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A GUERRA DOS ORIXÁS





Autor: Luiza Lobo
Título: A GUERRA DOS ORIXÁS
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 16/03/2005

A GUERRA DOS ORIXÁS


Luiza Lobo

Foi um total acaso Xangô esbarrar naquele imenso tabuleiro na floresta. Machista e guerreiro, se sentiu desafiado. Quem arrumara aquele tabuleiro daquele jeito, bem no meio do seu caminho? Não via a farinha de dendê, nem a garrafa de cachaça, nem os adereços de fita de cetim vermelho. Não via as cores do seu terreiro nem a espada em sua homenagem. Não encontrou sobre o tabuleiro os usuais alimentos: acarajés, feijão preto, farofa, arroz de dendê; nem os usuais objetos de sacrifício: um carneiro, um cágado, um bode, nem mesmo um galo que fosse. Deu a volta do tabuleiro, intrigado, vestido em sua saia quadriculada vermelha e branca e seu colar de miçangas da mesma cor, mas não entendia nada. Aquilo não era um opanifá conhecido. Era um tabuleiro de xadrez, quadriculado de branco e negro. Xangô, o rei dos trovões, ficou rubro de raiva. Rugiu e o tempo fechou. Mandou raio e mandou trovão, contra seus invisíveis inimigos. Xangô tinha chegado na floresta caminhando em paz, riscando a velha fórmula de seu pai Oxalá na velhice, o orixá iorubá da criação dos homens. Pisavam-lhe nos calos, oh, sim, e ele estava muito irritado com o que encontrou. Então ele assumiu a forma de seu pai na mocidade, jovem guerreiro cheio de vigor e nobreza, e tomou as dores de seu povo sofrido e exilado, no maior êxodo de todos os tempos. Não se importava com o tal segundo livro da Bíblia. Seu povo sofreu muito mais. Transformado no Grande Pai, o Orixalá, bateu no peito e esperou, dardejando seus raios e trovões. O tempo fechou. Mas nada aconteceu. Aí o senhor das pedreiras esperou que uma idéia lhe cruzasse a mente. Não atinou com nada, senão chamar Ossanha, o deus irado das folhas da floresta, chegou na sua saia de chitão branco, verde, rosa, amarelo, marrom e na mão o ferro de sete hastes pontudas, tendo na do meio um pássaro. “Eu-eu!” – gritou em sua saudação. “Kauô Kabiecile!” – saudou Ossanha em resposta. – O que está havendo aqui, ó grande rei das matas? – Olhe, meu orixá das plantas curativas, veja que tabuleiro tão esquisito este, onde não vejo minhas oferendas prediletas deixadas, como de costume, na floresta! – respondeu Xangô. – Mas não é? E para mim não veio o ossé anual, nem cabra, nem galinha, nem farofa, feijão, milho verde com mel, e para o sacrifício não vejo bode, nem galo. Mas que peji mais estranho, meu deus! Vou chamar meu amigo Oxosse. Então chegou o deus da caça, o rei e o caboclo das matas do clã de Ogum, chefe da linha dos caboclos chefes de legião ou falange. Segurava seu ofá. Era o seu símbolo, o fetiche dos orixás, o arco e a flecha de ferro, em miniatura, junto ao otá. Ficou espiando o grande e estranho tabuleiro e rodando na mão a longa faixa do ojá , que prendia sua saia estampada de azul e verde claro sobre a calça branca rendada. Estavam todos vestidos para dia de festa: – “Okê, Okê Arô!” – saudaram Oxosse. – O que está acontecendo aqui nesta floresta? – gritou Ogum. Vou chamar os caboclos meus representantes – e sua dança imitava a caçada. Então Oxosse, Rei de Ketu, Caboclo e Rei das Matas voltou-se para a árvore sagrada da jurema e invocou seus Caboclos: – Venham, meus caboclos-índios, de pele vermelho-acobreada, entidades índias que baixam em nossos terreiros, venham com sua pele bronzeada ajudar seu pai. Venha vindo, guia-chefe da linha de Oxosse, Caboclo Araribóia; venha, Caboclo Arranca-Toco, entidade-guia, e Caboclo Arruda e Caboclo Cobra-Coral e Caboclo Guiné e Caboclo Pena Branca, entidades-guia, na linha de Oxosse; e venham vindo, Caboclo da Pedra Branca, entidade-chefe de falange ou legião