Revista LitCult – Vol.13 - 1º semestre – 2017



A LITERATURA FEMININA NO ABC PAULISTA: MARGINALIZAÇÕES E INTERSECCIONALIDADES – Ana Aparecida Alves Pereira Oliveira, Alessandra Teixeira





 

Ana Aparecida Alves Pereira Oliveira

Universidade Federal do ABC (UFABC)

 

Alessandra Teixeira

Universidade Federal do ABC (UFABC)

 

Resumo: Este trabalho aborda a literatura produzida no ABC Paulista por meio de uma ótica interseccional. Nesse contexto, são considerados processos históricos e estruturais que marginalizaram determinadas identidades – por fatores de “gênero, raça, classe, ideias e nacionalidade” – no âmbito da autoria literária. Além disso, destaca-se a ressignificação recente que atravessa a literatura dessa região.

 

Palavras-chave: Marginalidade. Literatura. Gênero. Interseccionalidade.

 

Abstract: This paper discusses the literature produced in the São Paulo industrial area known as “ABC Paulista” through an intersectional perspective. In this context, it will consider the historical and structural processes that marginalized certain identities – based on factors such as “gender, race, class, nationality and ideas” – in the scope of literary authorship. Furthermore, it will point to the recent resignification that the literature of this region went through.

 

Keywords: Marginality. Literature. Gender. Intersectionality.

 

Minicurrículos:

Ana Aparecida Alves Pereira Oliveira é graduada em Letras (Português/Inglês) pela Faculdade IESA. É especialista em Estudos Linguísticos e Literários pelo Centro Universitário Fundação Santo André, professora e escritora.É mestranda no programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC (Linha de pesquisa: Comunicação, Cultura e Dinâmica social) e autora de Identidade e diferença em “Mariângela”: a representação literária da mulher e das formas de exclusão, artigo publicado em: SCOTOLO, Irene (org.). A leitura como ofício (São Paulo: Porto de Ideias, 2015).

Alessandra Teixeira é professora adjunta do Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais e do bacharelado de ciências e humanidades da Universidade Federal do ABC – UFABC. Mestre e doutora em sociologia pela USP. Advogada. É autora do livro Prisões de exceção: política penal e penitenciária no Brasil contemporâneo (São Paulo: Juruá, 2009). É também autora, entre outros, do capítulo Mulheres Encarceradas e o direito à Educação: entre iniquidades e resistências, no livro Educação em prisões (Yamamoto, A. (Org.).

 

 

A LITERATURA FEMININA NO ABC PAULISTA: MARGINALIZAÇÕES E INTERSECCIONALIDADES

 

Ana Aparecida Alves Pereira Oliveira

Universidade Federal do ABC (UFABC)

 

Alessandra Teixeira

Universidade Federal do ABC (UFABC)

 

Introdução

Quase sessenta anos após o jornalista Au­dálio Dantas ter acesso aos diários de Carolina de Jesus, que resultaram na obra ícone da literatura feminina marginal, Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960), a questão de uma literatura, duplamente marginal, ou multiplamente marginal, posto que atravessadas por diferentes marcadores sociais da diferença e da marginalidade (raça, gênero, classe), ainda se mantém um campo de escassa reflexão teórica e analítica.

Este artigo propõe uma reflexão sobre tal fenômeno, a literatura marginal, a partir de uma abordagem intersecional, abordagem essa que tem sido inovadora no campo das ciências sociais e bastante profícua para a inteligibilidade de fenômenos como desigualdade, discriminação, violência e os modos de promoção de sua invisibilidade. Para tanto, toma-se como referência empírica o contexto geográfico do ABC paulista e como base identitária a autoria feminina produzida nessa região.     

O ABC paulista é uma região de contradições. Ao mesmo tempo em que é marginalizada – inclusive geograficamente – produz marginalidades. A literatura desse local ainda hoje é entendida como marginal em relação ao circuito literário nacional, além disso, a produção de conhecimento sobre o assunto é bastante escassa.

