descansando num caix?o bem feito e num t?mulo seguro, depois de ter sido a sua carne encanto e prazer dos vermes…

O mais indignado, por?m, era Pelino. O professor deitara artigo de fundo, imprecando, bramindo, gritando: ?Na est?ria do crime, dizia ele, j? bastante rica de fatos repugnantes, como sejam: o esquartejamento de Maria de Macedo, o estrangulamento dos irm?os Fuoco, n?o se registra um que o seja tanto como o saque ?s sepulturas do ‘Sossego’. ?

E a vila vivia em sobressalto. Nas faces n?o se lia mais paz; os neg?cios estavam paralisados; os namoros suspensos. Dias e dias por sobre as casas pairavam nuvens negras e, ? noite, todos ouviam ru?dos, gemidos, barulhos sobrenaturais… Parecia que os mortos pediam vingan?a…

O saque, por?m, continuava. Toda noite eram duas, tr?s sepulturas abertas e esvaziadas de seu f?nebre conte?do. Toda a popula??o resolveu ir em massa guardar os ossos dos seus maiores. Foram cedo, mas, em breve, cedendo ? fadiga e ao sono, retirou-se um, depois outro e, pela madrugada, j? n?o havia nenhum vigilante. Ainda nesse dia o coveiro verificou que duas sepulturas tinham sido abertas e os ossos levados para destino misterioso.

Organizaram ent?o uma guarda. Dez homens decididos juraram perante o subdelegado vigiar durante a noite a mans?o dos mortos.

Nada houve de anormal na primeira noite, na segunda e na terceira; mas, na quarta, quando os vigias j? se dispunham a cochilar, um deles julgou lobrigar um vulto esgueirando-se por entre a quadra dos carneiros. Correram e conseguiram apanhar dous dos vampiros. A raiva e a indigna??o, at? a? sopitadas no animo deles, n?o se contiveram mais e

Deram tanta bordoada nos macabros ladr?es, que os deixaram estendidos como mortos.

A not?cia correu logo de casa em casa e, quando, de manh?, se tratou de estabelecer a identidade dos dous malfeitores, foi diante da popula??o inteira que foram neles reconhecidos o Coletor Carvalhais e o Coronel Bentes, rico fazendeiro e presidente da C?mara. Este ?ltimo ainda vivia e, a perguntas repetidas que lhe fizeram, p?de dizer que juntava os ossos para fazer ouro e 0 companheiro que fugira era 0 farmac?utico.

Houve espanto e houve esperan?as. Como fazer ouro com ossos? Seria poss?vel? Mas aquele homem rico, respeitado, como desceria ao papel de ladr?o de mortos se a cousa n?o fosse verdade!

Se fosse poss?vel fazer, se daqueles m?seros despojos f?nebres se pudesse fazer alguns contos de r?is, como n?o seria bom para todos eles!

O carteiro, cujo velho sonho era a formatura do filho, viu logo ali meios de consegui-la. Castrioto, o escriv?o do juiz de paz, que no ano passado conseguiu comprar uma casa, mas ainda n?o a pudera cercar, pensou no muro, que lhe devia proteger a horta e a cria??o. Pelos olhos do sitiante Marques, que andava desde anos atrapalhado para arranjar um pasto, pensou logo no prado verde do Costa, onde os seus bois engordariam e ganhariam for?as…

?s necessidades de cada um, aqueles ossos que eram ouro viriam atender, satisfazer e felicit?-los; e aqueles dous ou tr?s milhares de pessoas, homens, crian?as, mulheres, mo?os e velhos, como se fossem uma s? pessoa, correram ? casa do farmac?utico.

A custo, o subdelegado p?de impedir que varejassem a botica e conseguir que ficassem na pra?a, ? espera do homem que tinha o segredo de todo um Potosi. Ele n?o tardou a aparecer. Trepado a uma cadeira, tendo na m?o uma pequena barra de ouro que reluzia ao forte sol da manh?, Bastos pediu gra?a, prometendo que ensinaria o segredo, se lhe poupassem a vida. ?Queremos j? sab?-lo,? gritaram. Ele ent?o explicou que era preciso redigir a receita, indicar a marcha do processo, os reativos ? trabalho longo que s? poderia ser entregue impresso no dia seguinte. Houve um murm?rio, alguns chegaram a gritar, mas o subdelegado falou e responsabilizou-se pelo resultado.

Docilmente, com aquela do?ura particular ?s multid?es furiosas, cada qual se encaminhou para casa, tendo na cabe?a um ?nico pensamento: arranjar imediatamente a maior por??o de ossos de defunto que pudesse.

O sucesso chegou ? casa do engenheiro residente da estrada de ferro. Ao jantar, n?o se falou em outra cousa. O doutor concatenou o que ainda sabia do seu curso, e afirmou que era imposs?vel. Isto era alquimia, cousa morta: ouro ? ouro, corpo simples, e osso ? osso, um composto, fosfato de cal. Pensar que se podia fazer de uma cousa outra era ?besteira?. Cora aproveitou o caso para rir-se petropolimente da crueldade daqueles botocudos; mas sua m?e, Dona Emilia, tinha f? que a cousa era poss?vel.

? noite, por?m, o doutor percebendo que a mulher dormia, saltou a janela e correu em direitura ao cemit?rio; Cora, de p?s nus, com as chinelas nas m?os, procurou a criada para irem juntas ? colheita de ossos. N?o a encontrou, foi sozinha; e Dona Em?lia, vendo-se s?, adivinhou o passeio e l? foi tamb?m. E assim aconteceu na cidade inteira. O pai, sem dizer nada ao filho, sa?a; a mulher, julgando enganar o marido, sa?a; os filhos, as filhas, os criados ? toda a popula??o, sob a luz das estrelas assombradas, correu ao sat?nico rendez-vous no ?Sossego?. E ningu?m faltou. O mais rico e o mais pobre l? estavam. Era o turco Miguel, era o professor Pelino, o doutor Jer?nimo, o Major Camanho, Cora, a linda e deslumbrante Cora, com os seus lindos dedos de alabastro, revolvia a s?nie das sepulturas, arrancava as carnes, ainda podres agarradas tenazmente aos ossos e deles enchia o seu rega?o at? ali in?til. Era o dote que colhia e as suas narinas, que se abriam em asas rosadas e quase transparentes, n?o sentiam o f?tido dos tecidos apodrecidos em lama fedorenta…

A desintelig?ncia n?o tardou a surgir; os mortos eram poucos e n?o bastavam para satisfazer a fome dos vivos. Houve facadas, tiros, cacha??es. Pelino esfaqueou o turco por causa de um f?mur e mesmo entre as fam?lias quest?es surgiram. Unicamente, o carteiro e o filho n?o brigaram. Andaram juntos e de acordo e houve uma vez que o pequeno, uma esperta crian?a de onze anos, at? aconselhou ao pai: ?Papai vamos aonde est? mam?e; ela era t?o gorda…?

De manh?, o cemit?rio tinha mais mortos do que aqueles que recebera em trinta anos de existencia. Uma ?nica pessoa l? n?o estivera, n?o matara nem profanara sepulturas: fora o b?bedo Belmiro.

Entrando numa venda, meio aberta, e nela n?o encontrando ningu?m, enchera uma garrafa de parati e se deixara ficar a beber sentado na margem do Tubiacanga, vendo escorrer mansamente as suas ?guas sobre o ?spero leito de granito ? ambos, ele e o rio, indiferentes ao que j? viram, mesmo ? fuga do farmac?utico, com o seu Potosi e o seu segredo, sob o dossel eterno das estrelas.

 

10-11-1910

FIM



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