Revista Mulheres e Literatura – vol. 12 – 2008



A IDENTIDADE FEMININA COMO ALVO: CARLOS EDUARDO S. CRUZ





A interdição tácita de não ser feliz, de não viver satisfeita, de não achar que a sua era a melhor das vidas, uma vez que lhe diziam que era, a proibição de revoltar-se. Os livros permitidos e os livros proibidos, as idéias, desejos, sonhos, pensamentos permitidos, as idéias, desejos, sonhos, pensamentos proibidos. O imaginário que não se podia modificar nem pôr em causa. A mulher sem desejo nem corpo, porque só ao homem pertencia o desejo e o corpo. A mãe como um perfil de sombra, transparente a ponto de se tornar invisível, a casa perfeita, ordenada, silenciosa, como se mantivesse no ar, suspensa (Teolinda Gersão, 1982, p. 99).

Na Literatura Portuguesa até o século XX parece haver pouco espaço para as mulheres. Poucas são as autoras publicadas e pouca voz lhes é dada na literatura escrita por homens. A figura feminina aparece renegada frente aos “barões assinalados”. A mulher aparece numa escala menor, segregada ao lar e à terra, enquanto ao homem cabiam a aventura marinheira, a viagem sedutora e o domínio inquestionado das formas de opressão, caracterizando uma “Cultura Marialva”, (Cf. SILVA, Teresa Cerdeira, 2000). Havia uma subalternidade social, física e cultural das mulheres, que eram transformadas em objeto de uso, de trabalho e de prazer. Há, portanto, uma força cultural repressora das vontades femininas.

Além disso, pode-se ver uma forte repressão às mulheres durante a ditadura salazarista. As portuguesas tinham poucos direitos, estando legalmente dependentes e subservientes ao marido ou ao pai. Elas também não tinham voz, sendo excluídas de qualquer participação política pública. O salazarismo usava as mulheres em sua propaganda como repressoras da revolução, pois a elas cabia o papel de apaziguar os homens e criar a família. Essa distinção de papéis na ditadura não é muito diferente da separação que sempre houve na cultura portuguesa. Segundo Magalhães, já no século XV, “a equação “ser português é ser marinheiro” passou a ser uma das bases do ser português e um dos pilares da identidade nacional” (1994, p. 189). Dessa forma, as mulheres eram menos portuguesas do que os homens, pois os homens partiam e as mulheres ficavam.

Somente nos anos 1970 o papel da mulher em Portugal começa a mudar. Isso porque há um reflexo da guerra colonial em suas vidas: seus maridos e filhos vão para a guerra em África, deixando-as sozinhas e mais livres em Portugal. Ou então, algumas esposas de oficiais acompanhavam os maridos para as colônias, defrontando-se com a falência e o caos do império português em decadência. Assim, as mulheres começam a fazer sua própria revolução. Há uma reação feminista à ditadura salazarista, como se percebe com a publicação de Novas Cartas Portuguesas em 1972. Neste livro, o papel superior dos homens na sociedade portuguesa é amplamente questionado e o sofrimento das mulheres é tornado público.

Entretanto, somente com a Revolução dos Cravos, em 1974, as mulheres têm a possibilidade de tentar mudar sua situação. A questão feminista, reprimida com forte pressão durante tanto tempo, aparece em sua forma mais básica desde o início da revolução. Tanto que no filme Capitães de abril, realizado por Maria de Medeiros em 2000, que retrata o 25 de abril, há uma cena em que várias donas-de-casa em passeata clamam que agora era a vez dos homens irem para a cozinha, na expectativa de uma mudança geral dos costumes. Contudo, essa liberdade aguardada por tanto tempo ocorre em meio a uma crise identitária nacional. O processo de globalização instituído pelo Capitalismo avançado força uma hegemonia cultural que leva a crises de identidade, mesmo que as identidades nunca tenham sido muito precisas (Cf. HALL, Stuart 2005). Com isso, grupos periféricos, sociais ou nacionais, buscam fortalecer-se e ter voz, descobrindo-se em meio ao forte poder homogeneizador da modernidade capitalista.

