ESCRITORES



A MULHER E OS ESPELHOS





Autor: João do Rio
Título: A MULHER E OS ESPELHOS
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 18/05/2005

A MULHER E OS ESPELHOS

 

 

João do Rio

 

 

Carta-Offerta

 

 

Assim, levo a coragem ao excesso de pedir que me ouça.

Em primeiro logar, a vida é uma banalidade limitada.

Da banalidade da vida vieram de certo os symbolos divinos tambem limitados. Junte você todas as religiões, agglomere deuses e semideuses da Europa, da Asia, da Africa, da America, da Oceania e afinal todos elles não exprimirão mais que meia duzia de cousas que o homem teme, deseja ou venera porque não comprehendeu ainda. Não o quero fatigar com uma erudição excessivamente empregada pelos almanachs provincianos.

Ora, entre as divindades que o homem teme por não comprehender ou enaltece pelo mesmo amargo motivo, está desde o começo da reflexão, a Mulher. Sim. A Mulher! Um escriptor hespanhol observava que quando dizemos homem dizemos humanidade e quando pensamos na Mulher pensamos na excepção. Era essa a nossa opinião nas epocas legendarias e ainda o é hoje. Fizemol-a causa inicial de todos os males e todos os bens. E se você tiver o trabalho de abrir o veneravel Herodoto, lá encontrará a Mulher como origem das guerras, mascarando a razão mercantil das ditas guerras – porque os phenicios roubaram Jô, os cretenses em represalia foram a Tyro e roubaram Europa, os gregos navegaram para a Colchida e roubaram Medéa, Alexandre Paris filho de Priamo roubou Helena, e assim infinitamente a Mulher é sempre o motivo do conflicto humano. Tambem a arte universal vive da espantada admiração do homem em torno da Mulher. Apenas, uns temem-n’a como a Sereia, outros adoram-n’a como Divindade.

Que momento atravessamos nós: o do terror ou o do amor?

O symbolo da Sereia como a perdição do homem, como a femea de temer, de que é preciso afastar-se a gente com prudencia, devia existir no periodo da pedra lascada. Faltam documentos – o que é uma garantia da sua real existencia. Mas a partir do tempo neolithico desde que o homem, de silex em punho, pôde gravar os perigos que os seus sorrisos lhe traziam, a Sereia supriu. É a Tentação.

Fizeram-n’a formosa, com cauda de peixe, entre as ondas. É possível vel-as com pennas e pés de passaro no Hortus Deliciarum de Herrade de Landberg, abadessa do convento de Santa Otilia no decimo terceiro seculo; e no seu repertorio dos vasos gregos Salomao Reinach illustra os versos de Homero mostrando-nos n’um vaso do Museu Britanico, Odysseus preso ao mastro de sua náu, emquanto as sereias voavam-lhe em torno – sereias e harpias não surgiram de um mesmo horror: a tormenta devastadora.

Os mysoginos poderiam manter da Sereia – Mulher a velha definição de Pierre le Picard no seu Bestiario:

«Trois maniéres de seraines sont, dont deux sont moitié feme moitié poisson e l’autre moitié feme moitié oiseox. Et chantent toutes trois moitié em buisines, les autres en harpes et les autres en droite vois. Les seraines signifient les feme qui abracent les hommes por lor blandissement et por lor déchénement á els par lors paroles que eles les ménent á proverté et á mort. Les eles de la seraine c’est l’amor de la feme qui tost va et vient.»

Os elos da sereia são o amor da mulher, que cedo vai e vem; as sereias desencadeiam taes apetites que levam os homens á pobreza e á morte… Hoje a Sereia não é mais nem a mulher-passaro do Vaso grego e do episodio da Odysséa, nem a mulher-peixe das illuminuras bysantinas ou dos capiteis cathedralescos. Tem de tudo, Barbatanas de baleia, o fio do linho e os passaros das arvores, fructos e flores, pelles de bichos e frocos de larvas, azas de borboletas e vozes diversas. A vida democratisou-se. Os symbolos tambem, cruelmente. O homem sorri: – que Sereia! e pensa estar dizendo uma ironia. Não o diz. Elle está preso. A prudencia de Odysseus parece inutil. Não ha homem na terra que um momento não se deixe dominar. E não é Venus tentadora, á a Sereia que impera e impera arrazadoramente, cantando para o naufragio das vidas. Sobre os destroços de cada náu onde arqueja o nauta, canta a Sereia imperialmente a canção infinita da seducção. Veja os homens inimigos, a sanha do ganho, as rixas nas chombergas, os grandes conflictos internacionaes. De pé, sobre o mastro grande da náu de Odysseus, a Sereia irradia.

