Revista Mulheres e Literatura – vol. 17 - 2º trimestre - 2016



A MÉTAFORA NO TEXTO POÉTICO: UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE A TEORIA E UMA APLICAÇÃO EM POESIA DE CORA CORALINA – KÊNIA CRISTINA BORGES DIAS





KÊNIA CRISTINA BORGES DIAS

                                                                         Pontifícia Universidade Católica (PUC – GO)

 

Resumo: O presente artigo tem por objetivo uma leitura metafórica em poemas da poetisa Cora Coralina. Tecem-se, aqui, algumas considerações sobre essa figura de linguagem, recurso tão usado pelos poetas, assim como por Cora Coralina. Nesta análise, além de se identificarem as metáforas utilizadas pela poetisa, apresenta-se uma visão crítica do homem e das relações sociais, sem perder de vista toda a magia da poesia. Sabendo-se que o tema da metáfora nos leva a um campo de estudo muito vasto, delimitou-se o mesmo à investigação na língua portuguesa.

 

Palavras-chave: leitura, investigação, análise, linguagem.

 

Abstract: This article aims at a metaphorical reading of the poems of the poet Cora Coralina. It will propose some considerations on this figure of speech as a resource employed by poets, as Cora Coralina. This analysis will identify the metaphors present in the poet’s texts and evince a critical view of man and social relations without losing focus on the magic of poetry. Since the theme of the metaphor can open up to a very wide field of study, this study wil be limited to the Portuguese language.

 

Keywords: reading, research, analysis, language.

 

 

Minicrrículo da autora: Graduada em Letras pela FECLITA, pós-graduada em Língua Portuguesa pela Universidade Salgado de Oliveira. Professora da Rede Pública Municipal de Itapuranga e da Faculdade Itapuranga – FAI.  Mestranda do Programa de Mestrado em Letras – Literatura e Crítica Literária da Pontifica Universidade Católica de Goiás, Goiânia-GO.

 

 

 

 

 

A MÉTAFORA NO TEXTO POÉTICO: UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE A TEORIA E UMA APLICAÇÃO

EM POESIA DE CORA CORALINA

 

 

                                    KÊNIA CRISTINA BORGES DIAS

                                                                         Pontifícia Universidade Católica (PUC – GO)

 

 

  1.  Introdução

Este artigo propõe-se à realização de um breve estudo da metáfora, evidenciando a utilização desta figura na poética de Cora Coralina1. Será evidenciado a metáfora como um elemento não apenas com a função de emocionar mas também de propor ao leitor um novo e diferente modo de interpretação, bem como explorar preconceitos e as questões sociais pungentes.

Ao submeter palavras do cotidiano a um arranjo poético, os poemas passam a ter duplo sentido e deixa para o leitor a tarefa de compreender as relações estabelecidas entre suas palavras e suas intenções em todas as possibilidades, descobrindo assim, o real significado das mesmas. Esta reflexão se faz necessária, pois do contrário, as palavras agrupadas simplesmente não teriam a autenticidade de um texto poético.

É por meio das leituras que perceberemos como a figura de linguagem, metáfora, é bastante importante tanto para o leitor quanto para o escritor. Figura esta que expressa uma certa maneira de instigação e até mesmo um recurso maior de valorização do contexto proposto. A mencionada figura é muito utilizada, até mesmo quando não percebemos falamos por metáfora e com os poetas não é diferente.

As citações utilizadas colocarão o leitor a pensar, refletir e dessa forma as reflexões evidenciarão que o uso da metáfora é uma busca de conhecimentos e descobertas do cotidiano, valorizando o significado e o significante de cada conceito.

A atenção será voltado para uma investigação poética que será tratada nos poemas da autora goiana, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas –   Cora Coralina. A escritora, como todos os poetas usam desse recurso para retratar a realidade vivenciada ou não por eles.

 

  1. Considerações sobre a metáfora

A metáfora, palavra grega (meta = mudança + força = transporte), que significa translação, mudança e consiste em atribuir a uma pessoa ou coisa uma qualidade que não lhe cabe logicamente. Essa transferência de significado de um termo para outro baseia-se na semelhança de características que o emissor da mensagem encontra entre os dois termos comparados. Portanto, é uma comparação de ordem subjetiva.

