Revista LitCult – Vol.13 - 1º semestre – 2017



A IDEALIZAÇÃO DA FIGURA FEMININA NA OBRA IRACEMA DE JOSÉ DE ALENCAR – Janaíne Januário da Silva, Maria das Graças dos Santos Correia





Janaíne Januário da Silva

Universidade Federal de Alagoas

Maria das Graças dos Santos Correia

Universidade Federal de Alagoas

 

RESUMO: O presente trabalho tem como objetivo identificar a figura feminina na obra “Iracema” de José de Alencar, que foi escrito em 1865. Para tanto, podermos discutir acerca da idealização da mulher no processo construtivo abordado em Iracema. Iremos ressaltar a imagem feminina tratada na obra. A obra retrata a mulher sendo idealizada como uma heroína, guerreira, rápida, forte, inteligente que ficou eternamente conhecida na literatura brasileira como a “virgem dos lábios de mel”. Temos como embasamento teórico Ivo Barbieri “Iracema contemporâneo da posteridade” (2013), Antônio Candido “A personagem de ficção” (1968) e José de Alencar “Iracema” (1865). O artigo visa, descrever a pureza da mulher virgem tratado em Iracema, e também a exaltação da natureza, fauna e flora e a mulher como uma figura natural da pureza nacionalista.

Palavras-chave: Iracema; Idealização da mulher; Romantismo; Indianismo.

ABSTRACT: This study aims to identify the female figure in Iracema work of José de Alencar, which was written in 1865. Therefore, we can discuss about the woman idealization in the construction process addressed in Iracema. We will emphasize the feminine image treated in the work. The work depicts a woman being idealized as a hero, warrior fast, strong, intelligent he was ever known in Brazilian literature as the “virgin honey lips”. We have the theoretical basis Ivo Barbieri “contemporary Iracema of posterity ” (2013),  Antonio Candido “The fictional character” (1968) and José de Alencar “Iracema” (1865). The article aims to describe the purity of virgin woman treated in Iracema, and also the exaltation of nature, flora and fauna and the woman as a natural figure of nationalist purity.

Keywords: Iracema; Idealization of women; Romanticism; Indianism.

 


 

 

  1. Introdução

José de Alencar, nasceu em Mecejana província do Ceará, em 1 de maio de 1829. O autor é considerado o primeiro vulto da literatura nacionalista e indianista. Pode-se dizer que Alencar foi o fundador da literatura brasileira, pois ele descobriu a beleza do nosso país e a trouxe de forma romântica para a literatura, o escritor despertava e transmitia em suas obras, o amor pela pátria, paisagem, natureza, pelas lendas e pelos povos indígenas. Escreveu diversas obras entre romances, teatro, não-ficção. Seus romances abrangiam algumas áreas, pois Alencar escrevia sobre diversos assuntos de caráter social, como em suas obras conhecidas como romances urbanos, destacam-se: A viuvinha (1860); Lucíola (1862); Diva (1864); Senhora (1875). Nos romances regionais podemos destacar: O gaúcho (1870); Til (1872); O sertanejo (1875). E nos romances indianistas, os principais foram: O Guarani (1857); Iracema (1865); Ubirajara (1874). Dentre os romances indianistas, Iracema é considerado o mais importante e é o romance de José de Alencar que abordaremos no presente artigo.

O romance Iracema foi escrito em 1865, contudo, as personagens da história, Iracema e Martin são heróis, Iracema índia guardiã do segredo da jurema e o mistério dos sonhos, e Martin guerreiro branco pelo qual a virgem se apaixona.  Após um acidente, Martim é recebido pela tribo dos Tabajaras, onde vivia a jovem Iracema. Na trama, Iracema e Martim se apaixonam e fogem para viverem o amor proibido, juntos levam o guerreiro Pitiguara Poti, amigo que Martim considerava como irmão.

Ao perceberem a fuga, os Tabajaras perseguem os amantes travando um combate sangrento ao encontrá-los. Desesperados, os três vão para uma praia deserta, na qual Martim e Iracema constroem uma cabana. Mas, passando-se alguns tempos, Martim resolve ir guerrear junto com os Pitiguaras e com seu amigo Poti, deixando Iracema grávida na cabana. Antes de Martim voltar para a tribo, Iracema dá à luz a um menino. Após o parto ela fica gravemente debilitada e acaba morrendo. Martim chega logo depois e, ao ouvir o canto triste da Jandaia (ave que sempre acompanhava Iracema), presencia a tragédia. Ele retorna para sua terra natal levando o filho consigo. Porém, quatro anos depois, voltam para o Ceará, onde implantam a fé cristã.

