Revista Mulheres e Literatura – vol.15 – 2º Semestre - 2015



A LITERATURA E A MULHER – Davi da Silva Oliveira





Davi da Silva Oliveira

 

Centro Universitário Adventista de São Paulo-Engenheiro Coelho (UNASP-EC)

 

 

RESUMO: O presente artigo faz uma referência histórica a respeito da presença da mulher na literatura, privilegiando as manifestações populares no mundo do cordel, dando destaque a três repentistas: Chica Barrosa, Rita Medeiros e Maria Tebana, dedicando um espaço maior à primeira. Acrescente-se que esta, além de carregar o “jugo” de ser mulher, é também negra. Mesmo assim navegou contra a maré do machismo e outros preconceitos, adquirindo fama no ambiente artístico-literário.

 

Palavras chave: Literatura – cordel – afrodescendente – Chica.

 

ABSTRACT: This paper makes a historical reference to the presence of women in Brazilian oral string literature (cordel), giving special  attention to the literature of Chica Barrosa, Rita Medeiros, and Maria Tebana. Its focus falls upon the former, not only because she was a female black author but because she also fought misogyny and racial prejudice, becoming famous as an artist who championed women’s cause against chauvinism and discrimination.

 

Keywords:  Literature on a string – cordel – Afro-Brazilian woman – Chica.

 

Minicurrículo: Davi da Silva Oliveira é Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, professor de literatura no UNASP-EC.


 

A literatura e a mulher

 

 

DAVI DA SILVA OLIVEIRA

 

Centro Universitário Adventista de São Paulo-Engenheiro Coelho (UNASP-EC)

 

 

INTRODUÇÃO

 

Apesar de ter acontecido por trás da cortina do remoto tempo, a Inquisição reencarna-se nas obras contemporâneas, quando, na década de 1980 os romances que alcançavam largo sucesso traziam no seu bojo a temática da violência inquisicional. Como este episódio tomava por base o delito da opinião, algumas obras vieram à tona órfãs, como uma blindagem de segurança para seus progenitores.

Já livres do poder nefasto da Inquisição, no século XIX, Camilo Castelo Branco assume a paternidade de obras como Cavar em ruínas, A caveira do mártir e, adicione-se que o autor de Amor de perdição edita um poema de António Serrão de Castro: Os ratos da Inquisição. Por estas obras, corre o sangue nas veias das palavras que descrevem o poder demoníaco dos agentes inquisitórios (sic).

Na ênfase do lastro pelo qual se manifestam as marcas da Inquisição, encontramos as obras O físico prodigioso, A casa do pó e o Memorial do convento, respectivamente de Jorge de Sena, Fernando Campos e José Saramago, todas paridas no berço do século XX. A leitura dessas obras atua como uma releitura da História de Portugal, História ressuscitada e relida, com a liberdade do romancista de apresentar a sua verdade livre das algemas do poder repressor e cruel do Santo Ofício.

 

MULHER VERSUS HISTÓRIA

Com o passar do tempo, apagadas luzes pouco a pouco se acendem, erguendo a mulher através de alguns movimentos, outorgando-lhe algum papel na sociedade. Daí, já a encontramos atuando no expediente de contar histórias ou em alguma atividade religiosa, dentro dos limites da família. Isto, com a observação dos homens da casa: pai, irmão e marido. O papel destes era fazer uma triagem prévia, uma espécie de censores que selecionavam a atividade ou o texto apropriado para uma mulher. No campo da religião, ela atua no gênero das rezas, porque exercer algum papel literário não seria moral ou ético.

Sob a tutela do marido, do pai ou da sociedade, à mulher era negado o direito de estudar e de ler, porque, segundo era alegado, isso poderia lhe conferir um saber que ameaçaria a sociedade. Era, de certa forma, como cortar o mal pela raiz. A mulher do século XIX e início do século XX condicionava-se a ser uma dona de casa, tendo em reino a obrigação de cuidar dos filhos e do marido. Fora isso, as atividades, entre elas a intelectual, eram vistas como uma rebeldia e ameaça, porque não deveria fazer parte da formação feminina.