Especificamente com relação à autoria feminina, embora seja um fenômeno ainda mais recente, a criação literária de mulheres já possui uma trajetória de mais de meio século nessa região. No contexto atual, novas vozes sociais têm encontrado nessa forma de representação um veículo para a sua expressão, mesmo que para isso seja necessário ressignificar meios de produção e difusão.

Para tratar do assunto, este artigo é dividido em duas partes. Em primeiro lugar, busca-se apresentar a literatura do ABC paulista como um campo a ser explorado. Com um enfoque especial para a produção de mulheres, essa primeira parte discorre sobre os processos históricos da literatura feminina, tomando como parâmetro o contexto nacional; bem como ressalta as lacunas de conhecimento acerca desse assunto.

Em segundo lugar, direciona-se o enfoque para as marginalizações e intersecções que permeiam tal contexto. Na segunda parte, também é tomado como parâmetro um plano mais abrangente, não somente no que diz respeito à literatura, mas também no que se refere às opressões estruturadas – relativas a gênero, raça e classe – que afetam as relações e a vida social de mulheres em diferentes âmbitos.

 

  1. Literatura feminina no ABC: um campo a ser explorado

Tanto no campo da crítica quanto da historiografia e teoria literárias, não há material produzido especificamente sobre a literatura feminina no ABC Paulista. Nas instituições locais de ensino, iniciativas no sentido de introduzir obras de escritoras locais em seus currículos são raras.  Obras “eleitas” pelo cânone por serem “exemplares”– a partir de rigorosos critérios – ainda compõem os currículos educacionais.

Embora nos últimos anos muitos esforços no campo da educação tenham sido realizados no amplo sentido da democratização do acesso ao conhecimento, poucas são as instituições que agregam em seu currículo obras da literatura contemporânea, especialmente aquela produzida no entorno de tais instituições.

Um dos sintomas desse distanciamento entre a literatura produzida na região do ABC e o currículo das instituições de ensino, tanto da educação básica quanto do ensino superior, é a escassez de pesquisas sobre o assunto. Trata-se de um tema que raramente permeia as discussões acadêmicas locais.

Alves (2009, p. 8), ao se referir à produção cultural abecedana, alerta para a necessidade de levantamento, organização, sistematização de dados e produção de conhecimento sobre produtos culturais dessa região. Segundo o autor, seria necessário que o Consórcio Intermunicipal – instituição que congrega políticas de desenvolvimento para os sete municípios – e as universidades da região liderassem “um movimento pela recuperação, estabelecimento crítico, sistematização catalográfica e ampliação consorcial do acervo gráfico que compreenda e explique o ABC”.

A literatura seria uma das facetas dessa produção cultural e por isso se torna imprescindível reconhecê-la como um fenômeno inserido num campo de conhecimento que merece ser explorado e cujas informações devem ser popularizadas.

Veras (2000 p. 21) critica o distanciamento entre as universidades locais e a literatura produzida na região. Para ela, em boa parte dos cursos de Letras, as discussões sobre a literatura brasileira se estendem no máximo ao modernismo, como se nada de novo tivesse sido produzido nos últimos anos “em matéria de literatura”. Dalila Veras é uma escritora da região, que desde os anos de 1980, juntamente com outras autoras e autores locais, empenha-se em realizar tal aproximação.

Alguns registros literários, memorialísticos e historiográficos revelam que o ABC conta com uma tradição literária que já remonta pelo menos um século de história. O marco fundador dessa tradição surge com o primeiro veículo de imprensa da cidade. Os poemas Chromo, de Vidal Pessoa e A fábrica de Damasceno Vieira, publicados no jornal O Monitor, no ano de 1904, inauguram a literatura local.

Sobre o poema de Vieira, vale ressaltar que cria uma identidade romantizada do operário, numa região em que a industrialização começa a se instalar e se expandir para fixar um dos maiores polos industriais do país. Segundo Melo (2000), o que Vieira não poderia prever é que no ABC – incluindo Santo André – o operário, distante de qualquer romantização, adquiriria tamanha relevância; tampouco que a ação operária local promoveria lutas políticas que marcaram a história do Brasil.

Os primeiros registros da participação feminina na literatura da região estão datados no início dos anos de 1950 e, desde então, uma profusa participação de mulheres pode ser observada. Neste período, destaca-se a escritora, tradutora e professora, fundadora da primeira biblioteca municipal de Santo André, Nair Lacerda (MELO, 2000).

