Revista LitCult – Vol.12 – 2º semestre 2016



A ESSENCIALIZAÇÃO DO SER POR MEIO DA LINGUAGEM (O ESTUDO DO SER NO DISCURSO LITERÁRIO) – UMA PERSPECTIVA ENTRE REALIDADE E FICÇÃO, NO ROMANCE TERRA SONÂMBULA, DE MIA COUTO – Angélica Maria Alves Vasconcelos





   Angélica Maria Alves Vasconcelos

 Pontifícia Universidade Católica de Goiás

 

 

Resumo: Apresenta-se neste artigo uma análise fenomenológica do capítulo titulado, “A lição de Siqueleto” da obra Terra sonâmbula (2007), do escritor Mia Couto. Nesta abordagem de crítica literária tem-se como objetivo o estudo da linguagem como a essência do ser, conforme a teoria de Martin Heidegger (1987) em Ser e tempo. O presente estudo aborda, ainda, o conceito de ficção e realidade dentro desta obra literária, utilizando as teorias de Antoine Compagnon (2006) em O demônio da teoria.

 

Palavras-chave: realidade, ilusão referencial, linguagem, existência, ser.

 

Resúmen: Este ensayo presenta un análisis fenomenológico del capítulo titulado “Lección de Siqueleto”, de la novela Terra sonâmbula (2007), publicada por el escritor Mia Couto. Este enfoque de la crítica literaria se centra en el estudio del lenguaje como la esencia del ser, según la teoría de Martin Heidegger (1987) en Ser y tiempo. El presente estudio también aborda el concepto de ficción y realidad en esta obra literaria, según las teorías desarrolladas por Antoine Compagnon en O demônio da teoría (2006).

 

Palabras-clave: realidad, ilusión referencial, lenguaje, existencia, ser.

 

Abstract: This paper presents a phenomenological analysis of the chapter titled “Siqueleto Lesson,” in the novel Terra sonâmbula (2007), by the Angolan writer Mia Couto. This piece of literary criticism has at its focus the study of language as the essence of being, according to Martin Heidegger’s book Ser e tempo (Being and Time, 1987). It approaches the concept of fiction and reality in the novel through the theory developed by Antoine Compagnon in his book Demônio da teoria (2006).

 

Keywords: reality, illusion, referential language, existence, being.

 

Minicurrículo: Angélica Maria Alves Vasconcelos é mestranda em Letras – Literatura e Crítica Literária, pela Instituição Pontifícia Universidade Católica de Goiás, especialista em Ensino de Língua Portuguesa pela Universidade Salgado de Oliveira e licenciada em Letras Português e Espanhol pela Universidade Federal de Goiás. Atua como professora de Língua Portuguesa e Língua Espanhola na rede Estadual e municipal de Ensino de Goiás, Goiânia.

 

 

A ESSENCIALIZAÇÃO DO SER POR MEIO DA LINGUAGEM (O ESTUDO DO SER NO DISCURSO LITERÁRIO) – UMA PERSPECTIVA ENTRE REALIDADE E FICÇÃO, NO ROMANCE TERRA SONÂMBULA,

DE MIA COUTO

 

 

 

 Angélica Maria Alves Vasconcelos

 

Pontifícia Universidade Católica de Goiás

 

 

  1. O ser no universo macrocosmo

Vivemos em um mundo em que a linguagem é focada como fator social, num processo dinâmico vital. Ela está em permanente construção, evolução, deslocamento e transgressão e se coloca como instrumento de identificação, de saber e de poder. É através dela que o ser impõe seu lugar no mundo. A linguagem eleva o homem. É a sua defesa e a sua magnitude. Ela passa por um processo de conhecimento, de humanização e converte o ser em fertilizador, em eloquência transgressora.

As linguagens transcendem e perpassam no tempo, querendo sempre dizer algo de novo a cada época. Sua significância sugere possibilidades para que os indivíduos façam sua busca de afirmação como ser da linguagem, singular e único. As linguagens não se excluem umas das outras, mas se interrompem de diversas maneiras, porque são pontos de vistas específicos sobre o mundo. Elas podem ser confrontadas, podem servir de complemento mútuo entre si, opõem-se umas às outras e se correspondem dialogicamente. Elas vivem, lutam e evoluem no plurilinguismo social.

O crítico literário Riffatterre (apud, COMPAGNON, 2006, p.110) diz que a literatura não tem referência com a realidade e sim com a ilusão referencial, pois a significância está no silêncio do texto. O leitor, com o seu conhecimento idiossincrático, ativado por meio da memória, chega à compreensão.

O romance Terra sonâmbula foi publicado em 1992, tendo como pano de fundo o período da guerra civil em Moçambique, cujo término se deu naquele ano. Moçambique viveu longo período em guerras desde que começou a luta pela sua independência de Portugal, em 1965. Depois de dez anos de guerra contra Portugal, iniciou-se o conflito interno, que durou mais 16 anos. Foram, portanto, mais de 25 anos de luta até se conseguir a paz.