e Caboclo das Sete Encruzilhadas e Caboclo do Sol e da Lua e Caboclo do Vento e Caboclo Treme-Terra, entidades-chefes da falange, na linha de Xangô; e Caboclo Malembá, entidade representante de Oxalá, venham todos descer no meio da floresta para decifrar este estranho tipo de otá. E os Caboclos baixaram todos, com seus cocares de pena, dançando em volta da cabaça, e falaram suas falas em misto de iorubá e tupi. E cruzaram suas linhas, suas falanges e legiões, mas não atinaram com o sentido daquele quadrado de madeira. Rodearam o tabuleiro e cantaram os pontos de cada orixá, e fizeram com o giz, a pemba, o ponto riscado, e o ponto de segurança, o ponto de abertura, o ponto de chamada, o ponto de defumação, o ponto de descarrego, falando na sua língua arrevesada de iorubá e tupi, mas não atinaram com o sentido daquele quadrado de madeira. Xangô ficou zangado. Rugiu e o tempo fechou. Mandou raio e mandou trovão, mas nada aconteceu. Não decifrou o sentido da afronta. Os Caboclos acenaram entre si e resolveram chamar os Pretos Velhos, que estão no quarto plano da hierarquia espiritual, logo abaixo deles, para fazerem magia branca e desfazerem magia negra, e resolverem aquela complexa questão, com sua sabedoria simples de antigos escravos purificados. Desceram os Pretos Velhos chefes de falange, da Linha Africana e da Linha de Yorimá. Três Pretos Velhos da Linha Africana baixaram ali e saudaram as divindades e os caboclos. Perguntados sobre o que era aquele tabuleiro, disseram: – Isso é um opanifá diferente. O tabuleiro não tem a forma achatada de bandeja, nem tem a cara de Exu esculpida na borda, entre outras figuras e sinais simbólicos. E é por isso que devemos invocar Exu. – Mas Exu? Ele não devia ter sido chamado primeiro? – argumenta um Caboclo. – Talvez ele traga mensagem especial sobre este estranho objeto – completa outro. E chegou Exu, com sua saia vermelha e preta enfeixada por uma ojá vermelha, o gorro e os búzios, seus colares de contas vermelhas e pretas alternadas, aguardando o sacrifício do galo e do bode preto. Mas só encontrou a estranha bandeja, o opanifá diferente. Exu olhou desconfiado para toda aquela gente reunida, todos aqueles deuses cercando o tabuleiro, perplexos com a raiva de Xangô, e se saiu com essa: – Isso é guerra! É guerra declarada! Temos de chamar nosso pai, Ogum, o deus guerreiro, do ferro e da agricultura. Ogum chegou. O Orixá iorubá, filho de Iemajá e de Oranhiã, chegou para resolver as demandas, vestido com sua espada de metal prateado e seu fetiche posto num prato, a “ferramenta de Ogum”, uma penca de sete instrumentos de ferro para a lavoura, a guerra e a caça. Gritaram “Ogunhê!”, e Ogum chegou. Ogum procurou seu acarajé, o feijão preto e fradinho, o inhame assado, e não os encontrou; e nem sinal de bode, de galo ou de conquém . Ogum bradou guerra. Xangô mandou raios e trovões. Mas nada aconteceu. Então Ogum invocou o Exu Tranca-Ruas, o Exu das Almas, que trabalha com todos os orixás e protege as giras dos terreiros. Chegou um homem de torso nu, pele acobreada, pés de bode e orelhas pontiagudas. Exu procurou algum trabalho para ele numa encruzilhada, mas na floresta só tinha árvores, e foi difícil encontrar quem tinha posto aquela “coisa feita” ali, bem diante de Xangô, o rei dos Trovões. Então Exu confabulou com Ogum e Xangô. E o Exu de Sete Cabeças, ou Exu de Sete Covas, Exu de Sete-Capas, que trabalha para Oxalá, o grande deus, e o mensageiro Exu de Sete-Catacumbas, e das Sete-Encruzilhadas, e das Sete Legiões das Trevas se lembrou: – Gente, vamos botar mesa, gente. Vamos chamar Ifá, o grande orixá da adivinhação e do destino e grande mensageiro da luz, para jogar os búzios e ler o nosso futuro. – E Exu exigiu, para si, o sacrifício de um bode preto, e com a força do sacrifício clamou