Alencar fazia parte da primeira geração do Romantismo no Brasil. A primeira geração do Romantismo era caracterizada pelo Nacionalista–indianista as obras eram voltadas para a natureza, o regresso ao passado histórico e ao medievalismo, ou seja, o historicismo, a nostalgia de algo distante no tempo, a fuga do “eu” interior. Criava-se um herói nacional na figura do índio, de onde surgiu a denominação de geração indianista. Alencar, como um dos principais autores dessa geração. Nessas obras indianistas o escritor cearense recria o mito do bom selvagem de Rousseau em nosso indígena. Defensor da associação entre o nativo e o europeu colonizador, observa, nesse casamento, inúmeras vantagens para ambos os povos: enquanto aquele oferece a natureza virgem, este lhe dá, em troca a cultura. O produto dessa amálgama seria o Brasil independente.

O nosso Romantismo elegerá o índio como seu herói, entre outras coisas porque este podia ser representado como. O nativo legítimo do Brasil – aquele que desde sempre aqui viveu, e que lutou heroicamente contra os colonizadores estrangeiros. Nada melhor para um movimento literário nacionalista do que um herói que pode ser apresentado como um legítimo produto de nossa terra. (JOBIM, 2003, p. 100).

O presente artigo objetiva identificar o perfil da mulher no romantismo brasileiro, e a construção da identidade feminina. Em seu romance, Alencar nos mostra uma mulher pura e casta, que simboliza a beleza feminina, a honra da heroína que deixa sua tribo e seu segredo por um amor platônico. “Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira”. Alencar (1865). Iracema foi o inicio do marco histórico da idealização da figura feminina na literatura brasileira, a mesma representava a cultura indígena e a submissão da mulher ao homem, exercendo papel de esposa e mãe.

Iracema representa a natureza, a colonização do Brasil o nome Iracema quer dizer “América”, ou seja, Alencar construiu um romance ficcional, pois Iracema é uma mistura de lenda com ficção, em que, no texto há a presença de dois heróis, Iracema e Martin. Um amor proibido, que nasce com o fogo ardente dos dois, o livro mistura a realidade à ficção, já que exalta a colonização e a miscigenação de índio e branco.

  1. O perfil da mulher no romantismo

No Romantismo brasileiro, o Nacionalismo era uma das principais características da primeira geração, em que os autores usavam como tema de suas obras a exaltação da pátria, da nacionalidade. Nessa formação da nacionalidade incluem-se em primeiro lugar os romances que tratam do índio, suas lendas e mitos da terra selvagem e conquistada. Pois românticos da primeira geração entenderam que sua missão era fundar uma identidade brasileira. Constituindo-se, assim, as obras indianistas de José de Alencar e, Iracema como uma das mais importantes.

Durante o Romantismo, a figura feminina foi fonte de inspiração e peça fundamental em muitas obras. Para ressaltar esse caráter puro e majestoso da mulher, muitos autores chegavam até a atribuir características idealizadas à essas damas que remetiam a natureza. A virgindade e o sensualismo também eram bastante valorizados nas obras românticas. Tanto em pinturas quanto na literatura da época, muitas heroínas eram moças virgens e frágeis.

Com o passar do tempo, o modelo de mulher graciosa, delicada, bela, em resumo, perfeita, continuou sendo utilizado e está presente em muitas manifestações culturais contemporâneas, porém nem todos esses valores se mantiveram os mesmos. “A mulher, entre os românticos aparece convertida em anjo, em figura poderosa; inatingível, capaz de mudar a vida do próprio homem”. (PROENÇA, 1978, p. 186).