Outra autora que vale mencionar, em vista do seu engajamento, é Léa Aparecida que, além de poeta, foi operária metalúrgica e vereadora pelo Partido dos Trabalhadores, no município de Mauá, em meados da década de 1980. Diretamente vinculada à militância política, Léa desapareceu tragicamente no ano de 1988.  Acerca de sua poética, Veras (2000, p. 15) pontua que assumia a faceta do engajamento, sem, contudo, constituir-se como “panfletária”:

 

Não foi a condição operária que fez de Léa uma poeta, mas lhe deu material para sua obra, onde o vivenciado sempre dominou. Para exemplificar, comparemos um trecho do poema “A Fábrica”, de Damasceno Vieira, publicado no jornal O Monitor, S. Bernardo, 1904, onde o operário é romanticamente idealizado: “Sem temer as ruidosíssimas provanças/ nem as fadigas da tarefa intensa,/ homens, mulheres e gentis creanças/ sorriem, cantam de alegria immensa!”, com o poema de mesmo nome de Léa Aparecida, onde a fábrica é vista por dentro: “Fundem-se metais desiguais/ Na fuligem a ferrugem que fica/ Em focos de tempo corrido/ (…) Em cada pancada nas prensas/ A pressão dos sentidos (…) Até que plange um apito/ Na tarde dos cansados e oprimidos (op. cit.).

 

Há pelo menos trinta anos a historiografia literária feminista tem se ocupado de resgatar os escritos que a tradição canônica deixou de lado; em vista de seus rigorosos critérios estéticos que operavam (e ainda operam) a inclusão ou exclusão de autores e autoras no circuito nacional. Entre outras coisas, os estudos dessa área discutem as relações de poder e dominação que promoveram o apagamento da identidade de escritoras ao longo do curso histórico da literatura brasileira (SCHMIDT, 2008, p. 127).

Com isso, surge uma nova visão sobre a literatura que, antes entendida como objeto artístico/estético, passa a ser compreendida como objeto estético/escritural. Essa segunda definição a inscreve como “matéria significante situada no domínio da cultura”, na qual se identificam a expressividade e a coletividade (op. cit.).

Segundo Hollanda (1991, p. 4) o cânone é orientado por um “mito da linearidade da história literária” que produz a ideia de uma tradição que é “única e ininterrupta”, aquilo que não se adequa à lógica dessa tradição é lançado à margem, por razões que não raro são relacionadas a fatores de “sexo, raça, ideias ou nacionalidade”. Além disso, reflete que a tradição criou uma linhagem patrilinear que tem por base “os sistemas da propriedade privada”. Somente os filhos dessa linhagem seriam os “herdeiros legítimos de um patrimônio material, político e cultural” (Op. cit., p. 4).

Entende-se que a instituição de uma identidade universal para o crítico e para o escritor – homem branco, classe média, erudito – além do rigor dos critérios para considerar o valor literário da obra, serviram para que, durante longo tempo, as identidades de determinados sujeitos fossem absorvidas, suas vozes, silenciadas, e sua participação e contribuição para a história da literatura, ignoradas.

A literatura no município de Santo André – enquanto parte representante da literatura no ABC – surge nos mesmos moldes, cultivada no interior das famílias mais abastadas, transmitida sob o mérito da filiação e da herança, difundida pelos veículos de imprensa pertencentes a famílias deste mesmo círculo. Porém, o cenário literário da região é praticamente ignorado nas esferas local e nacional.

Para Veras (2000, p. 9), boa parte da comunidade local desconhece a identidade dos seus escritores. Ela sugere, desde a década de 1990, que “um trabalho de incentivo à leitura desses autores também seria desejável”.

Ao longo da história da literatura andreense, por exemplo, alguns esforços no sentido de atrair olhares para a literatura local não tiveram êxito. Foi o caso dos concursos literários produzidos pela Casa da Palavra, também localizada em Santo André, na década de 1990, em que a maioria dos escritores premiados eram da capital (MELO, 2000).