Disto resultou a ausência da mulher nos meios intelectuais de então, inclusive na literatura de cordel. Daí que, por ser considerada uma inconveniência uma autoria feminina, o registro dela como assinando algum folheto, no caso da literatura de cordel, é inexistente ou, quando muito, nebuloso.

 

MULHER VERSUS LITERATURA

Nesse ligeiro apanhado, consideramos que a mulher da história também adentrou no espaço da literatura, as marcas da presença feminina marginalizada na história passaram para a mulher esquecida e anonimada na literatura, inclusive de cordel. No entanto, na literatura dita clássica, as mulheres obtiveram seu merecido espaço.

Algumas vezes, uma mulher produzia alguma obra como poesias verbalizadas oralmente pelos seus pais ou maridos, ou também, que a mesma tenha atribuído a autoria ao esposo. Fora isso, ela aparece como leitora, lendo silenciosamente ou em voz alta no seio da família.

Sobre o papel das mulheres na literatura de cordel, Santos (2008, p. 16) declara:

 

(…) contudo, elas cantavam e produziam suas poéticas da maneira mnemônica da tradição, a exemplo daquelas que com suas violas em punho desafiaram o paradigma a elas imposto, caso das cantadoras cujos nomes ficaram gravados na memória dos nordestinos: Zefinha do Chamocão, Chica Barrosa, Terezinha Tietre, Maria de Lourdes, Vovó Pangula, entre outras.

 

Uma pergunta precisa ser elaborada: por que as mulheres contavam suas histórias e estas eram impressas por algum cordelista homem? Elas teriam condições de escrever o seu próprio folheto? A compreensão para este fato vem da formação da sociedade feminina, onde a presença do homem, diga-se do machismo, seria um bloqueio para que se materializasse a composição explícita de folhetos produzidos pela mulher.

Seria um escândalo vermos uma escritora circulando por gráficas e feiras tentando levar avante um projeto de escrita ou venda de folhetos. Pais e maridos seriam alvejados com os mais menosprezados adjetivos. No passado, muitas mulheres também eram analfabetas.

É bom sabermos que, com embrionária aceitação do folheto de cordel, alguns escritores eram os responsáveis pela impressão e venda de suas obras. Vale registrar o nome de Leandro Gomes de Barros, que foi o primeiro cordelista que passou a viver exclusivamente dos seus folhetos.

Nesse jogo de escritor e proprietário (editor) do folheto, encontramos o palco da marginalização da mulher no mundo da literatura de cordel. O proprietário da gráfica tinha o direito de imprimir o folheto e também de abstrair o nome do escritor, passando a autoria do folheto a ser conhecida não atribuída a quem o escreveu, mas ao editor. Segundo declara Abreu (1999, 102), o proprietário “(…) adquiria também o direito de suprimir o nome do autor dos folhetos publicados ou mesmo substituí-los por seu próprio.”

Para corrigir esse absurdo, alguns editores acrescentavam a expressão “editor-proprietário”. Neste ínterim, supõe-se que as mulheres poderiam ter escrito alguns folhetos, mas teriam passado o direito de autoria a algum editor homem. Isto é uma “oficialização” materializada do exercício masculino na autoria da literatura de cordel.

Citemos como exemplo o caso da poetisa Maria das Neves Batista que, em 1938 publica o folheto O violino do diabo ou o valor da honestidade. Neste folheto, não encontramos o nome dela. Em lugar disso, registra-se o pseudônimo Altino Alagoa, que era o apelido do seu esposo. O fato de se esconder atrás de um pseudônimo remete ao resguardo de se expor.