A comparação é uma espécie de metáfora que estabelece que estabelece uma associação mais limitada de sentidos. É indispensável observarmos que se usarmos os elementos de comparação, não termos metáfora e sim a própria comparação. Isso significa que para entender a metáfora e preciso perceber a comparação subentendia.

Se pretendemos compreender a metáfora além da comparação e da semelhança ou da supressão de partículas de comparação é necessário remetê-las ao que diz Lopes (1987, p.33) “a metáfora emerge em dado foco, mas afeta o sentido do quadro inteiro do seu enquadramento, sentido esse que ela desvia no rumo de uma outra isotropia, um outro plano de conteúdo contextual.”.

De acordo com Lopes o valor conotativo de uma palavra depende do contexto onde ela se encontra. Por exemplo: na palavra “fogueira” Seu rosto foi consumido pela fogueira das minhas recordações”, neste enunciado o significante fogueira exprime ardor, exaltação, entusiasmo. Enquanto que em “faça uma fogueira com o máximo cuidado”, o significante fogueira exprime lenha ou outro material combustível. Com isto temos a ideia de que na metáfora certas palavras adquirem novos significados.

É necessário compreender a palavra dentro do contexto, pois metáfora pertence exclusivamente à esfera do uso. Ela não tem significado especial, varia de acordo com o enunciado. Sendo assim, não podemos interpretar ao pé da letra a metáfora, isto, porque ela não existe em estado do dicionário. Esta figura de linguagem não é apenas um recurso de que se lança mão por falta de expressão adequada, mas também um meio de caracterização pitoresca.

Em síntese didática, pode-se definir a metáfora como figura de significação (tropo) que consiste em dizer que uma coisa (A) é outra (B), em virtude de qualquer semelhança percebida pelo espírito entre um traço característico de A e o atributo predominante, atributo por excelência de B, feita a exclusão de outras secundárias por não serem convenientes à caracterização do termo próprio A.

A experiência e o espirito de observação nos ensinam que os objetos, seres, coisas presentes na natureza, fonte primacial das nossas impressões impõe-se aos sentidos por certos traços distintivos.  Pela intersecção Lopes, esclarece:

 

As somas intersectoras (sic) constituem o fundamento da metáfora; pelo fato de serem possuídos por A e B, eles funcionam como conectores de isotopia, abrindo para vários planos de conteúdo do discurso, cada um dos quais é suscetível de se transformar a qualquer instante, na leitura num texto autônomo (1987, p. 29).

 

 

 

De acordo com o ponto de vista de Lopes recorremos à intersecção para compreendermos melhor como se figura o processo metafórico no plano real, quer dizer, elemento A, a ideia nova a ser expressa ou definida. O segundo, o plano imaginário ou poético, o elemento B, aquela em que a imaginação do emissor percebeu alguma relação ou semelhança com o elemento A.

O ponto de interseção entre os dois elementos justifica a metáfora, pois é neste que situa a possibilidade de aproximar diretamente os termos envolvidos na comparação. Temos uma metáfora onde o comparado A e o comparante B, pertencem a dois paradigmas diferentes /humano/ e /planta/, incompatíveis na mesma construção. Porém, assim construídos passam de algum modo a compartilharem os paradigmas.

Os textos metafóricos colocam o leitor a sonhar e a interpretar tais textos. Para isto se faz necessário usar a imaginação e esquecer as inúmeras regras gramaticais que para a metáfora não tem valia. Sabemos que para uma leitura se realizar é necessário que haja interpretação entre o texto e o leitor, assim como para compreender uma metáfora além de leitura, requer comparação de semelhanças e similaridades, para não se distanciar por demais do termo ou do sentido pretendido.

Uma metáfora nos faz notar certa semelhança, frequentemente uma semelhança nova ou surpreendente, entre duas ou mais coisas. Essa observação trivial e verdadeira leva, ou parece levar, a uma conclusão concernente ao significado das metáforas. Assim, podemos considerar a semelhança ou similaridade comuns: duas rosas são similares por partilharem da propriedade de ser uma rosa, duas crianças são similares em virtude de sua infância, ou mais simplesmente por serem cada uma delas criança.

