Revista Mulheres e Literatura - vol.16 -1º Trimestre - 2016



A IDEALIZAÇÃO DO AMOR EM “GERTRUDES E SEU HOMEM”, DE AUGUSTA FARO – Suely Leite





 

Suely Leite

Universidade Estadual de Londrina

 

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo discutir as representações femininas e suas bases discursivas no conto “Gertrudes e seu homem”, da escritora Augusta Faro. Em tempos pós-modernos, a autora nos apresenta uma personagem construída sobre bases do pensamento patriarcal e que vem acompanhada de elementos insólitos, o que nos proporciona uma reflexão acerca das condições femininas fundadas em conceitos extremamente cristalizados socialmente e que nos parecem, hoje, estranhos.

 

Palavras-chave: representações de gênero; conto; autoria feminina; Augusta Faro.

 

Abstract: This paper aims to discuss the female representations and their discursive bases in the story “Gertrudes e seu homem”, by Augusta Faro. Writing in the post- modern mode, this author presents a character built on the foundations of patriarchal thinking, but she brings in some unusual elements that make us reflect on women’s conditions. These are based on social concepts that are crystallized to such a point that they appear to us as insolit.

 

Key-words: gender representations; tale; female authors; Augusta Faro.

 

Minicurrículo: Suely Leite é professora adjunta do Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina e docente do Programa de pós-graduação em Letras da UEL, com doutorado na área de Letras e pesquisas em literatura feminina e análise do discurso. Atua nas disciplinas de Literatura Brasileira, Teoria da Literatura e Vozes femininas na literatura de autoria feminina. É coordenadora do projeto de pesquisa “Relações de gênero e representações literárias na literatura de autoria feminina” e líder do projeto de pesquisa cadastrado no CNPq, intitulado “Legado intelectual e produção literária de autoria feminina na América Latina”.

 

 

A IDEALIZAÇÃO DO AMOR EM “GERTRUDES E SEU HOMEM”, DE AUGUSTA FARO.

 

Suely Leite

Universidade Estadual de Londrina

 

A escrita feminina contemporânea tem muitos motes, entre eles a questão da condição e da identidade feminina. No rol dessa temática destaca-se a obra de Augusta Faro. Em prefácio escrito pelos organizadores da obra Augusta Faro: contemplações críticas encontramos a seguinte afirmação:

 

Apesar da escritora goiana ter iniciado na poesia e na literatura infanto-juvenil é indiscutível que sua contística reunida em A Friagem (1998) e em Boca benta da paixão (2007) repercutiu no campo literário ao ponto de extrapolar as fronteiras regionais e ser reconhecida por uma parcela da crítica como uma das linhas de força da literatura de autoria feminina contemporânea (Carvalho Brito; Anjos, 2014, p. 7).

 

De fato, a autora tem despertado o interesse sobre sua obra, que percorre os meandros do universo fantástico e da temática sobre as mulheres. Obra lírica e ao mesmo tempo política, seus textos apontam para uma escrita e estilo próprios que fazem de sua ficção contemporânea o terreno próprio do insólito e das discussões sobre gênero.

O conto escolhido para esse trabalho intitula-se “Gertrudes e seu homem”, e foi publicado na antologia 25 Mulheres que estão fazendo a literatura hoje (2004) de Luís Ruffato. (As demais citações serão feitas a partir desta edição). Em 2012, a cineasta Adriana Rodrigues produz o curta homônimo ao conto e ganha a premiação da Mostra Curta Goiás, festival que contava, naquele ano, com doze edições.

Em “Gertrudes e seu homem” o discurso feminino se constrói na relação conturbada que a protagonista tem com as mulheres de sua pequena cidade. Como costureira, Gertrudes recebe muitas clientes em casa e vai, aos poucos, construindo uma imagem de mulher sensual muito amada pelo marido. Tal configuração desperta nas clientes a curiosidade de conhecer o tal marido, o homem amado, amante. A primeira referência que temos sobre a influência desse amor idealizado sobre Gertrudes e as outras mulheres da cidade é uma alusão à vivacidade. Algo existia em Gertrudes e seus tecidos, com vivas cores. Denis de Rougemont, em seu livro O amor no ocidente (1988, p. 15), afirma que o ideário amoroso é uma expectativa na vida de todos nós, é uma promessa “de vida mais viva”. Assim é Gertrudes, encantada pela vida, pelas cores e o grande responsável por essa alegria de viver é Romão.