Em compensação para os outros ella é a razão de todas as glorias, o incentivo de todas as coragens, o supremo bem, e cada um pensa da vida o eterno drama do Dante, com o coração indo do inferno para o purgatorio na aspiração do paraiso, na aspiração de Deus que não se mostra a nós senão pela fórma deliciosa da mulher, que nos inspira. E ha de encontrar V., admiravel amigo, o mesmo homem ora a dizel-a Deus, ora a chamal-a monstro.

É que afinal odiando-a, amando-a, calumniando-a, negando-a e ridicularisando-a, julgando-a portadora de todos os bens ou de todos os defeitos, nós, de Homero o biographo de Helena, aos professores de phisio-psychologia continuamos sem conseguir comprehendel-a, pela simples razão de que só o nosso egoismo a reflecte. Até agora para mulher temos um sentido apenas: o do espelho. Ella quer conhecer-se, ella deseja ser explicada, ella procura o desvendamento do seu mysterio. Cada espelho diz exclusivamente a verdade do proprio egoismo. Entre ella e o espelho ha a teimosia implacavel do espelho reflectindo a imagem que quer fazer della. Antes de se mirar nos aços polidos, a mulher encontra nos olhos de cada homem espelhos concavos, convexos, planos – que deformam, enfeiam ou reflectem os transitórios gestos da sua alma. Nós reproduzimos a creatura que julgamos ser nossa, com o inconsciente estranhamento do nosso voraz egoismo. E ellas de se mirarem em vão nos espelhos homens, sem obter a decifração, não só desenvolveram a ambição de agradar como o secreto anceio de encontrar um dia o espelho revelador.

A mulher!

Ella apparece, de vestido de baile, com tecidos apenas para accentuar as curvas do corpo e uma cauda leve e coruscante. Ella apparece, mostrando os pés, de vestido curto e simples. Ella apparece, vestida de «chauffeur», de oculos e véos. Está em toda a parte. A bordo dos «steamers», nos comboios, nos restaurants, nos chás, em cada canto, trabalhando ou jogando o «bridge», mas naturalmente tentando, e não ha moral nem distincções de classes, não ha honestas, nem deshonestas, porque são todas segundo o espelho que as vê: a Sereia, que exige, sacrifica e mata, ou a Divindade que nos satisfaz, nos incita, nos acalenta – tão distantes ambas da certeza como distantes estamos da realidade entregando a nossa alma aos reflexos com a illusão de que elles nos comprehendem.

Estas coisas digo-as eu, antes de v. ler as historias a seguir – porque essas historias sem o merito da invenção – simples exposições de factos verdadeiros, contam o eterno drama da Mulher deante dos espelhos. Na sua varia forma, ella não é aqui senão, differente ás vezes de espelho para espelho, sendo a mesma e querendo o espelho que a revele, sem o encontrar. Eu tremeria, porem, se me classificassem entre os erotographos, com a faculdade libertina de insinuar modelos. E se as mulheres são como os espelhos as reflectem, os homens estão taes quaes foram e são. V. talvez encontre ironia. Encontrará tambem dôr. V. talvez descubra amargura. Verá tambem doces bondades.

E sempre o unico grande drama da vida: a Mulher e os Espelhos…

 

 

A MENINA AMARELLA

 

 

Havia oito dias, Pedro de Alencar, aquelle rapaz tão distincto e com uma posição invejavel, ia seguidamente á casa de Flora Bertha. Toda a roda estava admirada. Pedro – creatura feita de aristocracias innatas, cultor de elegancias, encafuado num conventilho da Cidade Nova, entre mulheres de má vida, apaixonado pela Flora Bertha, gordinha e vulgar nos seus vinte annos! Parecia impossivel! Era de certo um novo vicio, mais uma exquisitice moral.