O Romantismo foi o primeiro movimento literário brasileiro da era nacional. A primeira geração destacou-se pela tentativa de adaptar, de maneira nacionalista, o Romantismo, exaltando a natureza exótica e exuberante do Brasil, bem como a beleza e inocência do indígena; na obra Iracema, Alencar representa essa beleza exótica, “a flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue e tronco onde se enlace” (ALENCAR, 1865. p.15). Neste trecho, o escritor está exaltando a beleza de Iracema comparando-a a uma “flor da mata”, ou ainda exaltando-a como “a virgem dos lábios de mel”. A nação que surgia com a independência buscava seus heróis formadores, os quais diferenciassem o nosso país das origens europeias.

Nem podemos esquecer o caráter sensual que existe no mel, esse grosso liquido tão característico dos trópicos. O mel, viscosos inclusive, pode também ser relacionado ao liquido vaginal, que é a fertilidade e a sensualidade por si mesma, sem vulgaridades, pois a vulgaridade é a malicia que, ao menos por convenção, existe nos homens chamados civilizados, mas o que temos aqui é, ao contrário, algo espontâneo, sem pretensões de o ser e até mesmo sem o perceber sensualidade totalmente relacionada a Iracema, mas não é uma sensualidade provocadora, é algo natural. (SILVEIRA, 2009, p. 77)

Com isso, Alencar enfatiza a beleza e a sensualidade natural da índia Iracema, bem como o sentimento puro e inocente despertado pela virgem dos lábios de mel. Beleza, pureza e sentimento estes que não existiam na população civilizada, como eram chamados os europeus colonizadores.

A índia é bela e formosa por si mesma, sem forçar isso, como prova o momento em que se banha no lago, ao lado de garças e jaçanãs, e as testemunhas do banho, por causa dela, batizam o lugar com o nome de Porangaba, o “lugar da beleza”. É uma sensualidade quase mítica, digna de uma deusa da floresta, aquela que chega até mesmo a estar acima dos fatores naturais, como pode-se perceber no início do romance. (SILVEIRA, 2009, p. 78)

José de Alencar buscou criar no Romantismo indianista uma nova identidade nacional, com isso, buscava suas bases no nativismo da literatura anterior a independência, no elogio á terra e ao homem primitivo. O poeta romântico está sempre buscando modificar a realidade, e a imaginação, criando assim um novo mundo de idealização e escapismo romântico, há o direcionamento em que, o poeta alarga em direção à pátria e o nacionalismo.  A personagem Iracema, é a representação do ideal feminino, segundo Antônio Candido (1968, p. 24). A personagem é um ser fictício a imagem como a palavra tem a possibilidade de descrever e animar ambientes, paisagens e objetos. Haja vista, que a personagem de Iracema retrata o perfil da mulher romântica, daquela época, a mulher para casa-se tinha que ser virgem, pura e submissa ao homem. Antônio Candido afirma que:

A força das grandes personagens vem do fato de que o sentimento que temos da sua complexidade é máximo; mas isso, devido à unidade, à simplificação estrutural que o romancista lhe deu. Graças aos recursos de caracterização, isto é, os elementos que o romancista utiliza para descrever e definir a personagem, de maneira a que ela possa dar a impressão de vida, configurando-se ante o leitor. (CANDIDO, 1968, p. 26).

Alencar descreve muito bem a força de sua personagem Iracema, pois quando o leitor faz uma leitura minuciosa desta obra, identifica os traços de realidade existentes em Iracema, todavia, este leitor deve buscar logo a interpretação de maneira sutil, dando vida às personagens históricas, ou seja, que realmente existiram e fizeram parte da História do Brasil. No romance Iracema há a presença de dois gêneros literários, o lírico e o épico, evidenciados no texto, também a exaltação da natureza vegetal, animal e humano, com isso no inicio do romance temos.

Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; verdes mares, que brilhais como liquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros; serenai verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas. (ALENCAR, 1865. p.7).

Além da exaltação feminina no romance, Alencar exalta a fauna e a flora típica do cenário romântico, Iracema “Virgem dos lábios de mel”, idealização feminina e representação da natureza, bela e pura igual à fauna brasileira e o idealismo. Iracema pode ser considerada a personagem símbolo da terra que, pelos seus encantos, seduz o estrangeiro que vem ao Brasil a ficar em suas terras.