pela presença de Ifá. E logo chegou Ifá, acompanhado de seu babalaô africano. Usava o opelé e segurava seus búzios furados para ver de que lado caía a sorte. O Ifá se plantou, solene, ao lado de um dendezeiro da floresta, sua árvore sagrada, e olhou o grupo com seus dezesseis olhos, como são 16 as contas da grande adivinhação, cada combinação acompanhada de uma história sagrada, o que o ajudava na adivinhação. E o babalaô ou sacerdote de Ifá segurou as contas do seu colar sagrado, o opelé Ifá, com oito meias-nozes de dendê abertas. Ora o segurava por uma ponta terminada em nó, que simbolizava

o lado masculino, ora pela outra, com 4 ou 5 fios de palha da Costa, o lado feminino. E o Babalaô, sacerdote de Ifá, o grande orixá da adivinhação e do destino, o deus de 16 olhos, disse aos presentes que veriam se desenhar na palha o seu destino, que seria formado a cada odu, ou jogada, pelo formato das contas de seu opelê. Com uma varinha anotou na areia o número de cada uma das oito jogadas sagradas do Ifá no seu estranho tabuleiro de madeira para adivinhação do destino. As contas do seu opelê ifá caíram em forma de U, com o lado aberto voltado para si. O babalaô ia anotando as quatro combinações possíveis das odus, ou jogadas, num total de 16 combinações possíveis. E naquela única jogada do opelé obteve as 16, mas não se sentiu esclarecido. E fez mais uma jogada ligada à anterior – obtendo 256 combinações. E tentou mais 16 combinações com cada uma das novas jogadas; poderia chegar a 4.096 combinações, até conseguir as respostas dos orixás. E cada odu ou resposta tinha sua história correspondente, e ia anotando cada novo desenho da queda dos odus no tabuleiro de madeira, o opanifá. De cada vez contava uma história no opanifá. E desta vez o opanifá não era o tabuleiro pequeno de madeira, onde aparecia a cara de Exu, mas o próprio tabuleiro quadriculado em branco e preto que Xangô encontrara na floresta, no meio de seu caminho. Os Orixás, sentados ao lado do babalaô, sabiam que algo muito grave se passava em seu destino. E os dias e as noites se sucediam, e as grandes chuvas e o sol se intercalavam no céu, e todos sentados à volta do babalaô, sob a guarda de Ifá, aguardavam o final da recitação da sorte, ouvindo atentamente a leitura das histórias de cada odu, muitas das quais já sabiam de cor. E quando o babalaô, que era o chefe do terreiro, afinal revelou a sorte, a maioria das divindades já sabia que se tratava de uma grande e séria guerra no qual precisariam empenhar todas as suas forças para vencer: – Isto é um tabuleiro de xadrez. E foi posto aqui na floresta como “coisa feita” para dizimar o nosso rito e a nossa raça. Nós devemos nos precaver muito contra esse jogo. É um jogo inventado pelos brancos e foi colocado aqui para uma partida de força destrutiva contra nossa terra africana e nossa fé na umbanda e no candomblé. Xangô clamou aos raios e trovões e invocou as cachoeiras e pela proteção da pedra, que estavam cortando e destruindo e exportando para países de brancos; Oxosse invocou seu ofá, o arco e flecha unidos em metal branco, o qual simbolizava seu poder de proteger a caça nas florestas fechadas do Brasil, ameaçadas de extinção; o babalaô preparou suas oferendas, com as substâncias brancas do poder genitor masculino: a seiva branca do seu sêmen, o seu cuspe, o seu hálito, e jogou álcool, aguardente e sumo da palmeira sobre todo o tabuleiro; em seguida jogou água pura, a substância branca veiculadora da força genitora feminina, o axé, sem a qual não há oferendas. Invocou as lami, mães ancestrais, que propiciam os mistérios e acalmam o espírito. Aí pôs a oferenda junto das substâncias pretas, representando o escuro seio da matéria geradora, ligada ao poder genitor feminino e ao elemento procriado. E invocou os objetos