A metáfora depende de significados novos ou estendidos, ela certamente, depende de algum modo, dos significados originais; uma explicação adequada da metáfora deve admitir que as significadas primárias e originais das palavras permaneçam ativas em cenário metafórico.

Talvez, então, possamos explicar a metáfora como um tipo de ambiguidade. No contexto da metáfora, certas palavras têm um significado novo ou um significado original, e a força da metáfora depende da nossa incerteza ao vacilarmos entre dois significados. A ambiguidade da palavra, se é que existe, é devido ao fato de ela significar uma coisa no contexto metafórico, não os hesitemos, necessariamente, quanto ao seu significado.  Quando hesitamos de fato, é usualmente, para decidir sobre qual dentre o número de interpretações metafóricas aceitaremos; raramente temos dúvida de que se trata de uma metáfora.

Segundo Karsten Harries (apud SACKS, 1992, P. 89), apesar da analogia entre a poesia e a metafísica, não devemos ignorar a maneira bem diferente em que os textos poéticos, por um lado, e os textos filosóficos, por outro, exigem ser lidos. A partir daí, percebemos que apesar de ambos serem textos, devem ser analisados de formas diferentes, tais como, as metáforas parabólicas e metáforas poéticas, as quais são interpretadas de forma diversificada.

Para que compreendamos o estudo metafórico e poético é importante nos prepararmos, estarmos disponíveis e abertos ao entendimento das obras metafóricas. Percebe-se que os poetas metaforizam a obra, colocando-nos a questioná-la, mesmo sabendo que a linguagem enfatizada pelo escritor nunca será igual à usada pelo leitor. A metáfora pode ser universalizada por ter o domínio maior da palavra, embora a escrita seja capaz de exprimir ideias metafóricas com grande clareza. O estudo teológico é bastante amplo e notável nas escrituras do Novo Testamento, onde Jesus em seus ensinamentos usava o poder das parábolas para convencer os povos daquela época a se transformarem espiritualmente e moralmente. Como por exemplo a parábola do ovelha perdida (Lc15.3-7) onde Jesus com o uso da metáfora “ovelha” ressalta o mistério do amor do pai que se alegra em acolher o pecador arrependido ao lado do justo que persevera.

Na verdade a metáfora é utilizada há bastante tempo e é um meio de melhor esclarecer os estudos propostos. Para entender a metáfora no sentido geral, na linguagem deve-se antes entender a conceituação verbal do tema.

Segundo Don R. Swanson (apud SACKS, 1992, p. 164), uma metáfora é um convite obrigatório à descoberta. O que deve ser descoberto são as inúmeras alusões ou atributos em comum entre a metáfora e a verdade subjacente à qual ele remete. O autor deixa explícito que, para haver a descoberta, é necessário que o leitor tenha entendimento, satisfação e prazer pelo que está lendo; assim descobrirá sozinho os erros, criando sua própria versão da verdade metafórica.

Sobre verdade e mentira, no sentido intramoral (sic), Nietzsche afirma:

 

Nunca ele (intelecto) é mais exuberante, mais rico, mais orgulhoso, mais hábil e mais tinerário (sic): com prazer criador ele entrecruza as metáforas e desloca as pedras limites das abstrações, de tal modo que, por exemplo, designa o rio como o caminho em movimento que transporta o homem para onde ele, do contrário, teria de ir a pé (1987, p. 37).

 

 

Com este pensamento percebemos a mesquinhez da existência humana, a qual diferencia de todos os outros seres, o intelecto proporcionando o pensamento, que às vezes demonstra ser maior que os outros seres, neste momento ele cai no engano e não percebe ser um grande miserável, querendo ser superior nas suas defesas de verdade e mentira. O autor questiona sobre a verdade e não podemos dizer ao certo de onde ela provém, pois a sociedade estabelece uma obrigação para que exista, sendo ele o de proferir sempre a verdade, ou seja, de usar as metáforas usuais, isto é, mentir segundo uma convenção sólida tornando assim um estilo obrigatório para todos. Com essa mentira às vezes inconsciente pode-se chegar ao sentimento da verdade. Portanto, a metáfora é a possibilidade de reelaboração do real a partir do real e a partir da linguagem.