Essa crise é agravada pelos fatores que abalaram a identidade portuguesa nas últimas décadas do século XX. Com a revolução e a independência das colônias ocorre o fim do império mais antigo da Europa e o fim da ilusão mitológica do surgimento de um “quinto império” capitaneado por Portugal. Dessa forma, o fim da colonização aparece como uma forma de confirmação de uma seqüência de fracassos das “conquistas portuguesas”, como lembra Magalhães (2001, p. 324). Como na Modernidade “tudo que é sólido se desmancha no ar” (Cf. BERMAN, Marshall, 1986), um império colonial de séculos e uma tradição de expansão marítima chegaram ao fim. Assim, a idéia de progresso, que arrastou os portugueses para séculos de sucessivas tragédias na tentativa de construção de um grande império, levou a uma sucessão de ruínas que fazem parte de uma catástrofe única, da qual é difícil se desligar. Essas ruínas são fruto da barbárie que acompanha a civilização (Cf. BENJAMIN, Walter, 1994), que, entre outros males, oprime e oprimiu as mulheres ao longo da História.

A Portugal restou voltar-se para si mesmo, a pequena faixa de terra na ponta da Península Ibérica. Entretanto, as forças da globalização passaram a atuar fortemente sobre o país após a abertura política e econômica. A isso se acrescenta o ingresso na então Comunidade Econômica Européia. Essa união não poderia ser menos traumática, já que Portugal não se via um país europeu como os outros. Essa distinção pode ser percebida, inclusive, no personagem Calisto Elói, do romance A Queda dum Anjo (1866), de Camilo Castelo Branco, que sendo português pergunta onde fica a Europa.

Entretanto, é em meio a essa crise que Portugal parte em busca de um novo conceito de nação (Cf. MAGALHÃES, Isabel, 2001, p. 310). O que era o centro de um grande império vê-se como periferia no novo mundo globalizado. Por isso, há a tentativa de reter os traços de oito séculos de história e incluir as vozes periféricas.

Essa discussão identitária só é possível porque ela está em crise (Cf. MERCER, 1990). Contudo, somente após o 25 de Abril foi possível discutir o papel feminino em Portugal com força e liberdade. Essa discussão ocorre também na literatura, com o surgimento de um grande número de autoras em Portugal, ocasionando, através disso, “uma certa feminização do universo ficcional” (MAGALHÃES, Isabel, 1994, p. 203). É nesse contexto que as mulheres portuguesas têm que buscar seu espaço, sua voz e sua própria identidade feminina autônoma. Essa dificuldade é mostrada no conto “Seta Despedida”, de Maria Judite de Carvalho, publicado em 1995. Nele, a personagem principal, a narradora, vive numa busca incessante de ser diferente, de fugir de sua condição apagada e submissa, ilustrando o que diz Magalhães:

Muitas personagens de romances actuais (à semelhança de muitos agentes das minorias nas sociedades) vivem não só um constante processo de procura de si mesmas em terra estrangeira como igualmente um desejo de transformar essa terra estrangeira em terra sua. Ou a tentativa, quase sempre fracassada, de construir identidades plurais, ecléticas, onde se integrem, como reacção à disseminação da identidade própria. (MAGALHÃES, Isabel, 2001, p. 308).

Essa mulher em crise apresenta um dos traços marcantes da Literatura Portuguesa, o desejo de partir, impulsionado por uma continuada nostalgia e um insistente desejo de outra coisa (Cf. MAGALHÃES, Isabel, 1994, p. 192). Essa vontade de partir, de mudança, é o tema de “Seta Despedida”, como pode ser percebido desde o título. “Seta” em busca de uma nova direção, de um novo rumo para a sociedade portuguesa, que precisa englobar as mulheres; e “despedida” por querer dizer adeus ao mundo de opressão e indiferença em que viviam. Logo no início do conto, a narradora apresenta suas lembranças de infancia, de um passado de dificuldade de expressão e de existência. É um passado marcado pela figura do poder exercido pelo pai. Tanto que, quando este sorria, o que era raro como eram raras as representações de afeto, todos deviam sentir-se muito gratificados.

Corroborando com a idéia de submissão feminina, há o constante sofrimento da mãe, que “estava quase sempre com os olhos inchados ou então a descansar” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 10), numa tentativa de fuga da realidade por não ter um relacionamento bom com seu marido. Além da mãe, pode-se ver que o sofrimento era algo presente em todas as gerações, tanto que “a avó sempre tinha sido velha, era como se o tempo não pudesse feri-la mais” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 10). Afinal, na História da humanidade, a mulher é a que mais sofre com a violência da civilização.