Outra questão a ser observada é o fato de haver pouca informação sobre as produções literárias para além do município de Santo André. Isso mostra a falta de articulação de entre as políticas públicas de cultura dos municípios, os seus artistas e pesquisadores locais. Especialmente no que se refere ao franqueamento de amplo acesso, fomento à produção, registro e à difusão dos fazeres culturais.

Apesar disso, o cenário atual esboça algumas mudanças. Hoje é mais comum o encontro com/entre escritores e escritoras da região pertencentes aos mais diferentes contextos sociais e econômicos. A ainda embrionária descentralização de atividades como saraus, rodas de conversa e oficinas para os bairros e regiões periféricas têm colocado a população em contato com a literatura produzida no ABC, além de estimular essa mesma população a produzi-la. Nessa dinâmica, as redes sociais são uma ferramenta útil para a difusão de tais atividades, bem como para a divulgação pessoal de escritoras, escritores e suas obras.

Apesar de toda a problemática que envolve a literatura produzida no ABC, observa-se o surgimento de novas vozes sociais e a ressignificação das formas de produção. Os restritos clubes e grupos que marcaram a sua trajetória histórica hoje dividem, literalmente, espaço com coletivos que atuam de forma descentralizada e com a proposta de abarcar múltiplas identidades. Esses também buscam por novas formas de produção e difusão de escritos, inclusive com a retomada de gêneros usuais, como os fanzines e as revistas literárias, essas últimas em formatos impressos e digitais.

 

  1. Marginalizações e Interseccionalidades

“Na nossa fantasia perversa aceitamos que o pobre sonhe com um Nike,

mas não com um Flaubert”

Heloísa Buarque de Hollanda (parafraseando Ferréz)

 

Para Hollanda (s/d, p. 1) a atuação periférica, no que tange às expressões artísticas, apresenta-se como “a grande novidade” deste século, como forma de resposta ao aumento da intolerância racial e das altas taxas de desemprego; comuns aos países de economia globalizada.

Embora a tradição tenha produzido apagamentos ao longo da história da literatura, faz parte de suas recorrências temáticas as desigualdades sociais e demais mazelas que permeiam o Brasil. O engajamento de cariz social marcou expressivamente as gerações modernistas e tem sido retomado com força na literatura contemporânea, com algumas diferenças, já que os seus atores são outros.

Para Hollanda (s/d, p. 5) novas vozes sociais surgem e, juntamente com essas, uma “democratização de perspectivas”. Obras literárias de relevância tem como autores sujeitos das regiões periféricas, o que modifica também o “desenho” das personagens que se tornam mais verossímeis em relação ao contexto social no qual estão inseridas. Algo que se observa desde Carolina Maria de Jesus, mas que somente se ampliou com os avanços sociais pelos quais passou o Brasil neste início de século.

É dentro desse contexto de mudanças, interseccionado por diversos fatores, que se insere a literatura de autoria feminina produzida no ABC Paulista. Apesar dos processos históricos pelos quais já passou, essa literatura ainda se encontra à margem do circuito nacional. Ao mesmo tempo, somente nos últimos anos, escritores e escritoras de locais mais periféricos têm conquistado espaço nos círculos literários da região; quando não “criam” novos espaços em que possam circular.

Não é novidade a utilização de uma ótica interseccional em estudos que têm como objeto o fenômeno da literatura feminina. Ao analisar a construção do espaço urbano pela perspectiva de autoras negras como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, Dalcastagné (2015, p. 299) pontua que o lugar da mulher negra num país como o Brasil assinala um espaço de interseccionalidade. Já que essa ocupa a base da pirâmide social do país, exercendo a maioria das funções subalternas e recebendo, portanto, a menor remuneração para o desempenho de suas atividades profissionais (op. cit., 299).

A noção de interseccionalidade – conforme cunhada pela advogada americana Kimberlé Cremshaw – surge com o objetivo de promover melhor compreensão sobre a existência de diferentes discriminações que operam juntas na vida social e cultural de mulheres. É importante ressaltar que esse debate se insere no campo de estudos sobre identidade.