Depois, Flora, curioso sêr de instincto, tinha um amante, sujeito forte e carnudo, em casa a noite e o dia; e mais uma tropa de amigos intimos que se aproveitavam dos esquecimentos da proprietaria; para almoçar, jantar, dormir, e, sempre que havia occasião, amar. Não! Era impossivel. Entretanto, Pedro de Alencar estava cada vez mais preso, e ao encontrar um dos seus mais acirrados amigos, deu a solução do enigma d’aquella attracção.

-É esplendido, filho, de inconsciencia moral! Não imaginas a atmosphera permanente de animalidade vestida. Ha meia duzia de mulheres que só pensam nos homens, uma caterva de homens a galopar pelos corredores. E tudo, até os moveis, parecem gritar a falta de vergonha. Com um mez de estadia naquella casa, fica-se a perguntar onde está o pudor. Realmente, existe o pudor? Existiu mesmo? Estou de observação, meio alegre e meio triste.

A casa em que Pedro de Alencar estava de observação tinha no quarto da frente Flora Bertha, com uma cama quebrada, um sofá servindo de toillete e as photographias e os cartões postaes dos seus apaixonados, pregados á taxa pelas paredes. As paredes estavam cobertas dessa illustração amorosa e edificante. No quarto pegado, morava a Rosinha da Gruma, uma pobre mulher de boca molle e dentadura postiça, que se fizera especialista em amar meninos. Tinha talvez trinta permanentes, dos treze aos dezoito annos, que lhe levavam os magros vintens, ardendo de devotamento e choravam quando se viam preferidos pelo mais velho, bella envergadura de athleta, cujo primeiro e unico carinho fôra a applicação de uma sova tremenda. Na alcova pegada, morava um typosinho franzino e pintado, a Formiga, apaixonada por um adolescente bello como o Perseu de Benevenuto, e no quarto da sala de jantar, rebaixada por falta de pagamento, Nina Banez, ex-cantora de café concerto, subitamente empolada pelas caretas de um comico joven, chamado Andrade. Ainda para os fundos moravam a velha mãe de Flora, com um typo valentaço, que lhe batia diariamente, o irmão de Flora, sêr ambiguo e serpentino, e a creada – uma creada bahiana, sempre envolta num chale e fumando certo cachimbo tão comprido, que parecia mais um narghilé.

Esse pessoal fazia ponto de reunião na estreita casa de jantar, onde, além da mesa, de um guarda-comida e da bilha de barro, havia uma lousa negra, em que se expunham os nomes das pessoas devedoras. Para passar aos quartos, passava-se por ali. Quartos havia que exigiam mesmo a passagem por outro. De modo que de repente, na conversa animada, havia um silencio. Era alguem que entrava.

-D. Rosinha está?

Se era conhecido, o silencio transformava-se em alarido.

-Ora, entra, deixa de partes!

Se era cousa nova, ou havia complicações, uma companheira dizia sempre:

-Vou vêr.

Ia apenas prevenir. O que estava, sahia por outra porta a vir tomar cerveja, e a Rosinha apparecia calma e sorridente:

-Só agora seu máo! Estou á espera ha tanto tempo!…

As damas estavam sempre em roupão, ou em camisa, os homens á frescata. Á noite, assim por volta de uma hora da manha, quando voltavam do theatro e dos cafés, organisavam-se ceias subitas. Cada rapaz ia comprar uma cousa. Alguns, quando não tinham dinheiro nem para isso, vestiam as camisas das damas e ordenavam os outros com ares dominadores.

Pedro de Alencar assistia ás scenas desenfreadas com um excellente bom humor. A principio Flora Bertha fazia sahir o rapaz vigoroso por um dos quartos, para não se encontrarem. Pedro deu com o rapaz um dia á porta…

-O Sr. Francisco?

-As suas ordens.

-Subamos juntos.

-Parece-me…

-Nada mais interessante.

O Sr. Francisco subiu. Foi um acontecimento. Entre Francisco e Pedro, Flora Bertha irradiava de orgulho e de prazer. Francisco era a sua satisfação physica. Pedro o seu appetite de effeito. O segundo era mostrado como se mostra um collar de preço; o outro era invejado como um jantar sempre quente. E, verdadeiramente repartida, pendida para Pedro, com as mãos para Francisco, parecia felicissima. De resto, em baixo, o automovel de Pedro carbunculava na treva, e ella não resistia em ir correr a immensa Avenida do Mangue, um manto apenas sobre as espaduas nuas como Phrynéa, só com o seu homem de luxo…

