ESCRITORES



A MORENINHA





Autor: Joaquim Manuel de Macedo
Título: A MORENINHA
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 01/07/2005

A MORENINHA

 

 

1

 

Aposta Imprudente

 

 

Joaquim Manoel de Macedo

 

 

Bravo! exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em um cabide velho. Bravo!… interessante cena! mas certo que desonrosa fora para casa de um estudante de Medicina e já no sexto ano, a não valer-lhe o adágio antigo: – o hábito não faz o monge.

-Temos discurso!… atenção!… ordem!… gritaram a um tempo três vozes.

-Coisa célebre! acrescentou Leopoldo. Filipe sempre se torna orador depois do jantar…

-E dá-lhe para fazer epigramas, disse Fabrício.

-Naturalmente, acudiu Leopoldo, que, por dono da casa, maior quinhão houvera no cumprimento do recém-chegado; naturalmente. Bocage, quando tomava carraspana, descompunha os médicos.

C’est trop fort! bocejou Augusto, espreguiçando-se no canapé em que se achava deitado.

-Como quiserem, continuou Filipe, pondo-se em hábitos menores; mas, por minha vida, que a carraspana de hoje ainda me concede apreciar devidamente aqui o meu amigo Fabrício, que talvez acaba de chegar de alguma visita diplomática, vestido com esmero e alinho, porém, tendo a cabeça encapuzada com a vermelha e velha carapuça do Leopoldo; este, ali escondido dentro do seu robe-de-chambre cor de burro quando foge, e sentado em uma cadeira tão desconjuntada que, para não cair com ela, põe em ação todas as leis de equilíbrio, que estudou em Pouillet; acolá, enfim, o meu romantico Augusto, em ceroulas, com as fraldas à mostra, estirado em um canapé em tão bom uso, que ainda agora mesmo fez com que Leopoldo se lembrasse de Bocage. Oh! VV. SS. tomam café!… Ali o senhor descansa a xícara azul em um pires de porcelana… aquele tem uma chávena com belos lavores dourados, mas o pires é cor-de-rosa… aquele outro nem porcelana, nem lavores, nem cor azul ou de rosa, nem xícara… nem pires… aquilo é uma tigela num prato…

-Carraspana!… carraspana!…

-O’ moleque! prosseguiu Filipe, voltando-se para o corredor, traze-me café, ainda que seja no púcaro em que o coas; pois creio que a não ser a falta de louças, já teu senhor mo teria oferecido.

-Carraspana!… carraspana!…

-Sim, continuou ele, eu vejo que vocês…

-Carraspana!… carraspana!…

-Não sei de nós quem mostra…

-Carraspana!… carraspana!…

Seguiram-se alguns momentos de silêncio; ficaram os quatro estudantes assim a modo de moças quando jogam o siso. Filipe não falava, por conhecer o propósito em que estavam os três de lhe não deixar concluir uma só proposição, e estes, porque esperavam vê-lo abrir a boca para gritar-lhe: carraspana!…

Enfim, foi ainda Filipe o primeiro que falou, exclamando de repente:

-Paz! paz!…

-Ah! já?… disse Leopoldo, que era o mais influído.

-Filipe é como o galego, disse um outro; perderia tudo para não guardar silêncio uma hora.

-Está bem, o passado, o passado; protesto não falar mais nunca na carapuça, nem nas cadeiras, nem no canapé, nem na louça do Leopoldo… Estão no caso… sim…

-Hein?… olha a carraspana.

-Basta! vamos a negócio mais sério. Onde vão vocês passar o dia de Sant’Ana?

-Por quê?… temos patuscada?… acudiu Leopoldo.

-Minha avó chama-se Ana.

-Ergo!…

-Estou habilitado para convidá-los a vir passar a véspera e dia de Sant’Ana conosco na ilha de…

-Eu vou, disse prontamente Leopoldo.

-E dois, acudiu Fabrício.

Augusto só guardou silêncio.

-E tu, Augusto?… perguntou Filipe.

-Eu?… eu não conheço tua avó.

-Ora, sou seu criado; também eu não a conheço, disse Fabrício.

-Nem eu, acrescentou Leopoldo.

-Não conhecem a avó; mas conhecem o neto, disse Filipe.

-E demais, tornou Fabrício, palavra de honra que nenhum de nós tomará o trabalho de lá ir por causa da velha.

-Augusto, minha avó é a velha mais patusca do Rio de Janeiro.

-Sim?… que idade tem?

-Sessenta anos.

-Está fresquinha ainda… Ora… se um de nós a enfeitiça e se faz avô de Filipe!…

-E ela, que possui talvez seus duzentos mil cruzados, não é assim, Filipe? Olha, se é assim, e tua avó se lembrasse de querer casar comigo, disse Fabrício, juro que mais depressa daria o meu “recebo a vós” aos cobres da velha, do que a qualquer das nossas “toma-larguras” da moda.