Veja o depoimento da cordelista registrado por Queiroz (apud SANTOS, p. 2009, p. 8): “Todos os folhetos que foram vendidos na livraria de meu pai ou que foram impressos, tinham nome de homem, eram homens que faziam, não existia naquele tempo, folheto feito por mulher, e eu, para que não fosse a única, né?, meu nome aparecesse no folheto, não fosse eu a única, então eu disse:

– Eu não vou botar meu nome.

Aí meu marido disse:

– Coloque Altino Alagoano.”

 

Para termos um vislumbre da discrepância entre o número de homens cordelista em relação ao de mulheres, veja no quadro de Queiroz (2006, p. 17) a os dados numéricos dos títulos e as autorias femininas:

 

Acervos de Literatura de Cordel pesquisados

 

Período Jun/2004 a Nov/2005 Instituição/Órgão Localização No.de títulos de cordel Títulos autoria feminina
USP/IEB São Paulo (SP) 1.555 5
Fundação Cultural de São Paulo São Paulo (SP) 3.500 14
A B L C Rio de Janeiro (RJ) 4.000 6
FUNARTE Rio de Janeiro (RJ) 6.000 10
Fundação Cultural da Bahia Salvador (BA) 5.000 37
UFBA/PEPLP Salvador (BA) 50 10
Fund.Casa J.Américo João Pessoa (PB) 1.000 5
UFPB João Pessoa (PB) 4.000 8
UFCG Campina Grande (PB) 6.000 25

 

 

A mesma autora (idem) apresenta-nos outro quadro, desta feita, com um fator positivo em meio ao caos, ou seja, um registro de 70 cordelistas encontradas num universo de 170 títulos. Vejamos o quadro:

 

 

 

 

RELAÇÃO DE CORDELISTAS POR REGIÃO

 

            Período da coleta: jun/ 2004 a nov/2005 ESTADO No DE AUTORAS TÍTULOS DE CORDEL
ALAGOAS 1 4
BAHIA 6 13
CEARÁ 29 91
GOIÁS 1 3
MINAS GERAIS 1 1
PARAÍBA 13 34
PERNAMBUCO 1 1
RIO GRANDE NORTE 5 5
RIO DE JANEIRO 7 8
SERGIPE 1 1
SÃO PAULO 3 5
SEM IDENT.REGIÃO 2 4
TOTAL 70 170

 

 

Tenho em casa dois volumes produzidos pela ABLC – Academia Brasileira de Literatura de Cordel –, onde, evidentemente, estão registrados os melhores cordelistas, segundo aquela instituição. São exatamente 31 escritores e nenhuma escritora. Isto não quer dizer que não haja mulheres que escrevam cordel, mas, creio que, mesmo existindo cordelistas, não foram contempladas pela oportunidade de serem reconhecidas.

Numa pesquisa aleatória, causa surpresa a maioria esmagadora de escritores e uma ausência congelante de mulheres escritoras. Isso foi pacificamente aceito. Pior, ainda hoje, não se questiona muito, apesar das reivindicações em prol da inserção da mulher no mercado.

Segundo relata Santos (2009, p. 8): “No site da Academia Brasileira de Literatura de Cordel a exclusão das mulheres também é visível, são homens os vinte e sete poetas apresentados como os grandes cordelistas dos séculos XIX, XX e XXI. O quadro acadêmico, composto por quarenta cadeiras, nenhuma grafada com nomes de poetisas, também não se mostra receptivo às mulheres, elegendo apenas cinco para fazer parte do grupo seleto.”

Resumindo as palavras de considerações da “participação” da mulher na literatura de cordel, poderíamos dizer que foi imposto um silêncio histórica à mulher nos folhetos, relegada ao esquecimento. A participação delas fica restrita às folhas onde é descrito todo o ranço da masculinidade. Somente no século XX é que há um emergir de escritoras femininas assinando a produção da literatura cordelista.