Nietzsche vê a metáfora como estrutura cognitiva, pois as diferentes línguas expressam como cada povo reconta sua realidade. O significado é um tijolo no prédio do conceito, ao evoluir no processo de formação de conceitos o homem aprende a generalizar e a degeneralizar. A insatisfação com a realidade estimula a sua reorganização, o homem recusa o senso comum ao produzir metáforas, ao fazer poesia. Nietzsche usa de metáforas para falar sobre metáforas, humanidade, vaidade, seu trabalho é poético.

 

  1. Metáforas poéticas

Voltando a atenção para o uso da metáfora nos poemas, teremos que reforçar que deve ser levado em consideração o foco, o enquadramento e o contexto em que se dá a construção do poema:

 

(…) quando o poeta cria a metáfora original o que ele inventa são os termos, não a relação: encarna uma forma antiga numa substancia nova. (…), a figura de invenção não é original na forma, mas apenas nos termos novos em que o gênio do poeta soube encarná-la (COHEN, 1996, p. 41).

 

Segundo Cohen, o estudo da metáfora vem de longa data e ocupa lugar de destaque na criação poética. É uma figura de linguagem que tende a encontrar os que se propõem a compreendê-la, especialmente quando se pretende descobrir a relação existente entre as metáforas poéticas e as metáforas de uso corrente, pois neste momento, percebe-se que a imaginação aliada à inteligência está acima do conhecimento real e da verdade crua.

Cora Coralina, em seu fazer poético, manteve uma capacidade crítica, acreditando em si, em sua causa e denotando sempre um sentimento por sua terra e sua gente, sem com isso deixar transcrever os limites do regionalismo. A poetisa deu novas formas de significados plurais a temas do cotidiano, usando tanto a metáfora que, isolada, fora do contexto e, por si só, não seria capaz de expressar os sentimentos da autoria em sua plenitude.

Por essa razão, entre nomes e obras pertencentes ao acervo da Literatura Goiana em particular, depara-se com a poesia de Cora Coralina, uma mulher que fez da própria história a matéria prima de seus poemas, exigindo por isso, uma análise profunda, se pretendemos que o nosso juízo alcance de modo suficiente a compreensão das visões ideológicas, registradas pela poesia em meio ao lírico emprego da metáfora.

 

  1. Análise da metáfora no poema “Todas as vidas”

Ao analisarmos o poema “Todas as Vidas”, percebe-se que a metáfora ocupa um lugar importante no fazer poético de Cora Coralina. A autora prova o quanto se comovia com cada uma das mulheres ali presentes e caracterizadas, deixando claro que também sua vivencia era feita com toda aquela sorte de experiências e dificuldades.

A poetisa inicia todas as estrofes do poema com o verso “Vive dentro de mim”. Em consulta ao minidicionário Aurélio (2001, p. 715), encontramos as seguintes definições do verbo viver: ter vida, estar com vida, existir, durar, gozar a vida, residir, coabitar, conviver, dentre outros.

Conforme Jean Cohen: “A linguagem é um simples intermediário codificado da própria experiência. De modo que a comunicação verbal supõe duas operações inversas: a codificação que vai das coisas às palavras; a decodificação que vai das palavras às coisas” (1965, p. 32).

De acordo com Cohen, o poema resgata a complexidade existencial da mulher brasileira para celebrar, através de um discurso aparentemente simples o viver de todas elas no sensível poema. A poetisa utilizou seus poemas metaforizando cada vida vivenciada por ela no lugar onde viveu. Todas as mulheres elencadas não “habitam” em Cora Coralina, entretanto, no poema todas elas coabitam seu ser, trazendo assim ao leitor toda uma realidade existente, essas mulheres ora é benzedeira, ora mulher da vida, todas fortes e até porque não, corajosas.