Martim se apaixona pelos seus encantos e resolve ficar, no entanto, Iracema não poderá ser sua, a virgem filha de Araquém consagrará a sua virgindade ao deus, sendo guardiã do segredo de jurema e o mistério dos sonhos. A índia fabricava para o pajé a bebida de tupã, e o guerreiro que possuísse a virgem de Tupã morreria. O romance de Iracema é contemporâneo da posteridade, pois, é lembrado para sempre e vive na época presente, tornando-se uma obra atual, segundo Barbieri (2013. p. 29) “José de Alencar irrompe na cena literária brasileira de maneira estrepitosa e ativa, sem Alencar não teríamos romance brasileiro”.  A mulher na obra de Alencar é vista como um símbolo da natureza, Iracema diferente das obras Lucíola e Senhora únicos livros de Alencar em que a mulher se defronta com homem de forma igual, ambas se destacam pela dignidade feminina.

As conquistas da mulher perante a sociedade foram muito significativas, a mulher daquela época era submissa ao homem, vista que a sociedade tinha preceitos machistas e preconceituosos, devido aos costumes da época, essas mulheres defrontavam a mesma dignidade masculina. Já Iracema, tem um perfil diferente dessas duas mulheres citadas acima, ela é uma heroína, que se prende ao amor que sente por Martin e em consequência desse amor platônico ela acaba morrendo de saudades deixando seu filho, Moacir, fruto desse amor e da miscigenação brasileira.

A triste esposa e mãe soabriu os olhos, ouvindo a voz amada. Com esforço grande, pôde erguer o filho nos braços e apresenta-lo ao pai, que o olhava extático em seu amor.  Recebe o filho de teu sangue nos braços. Era tempo; meus seios ingratos já não tinham alimento para dar-lhes! Pousada a criança nos braços paternos, a desventurada mãe desfaleceu, como a jetica se lhe arrancam o bulbo. O esposo viu então como a dor tinha consumido seu belo corpo; mas a formosura ainda morava nela, como o perfume na flor caída do manacá. (ALENCAR, 1865. Pág. 68).

O amor da bela Iracema pelo estrangeiro era tão grande que a saudade acabou-lhe a vida. O romance de Alencar nos mostra a submissão do índio ao branco, a mulher romântica que sente a falta de seu amado e não consegue viver longe desse amor. Diferente das mulheres contemporâneas, que ao longo da história deixaram um pouco de ter essa submissão, e conseguiram a própria autonomia.

Alencar buscou idealizar a figura feminina, e não reproduzi-la. O amor do romancista é angelical, puro, idealizado; a mulher é vista como um ser intocável, um anjo, símbolo da perfeição, a mais bela e virgem, havendo assim, a idealização da figura feminina.  “Iracema a virgem dos olhos negros”, para tanto, caracterizando o retrato da figura feminina nas obras literária de Alencar, predomina um estilo romântico a idealização da mulher e do amor em que o autor realça o seu lirismo amoroso, pela mulher.

Segundo Almeida Prado (1968. p. 44), “a obra literária é um prolongamento do autor, uma objetivação do que ele sente possuir de mais íntimo e pessoal”. Sendo assim, o autor é o retrato de sua obra literária, um marco na literatura brasileira. Alencar é reconhecido como maior poeta escritor do romantismo ele se preocupou com o nacionalismo brasileiro.

  1. A construção da identidade feminina

Ao longo do tempo a mulher foi construindo uma identidade feminina, lutando pelos seus direitos igualitários perante a sociedade. Em suas obras Alencar buscou sempre definir a mulher nesse perfil: guerreira, forte, decidida, heroína que luta pelos seus ideais. Na obra Iracema, ela trai sua família e tribo, para viver um amor com o estrangeiro, amor esse que não era permitido.

As águas do rio banhavam o corpo casto da recente esposa. Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras.

Iracema te acompanhará, guerreiro branco; porque ela já é tua esposa. O guerreiro branco sonhava, quando Tupã abandonou sua virgem. A filha do pajé traiu o segredo da jurema. (ALENCAR, 1865. p. 34; 37).

Iracema torna-se esposa de Martin traindo seu povo para ficar ao lado do guerreiro. O escritor romântico, enfatiza a decisão da virgem que preferiu lutar pelo seu objetivo, ao se curvar diante de seu povo, a força e a beleza de Iracema representa a mulher.   José de Alencar tem como objeto de criação a personagem feminina Iracema, o comportamento dessa personagem não se limita ao de mulheres idealizadas para os padrões morais e intelectuais daquela época, ele buscou sintetizar o nacionalismo através de sua personagem indígena transformando todo seu conhecimento da terra em poesia.