Partimos do princípio de que esse texto nos permite descortinar a construção das identidades femininas, pelo viés das imagens, símbolos e valores representados na narrativa ficcional. O primeiro parágrafo apresenta a personagem como um ser amargurado, sorriso de penumbra e com um olhar de profunda solidão. A expectativa despertada no leitor é de se confrontar com uma estória triste que descortine dores e apresente uma condição feminina instaurada em decepções e sofrimentos. Porém, o que segue é o relato da mudança de Gertrudes para uma cidadezinha na qual ela monta seu ateliê de costura e começa a tecer uma imagem de mulher prosa, mergulhada na grandeza do amor de seu homem. Mas ainda assim, o narrador alerta o leitor que “as amarguras de Gertrudes iam atrás dela” (p.127), embora apenas narrador e leitor tenham consciência dessa presença triste por trás da mulher amante e amada.

Gertrudes marca sua presença no mundo pela imagem associada a do marido Romão: “todo mundo, que frequentava o ateliê de costura, sempre ouvia as estórias de Romão, esse nome sempre envolto em onírico mistério ruidoso, palpável e, sobretudo, impenetrável” (p.128). A relação entre os dois é sempre descrita por Gertrudes como a mais idealizada possível: são amantes, companheiros, atenciosos um para com o outro. A presença de Romão é marcada por mistério e erotismo, que o narrador faz questão de frisar: “sempre um presente acompanhava o retorno daquele rapaz, escalavrado de vítrea aura impermeável, e que sufocava o ambiente com um perfume de macho saudável, vigoroso e quase satisfeito plenamente” (p.128).

Podemos observar que a representação do feminino é centrada na vida familiar. Gertrudes possuía um exímio talento para plantar, cozinhar, rendar, bordar e arrumar, ou seja, atividades relativas ao lar. As ações de Gertrudes buscam sempre recriar um ambiente doméstico de perfeita harmonia. A relação entre Gertrudes e Romão é uma relação de sujeição. A subordinação da figura feminina diante da masculina é apresentada pelo narrador em dois momentos: um primeiro momento e de maneira sutil, a desigualdade aparece nos papéis sociais em que os dois ocupam. Romão era viajante e não tinha porto, condição que ressalta o lugar do homem na esfera pública e da mulher na esfera privada. Gertrudes era costureira, tinha um atelier em casa e se dedicava em cumprir o seu papel de rainha do lar “e Gertrudes fazia bolo e broa, peta e biscoitos, rocamboles com frutas cristalizadas, tão perfumadas, e abarrotava de quitutes o guarda-comidas” (p. 128).

Sendo assim, a figura de Romão se impõe na narrativa como uma figura dominadora, que transforma sua virilidade física em virilidade simbólica. A imagem que Gertrudes constrói de Romão é embasada na necessidade de o homem se mostrar forte, soberano e competitivo, mas ao mesmo tempo, precisa corresponder ao padrão romântico, idealizado pela mulher: “revelava as noites de amor com aquele potro de legítima gentileza e incansável ternura” (p. 129) legitimando seu papel nas figuras do marido e do amante. A idealização do masculino em Romão pode ser vista com maior clareza quando o narrador descreve a mortalha que Gertrudes bordou em noites de espera pelo marido:

 

(…) inteiramente de vidrilhos cor de água, cor de espuma, em desenhos e arabescos geometricamente riscados e que, olhadas de longe, imitavam uma biga com sete cavalos e um cavaleiro, como aquelas antigas que corriam nos primórdios dos tempos cristãos, na cidade de Roma (p. 129).

 

A referência à figura do cavaleiro, ao tempo cristão e a cidade de Roma remete a origem da família centrada na figura masculina. A masculinidade, como todas as identidades, é social e historicamente construída em cada sociedade. O discurso falocêntrico coloca a hegemonia do poder masculino na sociedade relacionada à potência sexual. O corpo é a materialização da dominação, é o locus do exercício do poder. De acordo com Oliveira (2002) coragem e força física eram elementos importantes na constituição do ideal de masculinidade e estavam sempre relacionados com a iniciativa e ousadia, elementos presentes na virilidade masculina.

Romão é apresentado na narrativa como personagem que se destaca por sua beleza, força física, astúcia e ousadia, é portador de uma imagem apolínea.  Ele traz para si a figura do cavaleiro calcado nos modelos tradicionais e dos predicativos da personalidade do homem, qual seja, machista, viril e heterossexual, ou seja, um homem bem mais próximo dos modelos do cavaleiro medieval, do guerreiro oitocentista e dos grandes soldados, ao passo que agrega também os novos modelos de masculinidade pautados na ternura, compreensão, companheirismo; “ama o lar, mas a profissão o consome” (p. 128).