 

CHICA BARROSA

Merece a nossa atenção as palavras de Santos (2009, p. 207), numa matéria sob o título: Cantadoras e repentistas do século XIX: a construção de um território feminino: “Foi somente na transição entre os séculos XX e XXI, no ano 2000, que uma das mais importantes obras sobre a produção de autoria feminina na literatura brasileira do século XIX, organizada por Zahidé Lupinacci Muzart, veio à tona, e por uma editora de mulheres. Até então, quase nada sabíamos sobre essas mulheres que, apesar de a crítica literária as ter excluído do seu cânone, escreveram e publicaram no seu tempo, a exemplo de Nísia Floresta, Maria Firmina dos Reis, Idelfonsa Laura César, entre tantas outras.”

A citação acima é um registro do que constatamos na prática, ou seja, a abstinência autoral de mulheres na literatura, mormente, de cordel, onde a imperiosa marca masculina merece menção.

De pais escravos alforriados, ele se chamava João Francisco dos Santos e a mãe, Josefa da Conceição Silva, ambos nascidos no quilombo de Mãe d’Água. Como o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, os irmãos de Chica Barrosa não tinham pendor para o repentismo.

Sabe-se que a viola era para Chica Barrosa uma peça sagrada, devido ao uso constante e diferenciado que a repentista dedicava a este instrumento. Dizem até que, mesmo quando a pombalense estava bebendo, nunca deixava a sua companheira ao léu.

Chica Barrosa, Francisca Barrosa ou Francisca Maria da Conceição faz parte de uma sociedade de pessoas de cor que habitaram a região nordestina, hoje conhecida como o município de Pombal, no estado da Paraíba.

Chica destaca-se pela habilidade do improviso, sendo uma genialidade em pessoa.  Nasceu em 10 de julho de 1897, data em que aquela comunidade já havia passado da categoria de vila a cidade. A repentista foi assassinada na mesma localidade por José Pedro da Silva exatamente no dia 3 de outubro de 1916. Tudo indica que a motivação do assassinato foi passional. Diz-se que a repentista havia discutido com o futuro assassino num baile. Este lhe desferiu alguns golpes de faca, podando a vida da mais conhecida repentista mulher de então.

Medeiros (2009, p. 54) registra a opinião de estudiosos da época sobre Chica Barrosa: “(…) grande cantadeira sertaneja, gabada como a primeira lutadora do seu sexo que enfrentou os nomes mais ilustres da cantoria. Era alta, robusta, mulata, simpática, bebia e jogava com qualquer boêmio, e tinha voz regular. Paraibana, seus desafios correm mundo, despertando aplausos. O seu combate mais célebre foi com o cearense Manuel Martins de Oliveira, conhecido como Neco Martins, de São Gonçalo do Amarante. Mesmo quando vencida, a mulata improvisara magnificamente, deixando forte impressão entre os cantadores. Com Manuel Francisco de Pombal, bateu-se longamente, vencendo-o, assim como ao cantador José Bandeira. Chica Barrosa assim se autodefinia: “A negra Chica Barrosa é faceira e é dengosa.”

A fama de Chica Barrosa foi além dos limites do município de Pombal, ou mesmo da Paraíba. A história do seu talento correu pelos torrões da Paraíba, Ceará e do Rio Grande do Norte.

Certamente, precisaríamos de mais espaço para citar alguns versos marcantes na carreira da repentista. No entanto, registremos ao menos alguns, citados por Irani Medeiros:

Num proverbial embate entre Chica Barrosa e Neco Martins, veja como a repentista se saiu de uma enrascada:

 

Canta Neco:

 

Ô BARROSA, me responda,

Seja por mal ou por bem:

Em cima daquela serra

Quantos pés de capim “tem”?

 

Então, Chica Barrosa responde:

 

Se a seca não matô

Ou os bichos não comeu,

Em riba daquela serra,

Tem os capim que nasceu! (apud SANTOS, p. 12).

 

Mais poesia do embate.

 

Barrosa

 

Me danei numa certa ocasião,

Fiz água do mar parar o açoite,

Fiz o dia nascer à meia-noite,

Transbordando a noite num clarão.