Além disso, nessa família as meninas eram presença “quase sempre indecisas e vaporosas”, que “andam vacilantes por aqui e por ali” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 10). São mulheres sem raiz, sem referencial, sem um lugar próprio no mundo. E não tendo raiz, a memória é algo difícil. Por isso, a narradora oscila entre vislumbres de memória e de desmemória, caracterizando a incerteza de sua existência.

Aliás, ao tomar consciência de sua identidade, descobre-se plural, rompendo com a singularidade de sua experiência. Essa pluralização, além de ampliar a problemática discutida para outras mulheres da família, talvez irmãs, ou outras meninas da mesma geração, também aponta para a multiplicidade identitária do sujeito moderno, esfacelado. Ao pluralizar “meninas”, a narradora segue Álvaro de Campos em seu “Lisbon Revisited”:

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, E aqui tornei a voltar, e a voltar. E aqui de novo tornei a voltar? Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram, Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória, Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim? (PESSOA, Fernando, 1994).

De forma semelhante, essa variação de si mesma, identificando-se não como uma, mas como várias diferentes, é mostrada no trecho abaixo:

Quanto à menina, às meninas, também se foram apagando, apagaram-se quase por completo, nunca totalmente, claro, delas só ficou quem nesse instante teve uma espécie de vislumbre (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 12).

Esse descentramento do sujeito é a própria “casa-arca”, como diz a narradora, numa referência à própria intimidade, que estava “mais ou menos à deriva”. Sem rumo, como uma identidade que ainda não se definiu, um grupo social que ainda não encontrou seu espaço, um país que não procura mais as Índias, uma seta despedida sem alvo.

Essa mulher à deriva ainda seguia como as outras portuguesas, à espera, “à espera sabe lá de quê, à espera de coisa nenhuma” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 12), como se não fosse possível desenvolver expectativas. Isso porque essa personagem, crescida sob opressão, não é capaz de aprofundar a questão identitária. Tanto que, apesar de já trazer a consciência plena de sua verdade, não tem coragem de enfrentar a experiência dolorosa de se ver por inteiro no espelho. Entretanto, sabe que sua identidade é cambiante e tem desejo de mudar. Assim, ela está sempre atrás de uma modificação identitária. Ela tem medo de seu próprio eu, tanto que tem medo do grande espelho do hall da casa da infancia justamente por se ver nítida nele.

O espelho é onde é possível manifestar a inteligência e a criatividade no reconhecimento de si mesmo observando e tecendo considerações. Mas nesse espelho ela fica à superfície, mudando apenas a aparência. Ela tenta mudar o tempo todo, pinta o cabelo, muda o batom, mas tudo continua sempre igual. O trágico para ela é tentar e não conseguir se modificar. Como não consegue a mudança de seu papel por conta própria, falhando em seu processo de partida, acaba por desenvolver uma cleptomania. Apoderar-se do que é dos outros é uma experiência de ser outro, de viver como outro. Seu primeiro roubo, uma caneta de uma colega de classe é uma tentativa de ter para si o afeto que a outrem era destinado. Enquanto seu pai raramente sorria, o pai da amiga lhe dava presentes, que podiam ser exibidos. Ter a caneta seria como ser ela também a menina a quem o pai dava presentes, carinho, afeto, atenção. Contudo, seu pai, ao contrário, tinha abandonado a família no dia anterior ao roubo.

Essa identidade cambiante aflige-a a ponto de não identificar claramente outras mulheres, mostrando que o problema do apagamento da personalidade feminina em Portugal era mais amplo do que seu caso pessoal. Na cena da fotografia, ela não tem certeza de quem estava com ela, se era a mãe ou a madrasta que sentia frio. Mais tarde, na reunião em sua casa, também não conseguia confirmar se a mulher do isqueiro chamava-se Ivette ou Arlette.