Cremshaw (1993, p. 1282) justifica que na cultura norte-americana (assim como na cultura brasileira), a desvalorização da mulher negra está relacionada, além de ao machismo e ao racismo, à construção de sua imagem nas formas de representação. Este fato promove a vulnerabilidade de mulheres, expondo-as a diversos tipos de violências, entre as quais o espancamento e o estupro. Isso quer dizer que as categorias já mencionadas se entrecruzam nos mais diferentes contextos e situações, incidindo diretamente sobre a realidade de mulheres.

A intersecção entre gênero e raça é fruto de processos históricos já avançados. Stepan (1994) realiza uma considerável contextualização sobre esse assunto em seu ensaio Raça e gênero: o papel da analogia na ciência. A autora discute como, por meio de analogias e metáforas, a ciência encontrou justificativas para “racializar” o gênero e as etnias de povos não ocidentais em determinado momento da história.  Ao serem consideradas pela ciência como análogas aos “macacos”, as “raças inferiores” e “mulheres” foram destituídas de sua humanidade e consequentemente de seus direitos básicos.

Retomando as considerações de Cremshaw, observa-se que ainda hoje a clássica definição de direitos humanos, baseada na noção de universalismo, não reconhece as especificidades dos indivíduos e grupos sociais e culturais. Ou seja, a concepção universalista de direitos humanos e seu arcabouço jurídico, ao não conceberem as diferenças de indivíduos e grupos sociais enquanto fatores historicamente geradores de opressão, contribui para a invisibilidade das situações de desigualdade, discriminação e violência. Para ela, uma visão tradicionalista faz que os problemas de gênero digam respeito somente às mulheres, os de raça, somente às minorias étnicas, os de classe, aos indivíduos de baixa renda.

Em suas proposições, compreende-se que ao adotar uma perspectiva interseccional, o (a) pesquisador (a) não precisa lidar com grupos distintos de pessoas, mas com grupos “sobrepostos”. Isso porque não apenas os fatores de opressão se entrecruzam, mas também os indivíduos em suas relações sociais. Porém, ela é enfática quanto ao fato de a mulher negra ocupar a base dessa sobreposição de opressões, de forma que tal aspecto deve ser primordialmente ressaltado (CREMSHAW, 2002, pp. 9-10).            

Não se pode defender, no entanto, que pelo fato de a literatura no ABC ser considerada marginal em relação ao contexto nacional, todos (as) os (as) escritores (as) atuantes nessa região sejam necessariamente pobres, negros (as), moradores (as) dos subúrbios. As diferenças de classe, de raça e de gênero também se fazem presentes em suas dinâmicas social e cultural.

Trata-se de uma região marginal, à medida em que não dispõe de políticas culturais, com exceção de algumas cidades, sequer semelhantes àquelas implementadas nas grandes capitais; bem como por se situar – geograficamente falando – à margem da capital paulista. Por outro lado, também marginaliza, à medida que em os seus municípios centralizam as políticas de cultura, restringindo-as ao acesso de uma parcela reduzida da população.

Ao se voltar essa perspectiva interseccional para a questão da literatura produzida no ABC Paulista, surgem algumas interrogações:

Dentre as escritoras do ABC há mais moradoras dos centros ou das periferias? Há mais brancas ou mais negras? O acesso aos bens culturais – em que se investiga, produz e difunde a literatura – é equânime a estas mulheres independentemente de sua cor, classe, nível de escolaridade e articulação no meio cultural? Como os fatores de gênero, raça e classe se entrecruzam no contexto em que ocorrem a produção e a difusão dos seus escritos?

Em primeiro lugar, respostas que atendam a tais perguntas requerem uma investigação qualitativa aprofundada sobre o fenômeno da literatura feminina no ABC e suas recorrências. Em segundo, o que se pode afirmar é que a região não está fora do contexto brasileiro, em que as vivências de mulheres ainda são pautadas por papéis de gênero, bem como afetadas por fatores de raça, classe, entre outros que podem acentuar a sua condição desigual na sociedade.

Também é fato que a literatura local tem sido marcada pela diversidade e pela ressignificação dos meios de produção cultural. Os saraus periféricos surgem como alternativas aos eventos centralizados que não atendem amplamente as demandas por cultura. Identidades distintas daquelas comumente esperadas para o escritor ou a escritora também têm se destacado.