Fui ao céu escanchada num trovão,

Um corisco me vendo, se escondeu;

Um raio ia descendo, não desceu!

Fiz, da lua, um planeta vagabundo…

Coloquei quatro rodas neste mundo,

Mandei a terra correr, ela correu! (apud SANTOS, p. 111).

 

 

Resposta de Neco:

 

Pra enganares os tolos deste mundo,

Uma bela mentira tu constaste:

O açoite do mar, tu não paraste,

Que o mar é incrível, iracundo!

O abismo dos céus é tão profundo,

Que, num simples trovão, é inatingível!

Nascer o Sol à meia-noite é impossível!

Segundo as leis da física celeste:

Fica, assim, pois, desfeito o que fizeste,

De ninguém dar-te crédito, estás passível (apud SANTOS, p. 112).

 

 

Segundo o relato de Medeiros (2009, p. 54), a plateia que assistia ao embate pedia um palavreado mais apimentado. Isso favorecia a Chica Barrosa, por ser dotada de uma capacidade acima do normal para o improviso. Neste contexto, dizem que ela foi merecedora de mais aplausos, o que deixou o Neco em situação desfavorável, levando-o a apelar para a violência, sacando mão de uma “marca” para desferir seus projéteis palavrórios sobre a repentista. Claro que, não esperando por tempos ruins, a repentista não teve outra saída a não ser correr.

Passado o calor do momento, a repentista desponta com um improviso de despedida:

 

Nesta nossa cantoria,

Estremeceram-se os céus;

Até os mortos ouviram

No fundo dos mausoléus;

Com o abalo, acabou-se

A raça dos fariseus,

Com o destino, findou-se

A raça dos prometeus!

Só o mundo tem liberdade,

E o infinito tem Deus!

Colega Neco Martins,

Aceite meu triste adeus (apud SANTOS, p. 112).

 

Cognominada de “a rainha negra do repente”, Chica Barrosa é uma das representantes pontualmente relatadas na literatura de cordel. A princípio, seria de bom senso atualizarmos o termo “negro” para não incorremos em interpretações dúbias. Segundo (Giddens, 2005, p. 207): “A palavra ‘negro’ era um rótulo pejorativo atribuído aos afrodescendentes por brancos.” Foi somente na década de 1960 que os norte-americanos e os britânicos de origem africana “reclamaram” o termo e aplicaram-no a si mesmos de modo positivo. A palavra “negra” tornou-se uma fonte de orgulho e de identidade, em vez de um estigma racial, nos Estados Unidos.

Sendo materializada como negra, sabe-se que os cantadores que a enfrentavam estavam diante de duas premissas. A primeira, mesmo cristalizado o preconceito de cor, os cantadores a aceitavam como uma repentista talentosa. Em segundo lugar, eles reconheciam que a marginalização da negra cantadora estava mais por conta da história do que por parte deles mesmos.

De acordo com Santos (2009), há necessidade de um estudo mais acurado sobre a presença do negro na literatura de cordel, tendo em vista que, sempre que se adentra neste estudo, percebe-se a presença do homem de cor atuante nas cantorias e nos cordéis.

Merece destaque, conforme Santos (2009, p. 227), o contexto do encontro entre Neco e Chica: “Segundo depoimentos do ilustre conterrâneo e intelectual de saudosa memória, Dr. Adolfo Barbosa Pinheiro, e ratificado pelo Sr. João de Paula Gomes, coletor de São Gonçalo do Amarante, Ceará, e pela senhora Francisca Eulália de Sousa Morais, era Manuel Martins de Oliveira (Neco Martins) rico fazendeiro, político e cantador, residente em São Gonçalo do Amarante. Neco Martins, segundo essas testemunhas, jamais recebeu qualquer pagamento por suas cantorias. Além de entregar ao companheiro todo o dinheiro da contribuição dada pelos ouvintes, ainda completava com o de seu bolso, caso a arrecadação fosse pequena. Neco, aproximadamente no ano de 1910, foi o genial repentista desafiado pela famosa negra cantadeira paraibana, Francisca Maria da Conceição, conhecida por ‘Chica Barrosa’, para não dar a conhecer o fato à sua esposa, dona Filomena, que se opunha a esse tipo de atividade, escolheu como local do duelo sua fazenda Suíte, distante duas léguas de São Gonçalo. Disse à esposa que nessa fazenda iria vender umas vacas paridas a um amigo de Fortaleza. Na qualidade de homem branco e membro de uma das melhores famílias do Ceará, Neco disse, em menoscabo a sua rival:

 

Eu, agora, estou ciente,

Que nego não é cristão:

Pois a alma dessa gente

Saiu debaixo do chão,

E lá na mansão celeste,

Não entra quem é ladrão!” (MEDEIROS, 2009, p. 58)

 

O embate culmina com duas magistrais estrofes, uma de cada repentista.

 

Me danei numa certa ocasião,

Fiz a água do mar parar o açoite,

Fiz o dia nascer à meia-noite,

Transformando-se a noite em clarão,

Fui ao céu escanchada num trovão,

Um corisco me vendo se escondeu,

Um raio ia descendo não desceu!

Fiz, da lua, um planeta vagabundo…

Coloquei quatro rodas neste mundo,

Mandei a terra correr, ela correu! (MEDEIROS, 2009, p. 111)

 

  1. Pra enganares a todos deste mundo,

Uma bela mentira tu contaste:

O açoite do mar, tu não paraste,

Que o mar é irascível, iracundo!

O abismo dos céus é tão profundo,

Que, num simples trovão, é inatingível!

Nascer o Sol à meia-noite é impossível!

Segundo as leis da física celeste;

Fica, assim, pois, desafio o que fizeste,

De ninguém dar-te crédito, estás passível (MEDEIROS, 2009, p. 112).

O AFRODESCENDENTE BRASILEIRO

Para valorizarmos ainda mais o despontar de uma mulher, acima de tudo de cor, veja-se como era visto o afrodescendente naqueles idos. A seguir, cito os versos de poetas daquele tempo, catalogados por Irani Medeiros (2009, p. 121-122):

 

Branco é filho de Deus,

E mulato é enteado,

O cabra não tem parente,

Negro é filho do diabo.

Homens e mulheres afrodescendentes, tanto como cantadores quanto como criadores do “eu” lírico das poesias marcam o cenário cordelista. Entre os cordelistas, podemos citar Inácio da Catingueira, Preto Limão, Manuel Caetano, Fabião das Queimadas e a Negra Francisca (Chica) Barrosa. Eles figuram como estrelas deste céu afro-brasileiro.

 

RITA MEDEIROS

Tão pálida é a importância dada às mulheres cordelistas que a existência de algumas delas é colocada em cheque. Veja o que diz (Almeida e Sobrinho, 1978, p. 179) em seu Dicionário biobibliográfico de repentistas e poetas de bancada, (apud Francisca Pereira, 2010, p. 239) sobre Rita Medeiros: “(…) certamente, pelo menos como cantadora ou emboladora de coco, Rita Medeiros nunca existiu”. Se existiu como mulher, virou personagem musical. Em Sertão Alegre, os autores fazem referência à Rita Medeiros ou Medero, como o zé-povinho a chamava, sem nada acrescentar às vagas informações correntes sobre ela.

O contraponto desta afirmação é registrado por Luís Wilson, em Roteiro de velhos cantadores e poetas populares (apud Pereira, 2006, p. 239): “(…) do sertão, fala que Rita Medero ou Mêdera existiu e residiu no Retiro da Boa Esperança, município de Barras, Estado do Piauí, era casada com Henrique Medeiros, ‘marido complacente que permitia que abandonasse o lar durante semanas e semanas ou que a fossem tirar de casa, alta noite, para festas e fuçanatas”. Segundo Wilson (1986, p. 108), essa mulher que era ‘bonita, bebia como um gambá, era pornográfica e os versos dela ninguém repete, morreu sexagenária em 1901 ou 1902”. Novamente aparece a figura do cantador do século XIX como um boêmio, perfil recorrente, que vale tanto para os homens quando para as mulheres.