Já a personagem feminina é construída sobre os arquétipos de uma suposta natureza feminina, pautada em domesticidades, fragilidades, submissão, sentimentalismos, emoções e sensibilidades exacerbadas, movida pela paixão. Contudo, Gerusa também agrega outros aspectos que tem a ver com a multiplicidade de identidades femininas que compõe a sociedade contemporânea. É ela a responsável por proporcionar uma intranquilidade danada no espírito dos homens de todas as idades e um contentamento esfuziante no espírito das mulheres, ao apresentar tecidos de cores primorosas e narrativas de noites apaixonadas junto ao seu homem: “a sociedade amou rapidamente aquela mulher, que dizia com a boca benta da paixão: “meu marido chegou de viagem tarde da noite, afora dorme” (p. 128).

Interessante é perceber que mesmo após várias descrições do estado de paixão que arrebatava Gertrudes, da sua felicidade em deixar a casa arrumada à espera do marido que sempre estava de volta, temos no texto a recorrência do narrador em marcar as amarguras de Gertrudes:

 

Ninguém nunca conseguira explicar o porquê da desatinada amargura que emanava sempre e constantemente da costureira Gertrudes, estando o nobre amo e senhor presente ou estando em suas obscuras ausências de ambulante (p. 130).

 

Gertrudes é apresentada ao mesmo tempo como submissa a Romão, mas também entregue a paixão que esse homem lhe desperta. Para ele todos os cuidados de uma casa bem arrumada, uma mesa bem-posta, o silêncio para não o despertar de seu momento de descanso e ao mesmo tempo a mulher fogosa, dominada pela paixão “às vezes, quando a ausência da viagem era maior, Gertrudes caía de cama, inapetente, pálida e todas as tardes chorava inclementemente” (p. 130).  Ela exibe o perfil de uma ideologia calcada nos moldes patriarcais. Sonhadora, volta-se para a busca de um amor perfeito.

Podemos observar no texto o perfil de mulher voltada para o matrimônio. A escritora e feminista francesa Simone de Beauvoir em seu O segundo sexo (1980) nos diz que o destino socialmente proposto à mulher é o casamento, é através dele que a mulher passará a integrar a coletividade, se não se casa, transforma-se socialmente em resíduo, o casamento, portanto (antes, durante e depois) é radicalmente diferente para os dois sexos, a mulher se torna praticamente a vassala do homem, é ele o chefe da família,  é dele que ela recebe um nome e é assim vista aos olhos da sociedade. É dessa forma que a mulher tem no casamento a justificativa social de sua existência. Uma vez inserida dentro dos padrões preconizados pela sociedade é que ela se volta à imanência, ou seja, assume o papel da perpetuação da espécie e manutenção do lar. Diante disso é que o casamento faz da mulher dona de um lar, tendo como destino a educação dos filhos e os cuidados domésticos. Sua completude estaria no casamento, discurso que reproduz a estrutura social vigente.

A trajetória da protagonista é marcada pela angústia vivida entre o ideal e o real. Gertrudes encontra-se aprisionada por um ideal de vida que internalizou para si mesma. O conflito vivido entre o desejo do ideal e o fracasso de não o ter alcançado, leva a personagem a construir uma realidade sobre si mesma e sobre sua vida, em busca de uma adequação social.  No conto, o universo feminino, representado além de Gertrudes, pelas moças e mulheres da cidade, é estruturado na idealização da figura de Romão, o homem que possui uma esposa dedicada, realizada e feliz: “a agitação interior das meninas costumava provocar câimbras nos pensamentos delas, as coitadas, ouvintes das confidências pesadas de tão reais” (p. 130).

Elódia Xavier (1991) menciona que, historicamente, a figura feminina foi sendo associada aos cuidados domésticos e familiares, herança de uma sociedade patriarcal, tornando-a, assim, inferior dentro da hierarquia familiar e sacrificando nesta perspectiva sua própria identidade, pois de tanto ser obrigada ideologicamente a viver sob a máscara da aceitação dos valores hegemônicos, perdia-se de si mesma. Gertrudes assim é representada: feliz e perdida na idealização dessa felicidade.