As conversas geraes nunca eram de uma inteira cordialidade. De susceptibilidade grande, essas damas zangavam-se por qualquer cousa, umas com as outras. Um vocabulario assustador surgia, portas batiam, gritos, ameaças de conflicto. De vez em quando o ardente sustentador da mãe da dona da casa apparecia alcoolisado, com um punhal formidavel, querendo matar toda a gente. As mulheres atiravam-se ás janellas, pedindo soccorro, e como a delegacia era proxima, minutos depois, soldados de espadagão trepavam escada acima, prestes a prender todos os presentes. Como, porém, o delegado tinha uma especial amisade a Flora Bertha, tudo continuava na mesma. E ella vociferava indignada:

-Canalhas! Se não fosse eu, estava tudo preso!

Mas o agradavel eram as tardes e as noites passadas na sua alcova pauperrima. Bertha fechava-se por dentro, farta daquella vida, querendo uma casinha com palmeiras e canarios. De um lado Francisco, sempre enleiado, sorria; de outro, Pedro, muito alegre, fazia-lhe perguntas, e ella, deitada, ria a morrer e contava coisas, como desde creança imaginara ser raptada, a fuga aos quatorze annos com o marido, um barbeiro, aliás, meio tolo, o abandono da casa por causa dos ciumes da mamã, a quem sustentava.

-Afinal, sempre é mãe, não achas?

Depois tinha ternuras de voz:

-Na minha vida, até agora não tinha gostado de ninguem.

-E agora?

-Agora gosto de vocês dois.

E piscava os olhos para o Francisco, se Pedro estava voltado, tendo o cuidado de significar por um signal qualquer a Pedro a sua preferencia. O Sr. Francisco talvez acreditasse. Pedro divertia-se, amando, afinal, como devia amar essa creaturinha, ingenua, apesar de perdidissima naquelle ambiente de crapula. Era dos que se contentam com o que as mulheres dão, achando-as sempre generosas, por peiores que ellas sejam. E isso dava-lhe em pouco tempo uma enorme vantagem sobre todos os outros.

-Duvido! bradava elle.

-Juro!

-E estes retratos todos?

Ella então contava a historia e as particularidades de cada um daquelles cavalheiros, ia buscar as cartas para lerem alto, rindo. Um dia, Pedro propôz o degolamento geral do exercito de photographias.

-Apoiado! fez com uma alegria terrivel o Sr. Francisco.

-Não! não! clamava Flora Bertha, louca de riso com a idéa do julgamento e da morte dos retratos.

Horas depois as paredes estavam nuas e Pedro sentia aquelle mixto de contentamento e de tristeza que tem todo o homem moderno, quando irreparavelmente o mundo lhe mostra o vacuo dos sentimentos. Era inacreditavel! Não sentiam aquelles seres, não pensavam, não tinham um toque que os differençasse dos animaes, e pareciam felizes e viviam. Talvez fosse melhor não sentir, porque o pudor é a differenciação do homem, e aquelles sem pudor viviam radiantes. Nenhum deles teria ao menos um laivo de decoro d’alma?

Talvez tivesse, mas tão apagado, tão liquefeito, e com certeza tão extemporaneo! Os homens pareciam ir ali despir a vergonha para estar á vontade; as mulheres nascidas naquelle meio desde creanças, ainda impuberes e já com o conhecimento completo das mais tremendas luxurias, prestando-se a todas as ignominias, ignoravam mesmo o que fosse o pudor. E a sua dignidade, – porque ellas tinham dignidade – era ter muitos amantes e não se zangar quando as outras lhes tomavam alguns.

-Meus restos, creatura…

O scepticismo romantico de Pedro tornava-se de uma analyse penetrante, fazia-o um avaliador de algumas, pelas phrases inconscientes daquella gente que elle tivera a illusão de julgar um pouco melhor que a roda da diversão e prazer caro. Pois era peior. Peior porque não era immoral. Nem isso. Peior porque era a alma nua espojando-se e mostrando as mazellas. Aquellas mulheres tinham sido virgens, talvez tivessem ignorado a vida. Nenhuma dellas, porém, mostrava, na abundante tagarelice, um sentimento perfumado, uma vaga emoção dignificadora, – tropa meio bamba de bacchantes permanentes, com instinctos selvagens. E, entretanto, Pedro não desanimava. Fazer-se amar pela Flora Bertha? Pobresita! Não. Ver uma daquellas mulheres mostrar subitamente qualquer coisa de nobre? Não. Pedro esperava o terrivel, o imprevisto, lugubremente horrivel que ha sempre a pairar nos transbordamentos banaes da luxuria. E naquella casa aberta a toda a gente, onde se praticava a vida animal sem mysterio, sem recato, na sarabanda das ceias, nas mais desenfreadas orgias, em dialogos com a velha mãe de Flora, diariamente espancada, forçando a intimidade com o amoroso Francisco, a cada instante parecia-lhe sentir que impalpavelmente a revelação imprevista ia surgir.