rituais à disposição, as pedras, vasilhas, instrumentos simbólicos e indumentárias com as três cores-símbolos do reino da natureza: o branco masculino, o negro feminino e o vermelho do dendê, do sangue do bode sacrificado ali, do sangue menstrual feminino, do ossum, ou pó de urucum e do mel, do cobre e do bronze, simbolizando cada orixá. Terminado o sacrifício, feito sobre o estranho tabuleiro, ribombou um grande estrondo e apareceu uma figura imensa, musculosa, de sandálias, saiote amarelo e capacete, muito esquisita. – Qual é a sua origem, sua linha de vibração? – perguntou-lhe Xangô, o grande orixá, deus do Trovão. O estranho ser ficou inquizilado por aquela questão. Não compreendia bem a língua e nem o sentido das palavras do santo negro. – É iniciado? – Pergunta-me se sou homossexual? – Qual é o seu Orixá, afinal? – Não sei do que me falam. – Bem, então quem colocou este tabuleiro aqui na floresta, cruzando o meu caminho? – insiste Xangô, com sua voz de baixo. – Isto foi idéia de Zeus, o rei dos Trovões. – Deve haver algum engano, porque o rei dos Raios e dos Trovões sou eu – interveio Xangô. – Ah, mas não é mesmo. – E quem é você para me dizer o que é e o que não é? – Eu sou Teseu, e matei o Minotauro, monstro em forma de homem e touro, que vivia num obscuro labirinto construído para o rei Minos II, em Creta. Se não fosse por mim até hoje doze rapazes e doze moças estariam sendo sacrificados todo ano a este homem-touro, na verdade fruto dos amores escusos de Pasífae e Minos II. – Tem certeza? – vociferou Oxalá. – Olhe, já viajei por todo o mundo e nunca ouvi falar dessa tal gruta de Creta. Nem ouvi falar desse tal monstro. Isso deve ser história muito antiga. – É verdade. – E que história é essa de filho com forma de touro? Isso não pode acontecer. Vocês nunca estudaram biologia? – Sabe, nós, gregos, amamos a fantasia, a reunião de todas as formas animais e humanas: casamos cisnes com Zeus, nosso rei dos Trovões, bodes e cavalos com homens, habitamos árvores e rios com ninfas, dotamos cavalos de asas… – Estou achando essa conversa muito bonita, mas não estou gostando nada dessa história de a toda hora falar desse tal de rei dos Trovões de vocês. Não dá para você o invocar logo de uma vez? – voltou a falar Xangô. Teseu alçou os ombros, mas não precisou nenhuma arte de magia para invocar Zeus, porque ele logo apareceu, com seu rosto ardiloso de deus maior do Olimpo. – Me chamaram, irmãos? – Este vem com cara de político esperto – comentou Oxosse, deus das florestas, que se desgostava de toda a esperteza das cidades. – Sou filho de Cronos, o tempo, e de Rea, a Grande Mãe dos deuses, que por sinal era sua mulher e sua irmã. Já tomei todas as formas possíveis para casar com minhas sete mulheres: chuva de ouro para conquistar Dánae, sátiro para conseguir os amores de Antíope; cisne para me casar com Leda – e tivemos dois filhos gêmeos, ambos cisnes; touro branco para raptar Europa; chama ígnea para devorar Egina. Para me estabelecer no Olimpo, lutei contra os Titãs, os Cíclopes, os Hecantoncheiros, gigantes de 300 mãos, filhos de Urano com Géa, a Terra, lutei contra Prometeu e muitos outros. Por isso não tenho medo de lutar contra vocês, africanos. Foi por isso que coloquei este tabuleiro aqui. – E que tipo de opanifá é este, que não conhecemos? – perguntou, respirando fundo, Ifá. – Como? Esta palavra não conheço, mas este tabuleiro serve para se jogar xadrez. Temos de deslocar a rainha, o rei, os cavalos, os peões, e os movimentos têm de ser pensados, calculados, racionalmente, até se empurrar o rei ou a rainha para uma armadilha – esta situação sem saída se chama de échec et mat, isto é, vencido e abatido, mas que o vulgo sói chamar de “xeque-mate”. – E quem ganha tem de se incorporar, receber a entidade, ser possuído