Sua indiferença e rejeição a si própria estão no fato de ela, por mais que tente mudar, não ter ainda capacidade ou determinação para fazê-lo por inteiro. Sua vida é toda decidida e controlada pelos outros, como ela mesma diz: “Nem rotina tenho, escolheram-na para mim (qual escolheram, nem isso), e eu tenho vivido nela sem dar por nada” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 12). Sua vida parece-lhe sem sentido. Os livros deveriam viver em sociedade, como ela achava que também deveria. Contudo, ao se dar conta de que como mulher seu papel no mundo não importava tanto, já não se incomoda com a afinidade entre os livros e sua localização na estante. A percepção dessa vida sem sentido e sem lugar foi um problema para ela, que sempre quis mudar e achar seu próprio rumo, tal como uma seta despedida. Entretanto, “sentia-se num lugar estranho, quieta e um pouco atordoada, e sem bússola” (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 26). Num último esforço, ela tenta argumentar com o marido sobre seu desejo de mudança:

– Não te apetecia às vezes mudar? – perguntou ao marido com ar natural e a voz de todos os dias. – Mudar o quê? – espantou-se ele sem exagero. – Sei lá. Mudar. De casa, por exemplo. Nasci aqui, estou farta. Mudar de cara. As vezes olho para o espelho e sinto um cansaço… Tu não? Mudar de língua. De rua. De país. Mudar de vida. Arranjar papéis falsos, sei lá! (CARVALHO, Maria Judite de, 1995, p. 26)

Apesar de estar disposta a mudar de identidade, de país (vontade marcada inclusive pelo desejo de mudar de língua), de viver uma vida como outra pessoa qualquer (com papéis falsos), por estar cansada de si mesma, não consegue o apoio do marido. Afinal, ele ainda tem o papel hegemônico na sociedade, não deseja mudanças, nem sente os problemas daqueles que estão à margem. A narradora não consegue ainda encontrar sua verdadeira identidade, seu papel na sociedade que está mudando. Ela apenas possui o desejo de mudar, mas não consegue realizá-lo. Em vez disso, continua vivendo tentando ser o outro, adquirindo pequenos bens de outros como se assim fosse conseguir a identidade nova que tanto deseja.

A frustração das “viagens” da personagem-narradora em busca de um novo eu, de uma nova realidade, assemelha-se, assim, à frustração identitária portuguesa dos fracassos das “conquistas” no ultramar. Portugal, segundo sua representação na literatura contemporanea, está tentando descobrir seu novo rumo num mundo globalizado em meio ao caos do Capitalismo avançado. Assim, essa trajetória deve incluir as vozes periféricas, como a feminina, que também está em busca de seu lugar no Portugal pós-25 de abril. Dessa forma, Maria Judite de Carvalho aponta a necessidade de uma luta por uma sociedade redimida, mesmo que para isso seja preciso uma virada histórica sem perspectiva clara, uma seta despedida numa direção que não seja a do progresso, que cria um estado de exceção permanente no qual os vencedores nunca cessam de vencer.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BARRENO, Maria Isabel. HORTA, Maria Teresa. COSTA, Maria Velho da (1974). Novas Cartas Portuguesas. São Paulo: Círculo do Livro.
BENJAMIN, Walter (1994). “Sobre o Conceito de História”. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad.: Sérgio Paulo Rouanet. 7Ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p.222-232.
BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. Trad. Carlos Felipe Moisés, Ana Maria Ioriatti. São Paulo: Companhia das Letras.
BRANCO, Camilo Castelo (2002). A Queda dum Anjo. 2Ed. São Paulo: Ática.
CARVALHO, Maria Judite de (1995). Seta Despedida. Mem Martins: Europa-América.
GERSÃO, Teolinda (1982). Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo. Lisboa: O Jornal.
HALL, Stuart (2005). A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. 10Ed. Rio de Janeiro: DP&A.
MAGALHÃES, Isabel Alegro de (1994). “Aquém e Além: espaços estruturantes da identidade portuguesa?”. In: O sexo dos textos. Lisboa: Caminho, 1994. p. 187-206.
MAGALHÃES, Isabel Alegro de (2001). “Capelas imperfeitas: configurações literárias da identidade portuguesa”. In: RAMALHO, Maria Irene. RIBEIRO, Antonio Sousa (Orgs.). Entre ser e estar: raízes, percursos e discursos da identidade. Coimbra: Edições Apontamento, 2001. p. 307-348.
MERCER, K. (1990) “Welcome to the jungle”. In: RUTHERFOR, J. (Org.) Identity. Londres: Lawrence and Wishart, 1990.
PESSOA, Fernando (1994). Antologia Poética. Lisboa: RBA Editores. SILVA, Teresa Cristina Cerdeira (2000). O Avesso do Bordado. Lisboa: Caminho.



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