Uma vez, Pedro estava só com a Flora, quando bateram á porta:

-É o Francisco.

-Não, elle bate de outro modo. De certo alguem que vae passar para o quarto da Rosinha.

Deu a volta á chave, abriu. Diante delles estava, com a sua saia suja, o casaco em tiras, o cabello de estopa por pentear, uma pobre menina.

Era horrivel.

Pequena, meuda, magra, o pescoço fino, tremia como se viesse da neve. E parecia que lhe tinham dado por dentro da pelle um violento banho de enxofre. Tinha jalde a face, a pelle das mãos era amarella, os labios, sem sangue, laivavam-se de amarello, e nas olheiras côr de perpetua a esclerotica era côr de gemma d’ovo. Lembrava um espectro de pesadello, um ser irreal, onde só os seios duros e erectos davam uma impressão de vida impetuosa.

Quando viu Pedro, agarrou-se á porta, a face contrahida, tremendo.

-Que queres? indagou colerica Flora.

-Foi a senhora sua mãe que mandou. Pensava estar só, balbuciou a petiza.

-Não disse já que não apparecesse aqui?

-Foi sem vontade. Desculpe. Eu não gosto, não, de apparecer.

E foi recuando, pavida. Bertha fechou a porta.

-Que bicho é esse?

-Uma rapariguita, que está ahi de favor. Ajuda lá na cozinha.

-Não a tinha visto ainda.

-Tem medo, é uma tola. Imagina tu que tem medo aos homens! Por isso não apparece.

-Máo logar escolheu ella.

Mas de novo arranhavam á porta. E de fora uma voz livida, voz de medo, de angustia, de pavor, de choro, quasi soluçante, dizia:

-Sou eu ainda minha senhora. Sua mãe manda buscar a bacia…

Prevendo uma violencia da encantadora Flora e mais do que tudo cheio de curiosidade, Pedro ergueu-se rapido e tornou a abrir a porta.

-Vá, entre.

A pequena hesitou corno se fosse atirar-se a um abysmo, fechou os olhos, arregalou-os muito, esticou as mãos amarellas, andou um pouco. Tinha os pés nús e sujos e andando andava como um duente aterrado. Agarrou a bacia, sobraçou-a. Era atrós, assustadoramente atrós.

-Vem cá. Como se chama você?

-Fala, menina, não tremas. Este senhor não te faz mal. É isso. Vê homem, começa a tremer! Ó Maria, como te chamas? Conta como foi, rapariga, vem cá…

A pequena amarella olhou-os um instante mais, convulsionou-se num soluço que lhe esbogalhava o olhar e deitou a correr pelo corredor. Houve um silencio, logo interrompido pelo riso de Flora Bertha.

-Está ha muito tempo comtigo?

-Tres mezes. Foi o pae que a collocou aqui. Tem doze annos e já com aquelles seios…

-Mas está doente, filha. Nunca vi na minha vida uma creatura tão amarella.

Flora voltou-se no leito. Estava linda com a sua carne de leite e rosa.

-Não. Aquillo foi de repente. Ha quatro mezes um carroceiro, amigo do pae, agarrou-a de noite, á fora. No outro dia foram encontral-a assim, a soluçar, não podendo olhar os homens sem tremer, sem fugir. Nem mesmo o pae. É amarella, toda amarella, filho. O medico disse que foi de horror…

No dia seguinte os hospedes alegres da casa de Flora Bertha verificaram com magua que Pedro de Alencar, aquelle rapaz tão distincto e com uma posição invejavel, deixava de apparecer.

 

 

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Fonte: RIO, João do. A mulher e os espelhos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, (s.d). p. 07-12 ; 55-65.

 



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