por seu orixá, como bom filho de santo? – perguntou Oxosse. – Não sei de nada do que o companheiro está falando: basta acompanhar intelectualmente o movimento do rei e da rainha… – Olhe, nós, da África, não temos esse negócio de colocar rei e rainha em armadilha, não. Andamos de roupa de pano, pé no chão e comemos comida gostosa: inhame, acarajé com muito dendê, mesa posta com muita cor e arte. Esses luxos de corte estão fora de nossa tribo; somos povos da floresta, amamos a terra, a pedra, a água, a chuva e o sol. Acho que seria bom fazer um irê, um ritual de iniciação com este tal de Zeus, não é mesmo, gente? Os deuses aprovaram com um sinal de cabeça, enquanto Zeus não escondia sua ira. – Vamos chamar Hércules. Hércules vai dar uma lição nestes neguinhos. Hércules chegou com as sandálias de couro de bode amarradas quase até as coxas. Sua musculatura continuava intacta, apesar dos longos anos de uso,

contrastando com a cabeça microcéfala dos pouco inteligentes e muito musculosos. – Então, vamos ou não vamos? Se não querem jogar xadrez por bem, vamos resolver a parada pela força, não é mesmo? Meu amigo Teseu e eu até vencemos umas mulheres guerreiras, as amazonas, que têm um peito só – oh, Teseu, elas viviam em terras por onde esses aí andam hoje em dia, não é mesmo? Estamos aqui para isso. Vencer esta batalha, mesmo que seja à custa de nosso próprio Panteão. – É, vocês falam muito complicado, cheios de efes e erres, com seus reis e rainhas. Eu quero saber é se sabem fazer uma boa mandinga, se sabem se defender de uma boa pajelança de umbanda, quimbanda, macumba, umbanda traçada . Eu aqui sou o mensageiro de todas as forças das trevas e das profundas dos cemitérios, e faço qualquer sortilégio contra vocês e seu tal de xadrez. – Olhe aí, Hércules, acho que temos de chamar Hermes. Esse aí se diz mensageiro. Hermes é que é o único mensageiro de todos os tempos; ele, sim, conduz as almas até o Hades, o reino dos mortos. Hermes chegou célere, voando pela força de suas talarias ou sandálias aladas, seu petarius ou capacete de asas, e o caduceu, a vara mágica com serpentes entrelaçadas no alto. – Hermes – interpelou-o Zeus – dê uma lição de norma culta nesta gente dos terreiros. – Minha função é mais de leva-e-traz, não é, camaradas? Talvez pudéssemos chamar Prometeu, para uma mãozinha mais humana aí. Esse pessoal me parece meio sem cultura geral – acho que nunca ouviram falar em xadrez. Vocês não iam jogar uma partida de xadrez fatal? – É o caso, mas temos problemas lingüísticos e culturais de comunicação. Que venha Prometeu! – gritou Zeus, a plenos pulmões, muito irritado com tudo, e agora ainda mais por ter de pedir auxílio a seu originalmente arquiinimigo, o ladrão que roubou o fogo dos deuses para o revelar aos homens. Na verdade, fora o próprio Prometeu que os criara do barro. Antes daquela facécia do fogo, ele já lhes ensinara também as plantas medicinais, o cultivo da terra e a domesticação dos cavalos. Enfim, um deus que, embora tenha finalmente se juntado ao Olimpo, politicamente estava na oposição, pintado em excelentes cores por todos os viados românticos: Shelley, Byron, Coleridge, Dante Gabriel Rossetti, Elizabeth Barrett Browning e até por um tal de Joaquim de Sousa Andrade, conhecido como Sousândrade. – Xangô, você já leu um tal de Sousândrade, nascido no Maranhão? – perguntou Zeus, um tanto desatento. – Nosso povo não é lá muito de leituras, Alteza. Como já lhe disse e tresdisse, nossa atividade principal é mais ligada à terra, aos elementos da natureza, o vento, a chuva, o sol, a energia vital. – Hum… economia de subsistência – ridicularizou Zeus. – Chame Vossa Alteza do jeito que quiser. Mas é assim que viemos da África e até hoje moramos no coração de africanos e brasileiros. E vocês, onde estão que não os