Bem linguaruda… o termo “linguaruda” é uma metáfora gasta, que por ser muito utilizada passou a fazer parte de nosso vocabulário. Independente de repertório de leitura que o leitor possua irá entende-la como faladeira.

Ao utilizar o termo “casca grossa”2, possibilita-nos uma leitura na qual a mulher é comparada a uma árvore, não para coisificá-la, mas para conceder-lhe a condição de um ser firme, plantada, enraizada em seus afazeres e em sua identidade. É uma metáfora pouco utilizada, mas também faz parte do vocabulário cotidiano. Seu significado varia de acordo com o enunciado, portanto, o leitor precisa decodificar a mensagem codificada.

Segundo Lopes:

 

“A metaforização tem, como todo fato de estilo uma origem paradigmática, mas essa origem tem uma manifestação sintagmática –ela se manifesta num espaço de localização e enquadramento de dimensões muito variadas, mas sempre no eixo sintagmático da fala” (1987, p. 32).

 

De acordo com esse pensamento, averiguamos que se descontextualizarmos uma palavra metafórica, ela deixa de ser metáfora e passa a ser uma palavra de grau zero, igualando-se com os demais vocábulos do dicionário da Língua Portuguesa.

Para Cohen (1992), a poesia é a realização de todas as combinações possíveis da linguagem. Cora faz todas as combinações quando fala da mulher lavadeira do Rio Vermelho, no verso em que evoca “sua coroa verde São Caetano”3, ao assim proceder entendemos que a poetisa possa não estar apenas se referindo ao sofrimento, neste caso segundo a Bíblia, o sofrimento de Cristo, mas também a sua redenção, até porque podemos dar outra acepção à palavra “coroa” como áurea de luz. Todas essas combinações são utilizadas para definir a mulher lavadeira. Nesse sentido, compreendemos que a poetisa coloca-a num outro plano, ou seja, a lavadeira lembra Cristo, lembra sofrimento, mas também sua vitória diante das situações vividas.

São Caetano é uma planta que segundo a sabedoria popular é utilizada como alvejante de roupas, utilizava-se a planta que era esfregada juntamente com o sabão sobre a roupa, tendo ela o mesmo efeito dos alvejantes fabricados nos dias atuais.

Ao falar da mulher lavadeira, pensamos na função social da obra de Cora Coralina, posto que ao falar de todas essas vidas dentro dela, fala de pessoas reais, de mulheres que eram de certa forma escravizadas e ao mesmo tempo ignoradas.

Ao caminhar pelo poema, deparamo-nos com a mulher cozinheira, pois na expressão “cacheada”, a poetisa utiliza a personificação, pois os versos passa-nos a impressão de que a cozinha fosse gente, pois cacheada lembra cabelo de pessoas. Já no verso “pisando alho-sal”, recorremo-nos ao dicionário, a significação de pisar, e encontramos: por o pé sobre, calçar, magoar, andar sobre, atravessar. Pela nossa experiência culinária, sabemos que alho e sal não se pisam, logo entendemos que no verso, esta expressão quer nos remeter a macerar, esmagar. Com a “pedra pontuda”, a mulher cozinheira esmaga o alho e sal como se quisesse esmagar o sofrimento, as dores e o preconceito.

Ao dizer que dentro dela vive a mulher do povo, vê-se a dimensão do compromisso da poetisa com as coisas que passam pela vida sem que a elas sejam dadas a devida importância.

Essa mistura de esferas é verificada no decorrer de toda a poesia, à media que Cora Coralina vai descrevendo e caracterizando a cabocla velha, a lavadeira do Rio Vermelho, a mulher cozinheira, a mulher do povo, a mulher roceira e a mulher da vida, vai demonstrando uma ponta de angustia e sofrimento misturada ao desejo de transformar esta realidade. E no momento em que a poetisa consegue trabalhar as situações corriqueiras e o vocabulário simples de sua gente, dando outras perspectivas a estes aspectos, esta transformação acontece, pois agora representam a poesia e a arte.