Uma outra situação presente na narrativa é a incompatibilidade entre maternidade e sexualidade. A beleza física, sexualmente atraente, apesar de objeto de desejo masculino, não condiz com a figura materna que este mesmo masculino constrói. Assim, a narrativa sugere que beleza e virtude são incompatíveis, na medida em que uma mulher que provoca desejo sexual não demonstra ser confiável para exercer o papel de mãe e educar os filhos. Por isso, Gertrudes e Romão não tem filhos:

 

A curiosidade de vê-lo era atiçada, fora de toda compreensão, quanto mais casos Gertrudes contava de Romão. De como o conhecera, do dia do casamento, do filho que lhe morreu na barriga, porque um jacaré imenso apareceu rolando limpo no chão (p. 131).

 

Segundo Susana Funck (1999), o paradigma narrativo a partir da década de 1960 será a morte figurada da mãe; esta será a forma de expressão usada pelas escritoras para eliminar os valores tradicionais que ela representa; característica esta que está evidente neste conto. A figura sedutora e misteriosa de Gertrudes é indubitavelmente associada a uma série de imagens femininamente marcadas, como a tentação. A sensualidade de Gertrudes coloca-a como um sujeito que exprime e realiza suas vontades, colocando-se em uma posição contrária à feminilidade ideal, onde as mulheres são apenas objetos contemplados pelo olhar masculino. Na medida em que não aceita se submeter, a mulher está automaticamente ferindo este princípio, o que a exclui, mas não a livra dos efeitos dos mecanismos de dominação.

Gertrudes, símbolo de várias identidades, representa a ideologia do patriarcado que leva as mulheres a crerem no homem enquanto imprescindível para sua felicidade, herança da tradição cultural ocidental que castra na mulher a possibilidade de construir uma vida própria, centrada nos seus próprios desejos e propósitos. Podemos observar que Gertrudes conquista um espaço na cidade em que vive pela figura de Romão. Ela é conhecida pelas estórias que conta de marido. É respeitada por ser sua esposa. A imagem construída perpassa fragmentações e identidades múltiplas. A esposa é a mulher feliz, a que se dedica ao lar e aos cuidados para com o homem amado, é também ao mesmo tempo, aquela que exerce a sua sexualidade nas noites quentes de amor com o marido; todo esse universo feminino acaba por encantar as outras mulheres da cidade, que na ânsia de preencherem seus espaços vazios, se alimentam da imagem de Gertrudes, de suas histórias e da imagem daquele homem, sonhado, idealizado e desejado por todas. O relacionamento do casal passa a ser o assunto da cidade e a curiosidade das mulheres em conhecer aquele homem alimenta a rotina da pacata vila.

Passado mais de um ano, as mulheres decidem invadir a casa no momento da ausência de Gertrudes e se deparam com o corpo apolíneo de Romão coberto por um lençol de linho branco “o resfolegar da serpente interior das fêmeas mugia solene naquela manhã calorenta e pasmada até a raiz das nuvens” (p. 131). A ânsia dessas mulheres em constatar a virilidade de Romão as leva a uma triste constatação: Romão não existe, é apenas um boneco autômato, fruto do desejo de Gertrudes em ter o seu homem, o seu deus grego.

Depois da descoberta e dos atos estranhos das mulheres ao beijar as partes quebradas do boneco e levá-las para casa, o narrador enuncia que “as trevas vieram em forma de aguaceiro sem nome, sem tempo e provocou mediante enchente, lambendo pontes e pinguelas” (p. 132).

O texto de Augusta Faro não se estrutura sobre um evento fantástico, mas nele instaura-se uma aura de mistério, sobretudo, através das personagens que oscilam entre o ser e o parecer, a existência e inexistência. O fantástico aqui aparece infiltrado na representação do cotidiano que substitui o efeito do medo pelo o da inquietude.

Segundo Flávio Garcia (2007), é lícito opor o insólito ao natural, e ao ordinário, pois os acontecimentos insólitos são aqueles que não ocorrem com frequência, contrários às práticas sociais diárias, logo, causam estranheza. O que se observa no conto é a presença de um viés insólito. O cotidiano real, com personagens aparentemente normais, é atravessado por acontecimentos fora da ordem, mas vivenciados como se fizessem parte dela. Aqui, o insólito flui livremente, pois o narrador apresenta no primeiro momento situações totalmente normais para só no futuro proporcionar ao leitor um cenário sobrenatural.