vejo? – Estamos nos livros escolares! – falou rápido Hefaístos ou Vulcano, que surgira rápido como o fogo, apesar de ser manco. – Todos esses ornamentos que vocês ostentam aí na sua cintura foram feitos por mim, na minha oficina que fica dentro de um vulcão, no coração do Monte Etna, em aliança com os Cíclopes, gigantes de um olho só. Apesar deste meu grupo de amigos não ser considerado muito simpático pela humanidade, nossa fama atravessou o mar Mediterrâneo e chegou até a Cecília, Roma, toda a Itália, o norte da África, e hoje somos estudados por toda a civilização ocidental. – Mas que sujeitinho mais pretensioso – intrometeu-se Exu. Grandes coisas ir da Grécia para a Itália, é logo ali do lado, naquele marzinho pequeno. Nós, sim, é que atravessamos o grande Oceano Atlântico desde a África, até o Brasil, o Caribe, a América do Norte, do Sul, chegando até o Pacífico, e estamos vivos na fé das pessoas até hoje. Somos consultados, reverenciados, recebemos oferendas de todas as linhas e tipos de fé, e culto de todas as raças e classes sociais. – É religião de gente pobre e subdesenvolvida. – Isso é o que dizem os safados dos protestantes, que têm preconceito racial – rebateu Exu. E Oxalá interveio: – Crime inafiançável no Brasil. Zeus ficou nervoso. Nada o deixava mais nervoso que uma longa conversa mole e a incontinência sexual. Desenvolvia cacoetes. Fungava, coçava o pau. – Ora, não conhecemos nada de sua gente inculta e nem essas leis de países bárbaros. O que importa é: vocês vão ou não vão jogar xadrez comigo? Apolo ou Hélio já vai alto no seu carro alado que ilumina o céu. Ele não pode descer até aqui, pois está transportando sua carruagem de um lado para o outro do dia, mas lá do alto está acompanhando nossa guerra. Oxosse não se conteve: – Mas ora vejam que ignorância, eles que se dizem tão cultos e civilizados. Um carro com asas trazendo o dia! É muita falta de conhecimento científico. – São imagens poéticas! – E o que vocês fazem o dia todo, além de iluminar o dia e fazer poesia? – Bem, nós, basicamente, amamos. Fazemos filhos híbridos e conquistamos sempre novos amores – falou com despeito Zeus, coçando o saco. – Mas que civilização mais egoísta – retomou Oxosse. – E não têm um pensamento para a humanidade? – Oh, claro que sim – gente, ele não leu Homero, nem a Ilíada nem a Odisséia, de Homero, e nem a Eneida, de Virgílio. É claro que nos grandes momentos épicos, nós intervimos. Mas na maior parte do tempo estamos muito ocupados; temos de comer nossos favos de mel, nossa ambrosia, nos deleitar com o vinho fresco do Olimpo… e nos defender das acusações de adultério, ora essa. A própria Diana, que é a deusa da caça, passa o dia caçando bichos, pois não poderia se privar de um dos seus maiores prazeres, na sua longa vida. – Mas isso é um escândalo! – interferiu Exu. – É por essas e outras que nasceu um Marx. – A humanidade foi relegada ao último escalão social por essa religião elitista de vocês. Só dá vocês, vocês e mais vocês. – E além do mais, são antiecológicos, caçando animais silvestres por puro prazer! Quanta inutilidade! – Não vejo o que há de errado nisso. É o que se chama de classicismo! A Idade de Ouro! – falou Zeus, zombeteiro. – Classicismo? Isso é deísmo! É sociedade de classes, e até de castas! Vocês vivem numa sociedade fechada e corporativa. Não plantam, não protegem as pessoas, não lêem a sorte delas, não as aconselham, não baixam em seus destinos, quando estão necessitadas… – falou Ossanha, pela primeira vez. – Ora, para isso podem ir ao Oráculo de Delfos! É lá que ouvirão as previsões de que necessitam e em que acreditam tanto! – revidou Zeus, entre gargalhadas de bon vivant. – Mas o senhor é um debochado, um desclassificado social! – interveio Oxalá, com sua voz tonitruante de deus máximo. – Em que