Todavia, a mulher tratada nos romances de Alencar é digna, santa, forte, para Alencar (1865, p.55) “As lágrimas da mulher amolecem o coração do guerreiro, como o orvalho da manhã amolece a terra”, nesta citação o autor exalta a mulher, havendo assim duplo sentido, em que a mulher pode conseguir várias coisas com suas lágrimas, o poder de convencimento da figura feminina perante o homem. Alencar idealiza Iracema tornando-a sempre melhor, usando certa superioridade ao compará-la com a natureza nacionalista.

“A virgem dos lábios de mel” representa todo o imaginário indígena, a beleza natural dessa cultura e Martim traz a figura do branco colonizador, que é também guerreiro, assim como o índio, e igualmente forte, se comparado a ele. Havendo assim, uma igualdade entre homem e mulher, não fazendo distinção entre as duas culturas, pois, Iracema é quem toma todas as atitudes de seguir o guerreiro, mulher valente que se disponibiliza a enfrentar tudo, pelo desejo de seu amor.

A sombra de Iracema não esconderá Iracema à vingança de irapuã. Vil é o guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher.

O amor de Iracema é como vento dos areais; mata a flor das árvores: suspirou a virgem. E afastou-se lentamente. (ALENCAR, 1865, p. 18).

Assim, Iracema vai construindo uma identidade feminina da mulher protetora guerreira, que não tem êxito em lutar.  O amor que a virgem sente, é imenso que chega a ser submissa a Martin, seu esposo.

O mel dos lábios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da andiroba: tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azuis e dos cabelos de sol guarda para seu guerreiro, na taba dos brancos, mel da açucena. (ALENCAR, 1865 p. 19).

Por outro lado, a índia é encantadora e com sua beleza consegue conquistar o coração do jovem guerreiro, Alencar refere-se à Iracema, como ela sendo também sedutora e conduz o homem a cometer certas atitudes em consequência desse amor. Iracema é uma mulher forte, dona de sua vontade, porém, se destrói doente de ciúmes, insegurança e saudades de Martim, o grande amor de sua vida, que por conta disso acaba sua vida, mostrando assim o lado fraco da mulher, que sente falta e depende do marido.

É o ciúme que fala mais alto, é o medo de perdê-lo para outra, ou seja, a insegurança faz com que Iracema deixe de comer e fique fraca e o sentimento à flor da pele quando se deixa abater pelas dores do coração a índia acaba morrendo, e dessa dor nasce seu filho Moacir, primeiro filho de branco e índia.

Tu és Moacir, o nascido de meu sofrimento. A ará, pousada no olho do coqueiro, repetiu Moacir; e desde então a ave amiga unia em seu canto ao nome da mãe, o nome do filho. O inocente dormia; Iracema suspirava. Tua mãe também, filho de minha angustia, não beberá em teus lábios o mel de teu sorriso. A jovem mãe passou aos ombros a larga faixa de macio algodão, que fabricara para trazer o filho sempre unido ao flanco; e seguiu pela areia o rasto do esposo, que há três sóis se partira.  (ALENCAR, 1865, p. 63).

A jovem mãe, com angustia de seu amado que não volta, se põe ao desespero, Alencar, defronta uma mulher, guerreira, que luta pelo que considera certo, transformando-a em mulher insegura que fica á espera de seu amado e refém desse amor que acaba por destruí-la.  O seu filho é quem sustenta Iracema, até Martin retornar e tomá-lo em seus braços.

Da mesma forma que Iracema se sacrifica pelo amor de Martim, gerando o herdeiro Moacir, e a mulher se sacrifica para o homem no sistema social patriarcal, não apena no Brasil, mas a América Latina como um todo se sacrifica para a Europa. Ela dispõe ao colonizador a fertilidade da sua terra, a diversidade de seus recursos, para que o europeu “sobreviva”, ao mesmo tempo que, a partir desse contato, é formada a civilização, de características especiais, juntando parte das duas culturas. Assim, mais ainda do que louvar a simplicidade do indígena, Alencar representou a fusão dos elementos branco e índio na formação de nossas particularidades. (SILVEIRA, 2009, p.78)

Ou seja, Alencar idealiza tanto a imagem feminina que a personagem Iracema representa, além da sensibilidade e beleza indígena, a própria história do Brasil, da relação europeia/indígena na construção histórica das nações. Até o próprio nome Iracema, representa a palavra América, representando a fusão dos elementos e a formação e caracterização da mistura dos povos indígenas e europeus.