O recurso encontrado pela poetisa, assim como pelos poetas em geral, para deixar vazar seus sentimentos, é a quebra de linguagem óbvia e o uso da metáfora. As vidas são tão bem desenhadas no poema que se estendem também às vidas escondidas, às sonhadas, a todas as vidas reprimidas, enfim, impedidas de serem vividas.  E assim, a autora transforma todo esse inventário em poesia, usando um jogo de palavras que se materializam na medida em que são compreendidas pelo leitor.

A poetisa parece revelar-nos o seu repúdio contra as pressões ideológicas com as quais convivia. Estas descrições denunciam o retrato do tempo em que viveu na cidade de Goiás. Numa espécie de ladainha, a poetisa traça o perfil daquelas mulheres que ficaram marcadas de algum modo em sua memória. Isto mostra a forte ligação da poetisa e sua gente, afinal é de si e de sua origem que está falando.

A crítica social pulsa no poema, a discriminação social principalmente da mulher. Admitir essa sociedade é legitimar o reino das injustiças e violências, onde as diferenças sócias e econômicas procuram nivelar a maioria pelo padrão de valores de uma minoria.  Houve ainda no poema, uma mistura de saudade e presente, demonstra que tudo o que a autora viveu e vivenciou continua a fazer parte de sua vida e de sua personalidade.

O processo metafórico da obra é rico. A estrutura frasal anuncia matizes coloridas de imagens, que atesta relevante flexibilidade semântica, que autoriza o vocábulo a refletir valores inesperados. E isso, sem dúvida, implica processo criativo, na elasticidade de sentido que ele dá às palavras dentro de clara valorização estética.

 

  1. Considerações Finais

A leitura e a análise nos permitem evidenciar o uso da metáfora na construção poética dos poema, assim como as pesquisas realizadas mostram que a metáfora se revela como figura de linguagem integrante do universo dos poetas, capaz de tornar ponte entre a realidade e o sonho. Cainhando pela poesia, vemos o real significado da metáfora, principalmente porque pela primeira leitura muitas vezes nos perdemos quanto ao verdadeiro sentido apresentado pelos escritores, sendo assim, percebemos a necessidade de descobrir, interpretar e imaginar, conforme as ideias propostas pelos poetas.

Diante disso, buscamos uma visão crítica do mundo e do homem, contextualizando seus poemas à época em que foram escritos e comparando-os com o presente, pode-se afirmar que a arte transcende o tempo, através da consciência do fazer poético. A inovação coloca o leitor diante de um desafio em codificar a própria língua, sendo assim, notamos que a metáfora se faz presente em vários momentos da vida, não só do leitor como também do escritor. Em tese, a metáfora é um recurso não só usado para que haja mais eficácia na comunicação mas também para expressão mais artística.

 

Referências

 

COHEN, Jean. Estrutura da linguagem poética. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2000.

CORALINA, Cora.  Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. 14ª ed. São Paulo: Global, 1977.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. O minidicionário da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2001.

LOPES, Edward. Metáfora: da Retórica à Semiótica. 2ª ed. São Paulo: Atual, 1987.

NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. 4ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

SACKES, Sheldon. Da metáfora. São Paulo: EDUC/Pontes, 1992.

 

 

 

Notas

1 Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nasceu em 20 de agosto de 1889 na Cidade de Goiás (GO). Começou a escrever muito jovem, porém só publicou o seu primeiro livro – Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais – aos 76 anos de idade. Considerada uma das principais escritoras brasileiras, Cora Coralina foi uma mulher simples, doceira de profissão, mãe de 6 filhos. Vivendo longe dos grandes centros urbanos produziu uma obra rica em motivos do cotidiano brasileiro, mais precisamente dos becos e ruas da Cidade de Goiás.

2 Vive dentro de mim/a mulher do povo. / Bem proletária/.Bem linguaruda,/desabusada, sem preconceitos,/de casca-grossa,/de chinelinha,/ e filharada.

3 Vive dentro de mim/ a lavadeira do Rio Vermelho, /seu cheiro gostoso/ d’água e sabão. / Rodilhada de pano. /

Trouxa de roupa, /pedra de anil. /Sua coroa verde de São-Caetano.

 

 



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