-Por quem são!… deixem minha avó e tratemos da patuscada. Então tu vais, Augusto?

-Não.

-É uma bonita ilha.

-Não duvido.

-Reuniremos uma sociedade pouco numerosa, mas bem escolhida.

-Melhor para vocês.

-No domingo, à noite, teremos um baile.

-Estimo que se divirtam.

-Minhas primas vão.

-Não as conheço.

-São bonitas.

-Que me importa?… Deixe-me. Vocês sabem o meu fraco e caem-me logo com ele: moças!… moças!… Confesso que dou o cavaco por elas, mas as moças me têm posto velho.

-É porque ele não conhece tuas primas, disse Fabrício.

-Ora… o que poderão ser senão demoninhas, como são todas as outras moças bonitas?

-Então tuas primas são gentis?… perguntou Leopoldo a Filipe.

-A mais velha, respondeu este, tem dezessete anos, chama-se Joana, tem cabelos negros, belos olhos da mesma cor, e é pálida.

-Hein?… exclamou Augusto, pondo-se de um pulo duas braças longe do canapé onde estava deitado, então ela é pálida?…

-A mais moça tem um ano de menos: loura, de olhos azuis, faces cor-de-rosa… seio de alabastro… dentes…

-Como se chama?

-Joaquina.

-Ai, meus pecados!… disse Augusto.

-Vejam como Augusto já está enternecido…

-Mas, Filipe, tu já me disseste que tinhas uma irmã.

-Sim, é uma moreninha de quatorze anos.

-Moreninha? diabo!… exclamou outra vez Augusto, dando novo pulo.

-Está sabido… Augusto não relaxa a patuscada.

-É que este ano já tenho pagodeado meu quantum satis, e, assim como vocês, também eu quero andar em dia com alguns senhores com quem nos é muito preciso estar de contas justas no mês de novembro.

-Mas a pálida?… a loura?… a moreninha?…

-Que interessante terceto! exclamou com tom teatral Augusto; que coleção de belos tipos!… uma jovem de dezessete anos, pálida… romantica e, portanto, sublime; uma outra, loura… de olhos azuis… faces cor-de-rosa… e… não sei que mais: enfim, clássica e por isso bela. Por último uma terceira de quatorze anos… moreninha, que, ou seja, romantica ou clássica, prosaica ou poética, ingênua ou misteriosa, há de, por força, ser interessante, travessa e engraçada; e por conseqüência qualquer das três, ou todas ao mesmo tempo, muito capazes de fazer de minha alma peteca, de meu coração pitorra!… Está tratado… não há remédio… Filipe, vou visitar tua avó. Sim, é melhor passar os dois dias estudando alegremente nesses três interessantes volumes da grande obra da natureza do que gastar as horas, por exemplo, sobre um célebre Velpeau, que só ele faz por sua conta e risco mais citações em cada página do que todos os meirinhos reunidos fizeram, fazem e hão de fazer pelo mundo.

-Bela conseqüência! É raciocínio o teu que faria inveja a um caloiro, disse Fabrício.

-Bem raciocinado… não tem dúvida, acudiu Filipe; então, conto contigo, Augusto?

-Dou-te palavra… e mesmo porque eu devo visitar tua avó.

-Sim… já sei… isso dirás tu a ela.

-Mas vocês não têm reparado que Fabrício tornou-se amuado e pensativo, desde que se falou nas primas de Filipe?…

-Disseram-me que ele anda enrabichado com minha prima Joaninha.

-A pálida?… pois eu já me vou dispondo a fazer meu pé-de-alferes com a loura.

-E tu, Augusto, quererás porventura reqüestar minha irmã?…

-É possível.

-E de que gostarás mais, da pálida, da loura ou da moreninha?…

-Creio que gostarei, principalmente, de todas.

-Ei-lo aí com a sua mania.

-Augusto é incorrigível.

-Não, é romantico.

-Nem uma coisa nem outra… é um grandíssimo velhaco.

-Não diz o que sente.

-Não sente o que diz.

-Faz mais do que isso, pois diz o que não sente.

-O que quiserem… Serei incorrigível, romantico ou velhaco, não digo o que sinto não sinto o que digo, ou mesmo digo o que não sinto; sou, enfim, mau e perigoso e vocês inocentes e anjinhos. Todavia, eu a ninguém escondo os sentimentos que ainda há pouco mostrei, e em toda a parte confesso que sou volúvel, inconstante e incapaz de amar três dias um mesmo objeto; verdade seja que nada há mais fácil do que me ouvirem um “eu vos amo”, mas também a nenhuma pedi ainda que me desse fé; pelo contrário, digo a todas o como sou e, se, apesar de tal, sua vaidade é tanta que se suponham inesquecíveis, a culpa, certo, que não é minha. Eis o que faço. E vós, meus caros amigos, que blasonais de firmeza de rochedo, vós jurais amor eterno cem vezes por ano a cem diversas belezas… vós sois tanto ou ainda mais inconstantes que eu!… mas entre nós há sempre uma grande diferença: -vós enganais e eu desengano; eu digo a verdade e vós, meus senhores, mentis…

-Está romantico!… está romantico!… exclamaram os três, rindo às gargalhadas.