  1. Considerações finais

No romance Iracema, de José de Alencar encontramos a influência de dois gêneros literários: o lírico e o épico. O lírico é evidenciado pela prosa poética, com elementos sonoros, com a segmentação das frases e repetição dos sintagmas, das imagens sugestivas, das metáforas delicadas, das comparações entre elementos animais, vegetais e humanos, e também presença de outros recursos retóricos próprios de gênero lírico. Os aspectos épicos do romance estão relacionados com o assunto: o narrador anuncia que está relatando. Esta história é a lenda de Iracema, “a virgem dos lábios de mel”. Tal lenda no seio do povo nordestino a partir da luta pela colonização do Ceará e de outras regiões do nordeste brasileiro, no início do século XVII (D’ONOFRIO, 1990).

Em suas obras José de Alencar, em geral, idealiza a mulher como um ser amável, que busca lutar pelos seus ideais. Iracema luta contra todos e rompe com seus valores familiares para ficar com seu grande amor. Ela descumpre as leis do seu povo, não tem medo de ninguém, enfrentando seu deus e defendendo seu amado, mostrando assim, uma atitude de mulher guerreira e valente. Iracema inovou o perfil feminino daquela época, pois a sociedade antigamente era preconceituosa, as mulheres teriam que ser submissas ao marido e/ou a sua família, e Iracema rompe, com esse tradicionalismo, tornando-se independente para fazer sua própria escolha.

Alencar enfatiza, também, a beleza feminina representada pela bela índia de cabelos longos e negros, ou seja, a mulher representa a natureza, forte, pura, guerreira. Os poetas românticos idealizavam os índios como bons selvagens, cujos valores heroicos tomavam como modelo de formação do povo brasileiro. O conceito de indianismo no romantismo brasileiro seria que, os poetas visavam o índio como modelo ideológico e selvagem, um ser puro sem maldades, sem ambição ou qualquer interesse em adquirir riqueza (JOBIM, 2003), Alencar descreve em suas obras o perfil indianista.

No entanto, ao mesmo tempo Iracema é uma mulher frágil que se apega a esse amor, que sente ciúme e insegurança por medo de perder o grande amor e acaba morrendo de desgosto e saudade ficando apenas seu filho Moacir, “o filho de sua dor”, para seu amado cuidar. Iracema é forte, dona de sua vontade, mas se destrói doente de ciúmes e saudade de Martim, o grande amor de sua vida. É o ciúme que fala mais alto, é o medo de perdê-lo para outra, é o sentimento à flor da pele quando se deixa abater pelas dores do coração ela acaba morrendo tornando-se personagem do romantismo, já, que a mesma sofre por alguma ilusão e em consequência desse sofrimento morre. Por outro lado, Iracema é uma mulher romântica, mas que luta pelos seus ideais e sonhos. Traçando, assim o perfil da mulher idealizada do movimento romântico.

Referências

ALENCAR. José de. Iracema. 5 ed. Jaraguá do Sul-SC: Avenida, 2012.

BARBIERI. Ivo. Iracema contemporâneo da posteridade? São Paulo: Realizações, 2013.

CANDIDO. Antônio.  A personagem de ficção. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1968.

D’ONOFRIO, Salvatore. A época romântica da Era Moderna. In: ______. Literatura ocidental: autores e obras fundamentais. São Paulo: Ática, 1990.

JOBIM, José Luís. Formas da teoria. 2 ed. Rio de Janeiro: Caetés. 2003.

PRADO. Decio de Almeida. A personagem no teatro. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1968.

PROENÇA FILHO, Domício. O romantismo. In: ______. Estilos de época na literatura. 5. ed. rev. e aum. São Paulo: Ática, 1978.

SILVEIRA, Cássio. Iracema e a graciosa Ará: as metáforas e comparações entre personagens e natureza em “Iracema”. 2009. 190 f. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.



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