 

MARIA TEBANA

Palidamente, Rodrigues de Carvalho registra a vida da repentista desta forma: “(…) fazia as delícias dos apreciadores da trova do povo, cantando admiravelmente e tocando viola, acompanhada de um cortejo de admiradores de chapéu de couro e cacete” (CARVALHO, 1967, p. 340).

O mesmo Carvalho faz uma referência a Maria Tebana num embate com Manuel do Riachão na obra Cancioneiro do Norte (2002, p. 137):

 

  1. – Nego preto, cô da noite

Do cabelo pixaim,

Primita Nossa Senhora

Bacaiau seja o teu fim!

 

  1. – Você me chama de nego

Do cabelo pixaim

Queria que ocê dissesse

Que dinheiro deu pra mim…

 

  1. – Nego preto, cô da noite

Do cabelo pixaim,

Primita Nossa Senhora

Bacaiau seja o teu fim! (Maria Tebana e Manuel do Riachão, apud Mota, 2002a, p. 137-9).

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Deduz-se das rarefeitas citações acima a existência bibliográfica das mulheres cantadoras ou repentistas que desfilaram na literatura de cordel. Lembramos ainda que estas mulheres apresentavam suas poesias oralmente, no entanto, ouvintes e observadores registraram seus versos. Acreditamos, devido a algumas circunstâncias, entre elas, o imperioso domínio machista, uma operação de proposital abstinência na lista de mulheres escritoras na literatura de cordel.

Materializamos o citado acima quando percebemos o diminuto espaço dedicado, principalmente às duas últimas mulheres, mencionadas neste artigo que já nos leva a inferir sobre a pouca importância dada a elas na produção e pesquisa sobre as mesmas.

Quer o anonimato, quer o pálido surgimento de um ou outro nome feminino entre os cordelistas, não quer dizer, de forma alguma, que a qualidade literária dos versos produzidos por estas mulheres marginalizadas está aquém daquelas de autoria masculina.

Demos ênfase a apenas três dessas mulheres e, dentre elas, privilegiamos o nome de Chica Barrosa, mas, certamente, há tantas outras que o tempo e os pesquisadores haverão de ressuscitar das cinzas do preconceito para a glória literária no Nordeste e do Brasil.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ALMEIDA, Átila Augusto F. de e SOBRINHO, José Alves (1978). Cantadoras e repentistas do século XIX: a construção de um território feminino. s. l., s. ed.

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CARVALHO, Rodriguez. Cancioneiros do norte. 3ª ed. Rio de Janeiro, 1967.

CASCUDO, Câmara. Vaqueiros e Cantadores. São Paulo: Ediouro, s/d.

GIDDENS, Anthony (2005). Sociologia. Porto Alegre: Artmed.

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MEDEIROS, Irani. Chica Barrosa – a rainha negra do repente. João Pessoa: Ideia, 2009.

MOTA, Leonardo (2002a). Cantadores poesia e linguagem do sertão cearense. 7ª ed. Rio/São Paulo/Fortaleza: ABC Editora.

MOTA, Leonardo (2002b). No tempo de Lampião. 3ª ed. Rio/São Paulo/Fortaleza: ABC Editora.

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www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/ALDR-6WEK7J – 10k.

Acesso em 28/10/2014.

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SAFFIOTI, Heleieth. A Mulher na sociedade de classes: mito ou realidade. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1979.

SANTOS, Francisca Pereira. Romaria de versos: mulheres cearenses autoras de cordel. Cariri: SESC, 2008.

SANTOS, Francisca Pereira. Romaria de versos: mulheres cearenses autoras de cordel. Cariri: SESC, 2008.

VASCONCELOS, Normando. Cantiga de viola. Maceió: Arte-Digital, 1966.



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