Podemos afirmar que o conto em questão, desperta no leitor esse estranhamento por relatar fatos insólitos: a alternância entre a condição aparente de felicidade de Gertrudes e sua real condição de amargura, a confecção de um boneco para dar vida à imagem idealizada de um homem, a fúria das moradoras da cidade ao perceberem a inexistência desse homem, a resistência em aceitar a realidade a ponto de quebrar o boneco para dividi-lo entre elas, a morte inexplicada de Gertrudes, a condição em que foi encontrada, “perfeita como viva”, suas aparições e sua condição de alguém que mesmo morta, possuía o frescor dos vivos” (p. 133).

Quando o texto se encaminha para o final, entende-se toda a insistência do narrador em marcar a amargura da personagem diante da vida.  Gertrudes desaparece, e não se sabe se isso aconteceu no exato momento da destruição do boneco. A imagem de Romão desaparece e o status de mulher casada da personagem também.

No conto, pode-se supor que não é apenas a perda do marido que assusta a personagem, e sim o status de mulher casada. Subjacente a essas noções encontra-se a ideia de que a mulher apenas se realiza para e por um homem, já que se acredita que uma mulher não consegue realizar-se sem marido e filhos. As amarguras de Gertrudes, marcada no texto pela voz do narrador, em pelo menos três ocasiões, tem sua origem em dois motivos: primeiro por um sentimento de frustração diante da inexistência de Romão, o ideal criado e imposto culturalmente pela sociedade, e em segundo, pela completa impossibilidade de romper as amarras que a mantém prisioneira a esse perfil feminino, que condiciona à felicidade da mulher à presença de um homem.

Gertrudes não consegue romper a estrutura patriarcal, a ponto de forjar a sua própria existência. O narrador não deixa claro como a personagem morreu:

 

Ninguém nunca esclareceu, se a senhora Gertrudes teria morrido na hora exata que descobriram e violentaram seu sagrado segredo, ou se o aguaceiro lhe havia roubado a flor da vida (…). O fato é que até o último momento, ao fechar o esquife, ainda possuía o frescor dos vivos, a tristeza de quem está partindo e a saudade desmesurada de um ente querido que perdera definitivamente (p. 133).

 

A morte simboliza a impossibilidade da libertação da protagonista, pois o narrador afirma que uma semana depois a personagem foi encontrada “na prainha, bem abaixo do matadouro… perfeita como viva” e ainda há a afirmação:

 

(…) a alma de Gertrudes foi vista mais de uma vez; às vezes, tomava forma de pomba sempre esperta e triste” e mais: “até o último momento, ao fechar o esquife, ainda possuía o frescor dos vivos, a tristeza de quem está partindo e a saudade desmesurada de um ente querido que perdera definitivamente (p. 133).

 

A narrativa caminha para o final pelo viés do insólito. Percebe-se então que o texto traz para a cena a questão da loucura e da solidão, temáticas tão presentes na escrita feminina. Para o leitor, fica explícito o modo como essa literatura feminina contemporânea tenta suprir a necessidade da mulher de uma referência do seu próprio ser, a busca da construção de sua identidade social. Enfim, são vozes que se entrecruzam na longa caminhada de um discurso feminino, discurso esse que reúne várias perspectivas e possibilidades de construções identitárias.

 

REFERÊNCIAS

BEAUVOIR, de Simone. O segundo sexo: a experiência vivida. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro Nova Fronteira, 1980.

BRITTO, Clóvis Carvalho; ANJOS, José Humberto R. dos (Org). Augusta Faro: contemplações críticas. Goiânia: Gráfica e Editora América. 2014.

FARO, Augusta. Gertrudes e seu homem. In: RUFFATO, Luiz (Org). 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. 2ª ed. São Paulo: Record. 2004. p. 125-133.

FUNCK, Susana. Representações da maternidade e paternidade na literatura feminista contemporânea. In: Falas de gênero: teorias, análises, leituras. Florianópolis: Mulheres, 1999.

GARCÍA, Flávio. A banalização do insólito: questões de gênero literário – mecanismos de construção narrativa. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2007. p. 12-23.

OLIVEIRA, Pedro Paulo Martins de. A construção social da masculinidade. Tese de Doutorado em Sociologia. Universidade de São Paulo (USP), 2002.

XAVIER, Elódia. Reflexões sobre a narrativa feminina. In: XAVIER, Elódia (Org.). Tudo no feminino: a presença da mulher na narrativa brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.



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