É o caso da escritora Ana Paula Costa e Silva, ex-coletora de material reciclável e moradora da cidade de Mauá. A autora ganhou a atenção de um jornal local no início de 2015 por reunir, encadernar artesanalmente e vender seus poemas nas ruas da cidade. No final do mesmo ano, após ter conquistado uma recolocação profissional e certa atenção pública, a sua antologia de poemas passou por uma nova edição, sendo transformada em livro.

 

Considerações Finais

Para compreender minimamente o ABC Paulista é necessária a atenção a diferentes fatores. Não há como pensar um local que é plural, onde se situam migrantes e imigrantes em busca de oportunidades ou moradia, além de pessoas de diferentes gêneros, orientações sexuais, raças e condições sociais por uma ótica estanque. A história da literatura no ABC, mesmo que de forma desproporcional – entre os mais remediados e os mais periféricos/marginalizados – destaca-se como uma trajetória que tem sido construída por atores distintos.

Num momento como o atual, em que tais diferenças confluem de forma mais nítida na literatura dessa região, a produção de registros, reflexões e discussões sobre o assunto são imprescindíveis, tanto no que diz respeito à produção de conhecimento quanto com relação à necessária aproximação entre pesquisadores locais e fazeres culturais. É papel da academia e da intelectualidade do ABC valorizar a literatura local, reconhecendo a sua importância enquanto expressão da diversidade cultural dessa região e, principalmente, como instrumento de transformação social.

 

Referências

ALVES, Luiz Roberto. Grande ABC: culturas que excedem o lugar culturalizado. Ed. Alpharrabio. Santo André, 2009.

COSTA E SILVA, Ana Paula. Jornal ABCD Maior. Disponível em: <http://goo.gl/waFRU6>. Acesso: 10/08/2016.

 

CREMSHAW, Kimberle. A Interseccionalidade na discriminação de raça e gênero. Revista Estudos Feministas, 2002. Disponível em: <http://goo.gl/cdJ6JU>. Acesso: 15/06/2016.

­ CREMSHAW, Kimberle. Maping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence Against Women of Colour.  Stanford Law Rewiew, 1993.

DALCASTAGNÈ, Regina. Para não ser trapo no mundo: as mulheres negras e a cidade na narrativa brasileira contemporânea.  Revista Estudos de Literatura Brasileira contemporânea, n.44.  Brasília, julho/dezembro de 2014, pp. 289-302-637. <http://goo.gl/KRernP>. Acesso: 10/07/2016.

HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Literatura Marginal. (S/d). Disponível em: <http://goo.gl/uHZo2n>. Acesso: 11/09/2016.

HOLLANDA, Heloísa Buarque de. O estranho horizonte da crítica feminista no Brasil. Trabalho realizado para o Colóquio “Celebración y Lecturas: La critica literaria em Latinoamerica”, Ibero-Amerikaniches institut Preussischer Kulturbesitz, Berlin, 20-24 de novembro de 1991. Disponível em: <http://goo.gl/7b4dd7>. Acesso: 05/05/2016.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. Ed. Ática. São Paulo, 2014.

MELO, Tarso M. de. História da literatura em Santo André: um ensaio através do tempo. Edição fomentada pelo fundo de cultura do município de Santo André. Santo André, 2000.

SCHMIDT, Rita Terezinha. Centro e margens: notas sobre a historiografia literária. Estudos de Literatura. Brasileira Contemporânea, nº. 32. Brasília, julho-dezembro de 2008, pp. 127-141. Disponível em: <http://goo.gl/g5Oe0a>. Acesso: 15/07/2016.

STEPAN, Nancy Leys. Raça e gênero: o papel da analogia na ciência. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Ed. Rocco. Rio de Janeiro, 1994.

VERAS, Dalila Teles. As artes do ofício: um olhar sobre o ABC. Ed. Alpharrabio. Santo André, 2000.

Jornal ABCD Maior. Disponível em: <http://goo.gl/waFRU6>. Acesso: 10/08/2016.

 

 



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