acredita, nesse seu classicismo? – Eu acredito no prazer! Eu acredito na beleza, na estética, nas curvas perfeitas, na medida áurea, nos templos bem construídos, e na mens sana in corpore sano. – Mas a humanidade não é sempre assim! A maioria das pessoas nasce torta, por dentro e por fora, e precisa de uma reza forte por parte de todos os deuses e orixás. Vocês só tratam do lado de fora, da beleza exterior, e as almas que se danem… – Ah! essa coisa de alma e de transmigração da alma já é do departamento de filosofia. Quem se interessa por isso é Platão, que escreveu vários diálogos, aliás numa outra persona, sem assumir nada, colocando suas palavras delirantes na boca de Sócrates. (E assumindo ares íntimos, abraçou o ombro de Xangô) – Olhe, amigo, posso chamá-lo de amigo, não é? Vou lhe confessar uma coisa. Não acredito em nada dessas coisas de religião. Meu negócio é prazer, esbórnia, luxúria, mulheres bonitas, muita ambrosia, vinho, carneiro assado, cultos a Dionísio e suas procissões debochadas, escapar da perseguição de Hera, que vive com ciúmes doentios de mim. Enfim, viver, aproveitar tudo o que nos proporciona nossa exist

ência privilegiada de deuses no Olimpo, o nosso céu. – Xeque-mate! Você mesmo se condenou, irmãozinho. Não acredita em você mesmo! – gritou Xangô, com os olhos injetados de sangue. – É no que dá a cultura desconstrucionista, que vocês mesmos lançaram, há tanto tempo atrás! Vocês não podem acreditar nem em si mesmos, de tão intelectuais que são! – gritou Exu-Rompe-Mato. – Ainda bem que para vencer você nesta demanda pedi auxílio a meus irmãos Oxumaré, orixá do arco-íris e Omolu ou Obaluaiê, cujo verdadeiro nome não posso pronunciar aqui, porque pode trazer a varíola e demais doenças, pois são da mesma linha. Ou vencia ou não me chamava Oni! Não seria Xangô iorubá nagô, deus do raio e do trovão, filho de Iemanjá e de Oranhiã, não seria Xangô Abomi, Xangô Afonjá, Xangô Agodô, Xangô Agogô, Xangô Airá, Xangô Alfin, Xangô Alufã, Xangô Caô, Xangô Dadá, Xangô de Ouro. E à medida que ia referindo os seus nomes, a força destes ia “excomungando” os deuses brancos, que recuavam, apavorados – e o tabuleiro de xadrez estava todo pisoteado. – Não precisamos de tabuleiro de xadrez nenhum para disputar nosso poder com vocês, porque temos nosso opanifá de adivinhação. E Ifá nos contou como vocês vieram, saídos de seus livros de mitologia para nos amedrontar. Mas nós não temos medo de zumbis brancos, com suas línguas mortas nos museus europeus. Vocês têm uma religião morta, uma cultura que virou turismo, e nem falam mais a sua língua nem acreditam na cultura grega clássica. Mas nós estamos aqui, vivos, na dança, no canto e no culto do povo. – “Kauô Kabiesile”, eu te saúdo, Xangô, rei dos Raios e dos Trovões! – Zeus foi liderando a debandada, se curvando e saudando Xangô, o rei dos Raios e dos Trovões, com muita vontade de salvar a própria pele. E foi assim – contam os antigos – que terminou a Guerra dos Orixás. O babalorixá de Ifá relatou que, desde então, os meninos brasileiros não estudam mais mitologia grega. Preferem ver televisão o tempo todo. Mas no dia de Ano Novo vão acender suas velas na praia para Oxumaré, o orixá de dois sexos, morde a própria cauda, símbolo do eterno, do arco-íris, a grande serpente das profundezas morde que vem beber o céu. E tudo é divulgado nas telas de televisão para o mundo inteiro, entre fogos de artifício e shows de roqueiros, entre turistas, por jornalistas estrangeiros, que cercam os grupos de branco, e explicam, falando em inglês, de modo simplificado, o sentido das velas, do charuto, da cachaça e dos pontos riscados nas areias de Copacabana.

Do livro de contos: Estranha aparição. Rio de Janeiro, Rocco, 2000. p. 129-49.



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