-A alma que Deus me deu, continuou Augusto, é sensível demais para reter por muito tempo uma mesma impressão. Sou inconstante, mas sou feliz na minha inconstancia, porque apaixonando-me tantas vezes não chego nunca a amar uma vez.

-Oh!… oh!… que horror!… que horror!…

-Sim! esse sentimento que voto às vezes a dez jovens num só dia, às vezes, numa mesma hora, não é amor, certamente. Por minha vida, interessantes senhores, meus pensamentos nunca têm dama, porque sempre têm damas; eu nunca amei… eu não amo ainda… eu não amarei jamais…

-Ah!… ah!… ah!… e como ele diz aquilo!

-Ou, se querem, precisarei melhor o meu programa sentimental; lá vai: afirmo, meus senhores, que meu pensamento nunca se ocupou, não se ocupa, nem se há de ocupar de uma mesma moça quinze dias.

-E eu afirmo que segunda-feira voltarás da ilha de… loucamente apaixonado de alguma de minhas primas.

-Pode bem suceder que de ambas.

-E que todo o resto do ano letivo passarás pela rua de… duas e três vezes por dia, somente com o fim de vê-la.

-Assevero que não.

-Assevero que sim.

-Quem?… eu?… eu mesmo passar duas e três vezes por dia por uma só rua, por causa de uma moça?… e para quê?… para vê-la lançar-me olhos de ternura, ou sorrir-se brandamente quando eu para ela olhar, e depois fazer-me caretas ao lhe dar as costas?… para que ela chame as vizinhas que lhe devem ajudar a chamar-me tolo, pateta, basbaque e namorador?… Não, minhas belas senhoras da moda! eu vos conheço… amante apaixonado quando vos vejo, esqueço-me de vós duas horas depois de deixar-vos. Fora disto só queimarei o incenso da ironia no altar de vossa vaidade; fingirei obedecer a vossos caprichos e somente zombarei deles. Ah!… muitas vezes, alguma de vós, quando me ouve dizer: “sois encantadora”, está dizendo consigo: “ele me adora”, enquanto eu digo também comigo: “que vaidosa!”

-Que vaidoso!… te digo eu, exclamou Filipe.

-Ora, esta não é má!… Então vocês querem governar o meu coração?…

-Não; porém, eu torno a afirmar que tu amarás uma de minhas primas todo o tempo que for da vontade dela.

-Que mimos de amor que são as primas deste senhor!…

-Eu te mostrarei.

-Juro que não.

-Aposto que sim.

-Aposto que não.

-Papel e tinta, escreva-se a aposta.

-Mas tu me dás muita vantagem e eu rejeitaria a menor. Tens apenas duas primas; é um número de feiticeiras muito limitado. Não sejam só elas as únicas magas que em teu favor invoques para me encantar. Meus sentimentos ofendem, talvez, a vaidade de todas as belas; todas as belas, pois, tenham o direito de te fazer ganhar a aposta, meu valente campeão do amor constante!

-Como quiseres, mas escreve.

-E quem perder?…

-Pagará a todos nós um almoço no Pharoux, disse Fabrício.

-Qual almoço! acudiu Leopoldo. Pagará um camarote no primeiro drama novo que representar o nosso João Caetano.

-Nem almoço, nem camarote, concluiu Filipe; se perderes, escreverás a história da tua derrota, e se ganhares, escreverei o triunfo da tua inconstancia.

-Bem, escrever-se-á um romance, e um de nós dois, o infeliz, será o autor.

Augusto escreveu primeira, segunda e terceira vez o termo da aposta, mas depois de longa e vigorosa discussão, em que qualquer dos quatro falou duas vezes sobre a matéria, uma para responder e dez ou doze pela ordem; depois de se oferecerem quinze emendas e vinte artigos aditivos, caiu tudo por grande maioria, e entre bravos, apoiados e aplausos, foi aprovado, salva a redação, o seguinte termo:

“No dia 20 de julho de 18… na sala parlamentar da casa n… da “rua de… sendo testemunhas os estudantes Fabrício e Leopoldo, acordaram Filipe e Augusto, também estudantes, que, se até o dia “20 de agosto do corrente ano o segundo acordante tiver amado a uma “só mulher durante quinze dias ou mais, será obrigado a escrever um “romance em que tal acontecimento confesse; e, no caso contrário, igual “pena sofrerá o primeiro acordante. Sala parlamentar, 20 de julho de “18… Salva a redação.”

Como testemunhas: Fabrício e Leopoldo.

Acordantes: Filipe e Augusto.

E eram oito horas da noite quando se levantou a sessão.

 

 

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Fonte: MACEDO, Joaquim Manoel de. A moreninha. São Paulo: Martins, 1965. p. 27-38.



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