Terra sonâmbula foi considerado um dos melhores romances africanos do século XX. Nesta obra, o autor (que vivenciou o período) mostra, por seus personagens, traços da nação moçambicana em busca de sua unidade.

Assim Couto (2007, p. 9) inicia o livro, descrevendo a paisagem moçambicana:

 

Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Em cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão. Em resignada aprendizagem da morte.

 

Muidinga (o miúdo) e Tuahir (o velho) são personagens cercados por este cenário, pela estrada morta, pelas cores sujas, em que caminham juntos, sem destino, “em busca do adiante”.

Terra sonâmbula apresenta um linguajar que não é nem brasileiro nem de Portugal. É como se o autor tivesse achado uma nova forma na língua portuguesa local uma forma de mostrar a alma do povo moçambicano, um sentimento que mistura a agressividade da guerra à passividade do sono e que conta duas histórias simultâneas, entremeadas por várias outras.

No primeiro plano se tem a história de Muidinga, o jovem que acompanha o velho Tuahir, fugindo da guerra, até chegarem ao machimbombo completamente queimado, onde eles resolvem se abrigar.

Concomitantemente surge a segunda linha narrativa, após Muindinga encontrar uns cadernos na mala que está ao lado de um homem morto. Esses cadernos encontrados contam a história de Kindzu, que coincidentemente complementam a história de Muidinga. Kindzu, em seus cadernos, narra sua trajetória desde a partida de sua aldeia, após a morte do pai, em plena guerra civil:  “qualquer que fosse minha escolha uma coisa era certa: eu tinha que sair dali, aquele mundo já me estava matando” (COUTO, 2007, p. 29).

Assim como Muidinga, também Kindzu foge da guerra e tem como objetivo tornar-se um naparama: espécie de guerreiro tribal vestido de penas, que luta contra a injustiça. Parte para uma viagem, sem destino final, sendo diversas vezes perseguido e atormentado pelo espírito e pelas lembranças do pai morto.

Tuahir e Muidinga são frutos de seu país em guerra, seguem sem rumo certo, desorientados, situação um tanto semelhante com Moçambique, durante a guerra civil.

Terra sonâmbula nos permite imaginar a situação na qual se encontra o país: os relatos do velho Tuahir, de Muidinga, Kindzu e Siqueleto mostram a vida num local tomado pelos horrores da guerra, onde sonhar se torna um meio de fuga da cruel realidade. O livro denuncia a pobreza, o abandono do povo, numa terra sem lei, os efeitos da guerra:

 

Gentes imensas se concentram na praia como se fossem destroços trazidos pelas ondas. A verdade era outra: tinham vindo do interior, das terras onde os matadores tinham proclamado seu reino. Consoante as pobres gentes fugiam também os bandidos vinham em seu rastro como hienas perseguindo agonizantes gazelas. E agora aqueles deslocados se campeavam por ali sem terra para produzirem a mínima comida (COUTO, 2007, p. 55).

 

Algo que chama a atenção em Muidinga é sua construção como personagem. Ele não recorda de seu passado. Salvo da morte em um campo de refugiados por Tuahir, só se lembra do que ocorreu a partir daí.

O leitor depara, ao longo do romance, com “acontecimentos” fantásticos, surreais, sobrenaturais, que deixam transparecer a cultura mística do povo:

 

Numa das seguintes noites, escuras de perder o próprio nariz, tive, quem sabe, um sonho. O mar parava, imovente. As ondas se aplanavam, seu rugido emudecia. Havia uma calma dessas que precederam o nascer do mundo. Então, súbito e inesperado, das profundezas emergiram os afogados. Vinham ao de cimo, borbulhavam em festa. Entre eles estava meu pai, idoso como não o tínhamos deixado. Chamou-me saudou-me sem nenhum afeto (COUTO, 2007, p. 43).

 

O livro traz uma linguagem poética que caracteriza o estilo de Mia Couto, em que há um cunho social, embora o escritor não use sua obra como panfleto político. Apenas descreve seus personagens de forma coerente ao mundo em que vivem. E ainda assim, oferece ao leitor frases belíssimas, como esta do padre a Farida: “O mundo não tem nenhuma utilidade, disse ele. E conclui: a felicidade só cabe no vazio da mão fechada. A felicidade é uma coisa que os poderosos criaram para ilusão dos mais pobres” (COUTO, 2007, p. 77).

No romance percebe-se um dualismo sonho-realidade, que acompanha a obra como um todo. Em Terra sonâmbula encontram-se trechos que revelam verdades humanas: “A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco” (COUTO, 2007, p. 121).

Mia Couto descreve cuidadosamente cada sofrimento, cada dificuldade e cada momento vivido por seus personagens de forma encantadora, poética. Logo o leitor se vê obrigado a mergulhar junto nessa terra de sonhos e, assim, acaba também fantasiando seus personagens.

O real é a ilusão referencial literária, baseado na relação linguística que estabelece relação entre um signo e outro signo, um texto e outro texto. A ilusão referencial resulta de uma manipulação de signos que a convenção realista camufla, oculta o arbitrário do código e faz crer na naturalização do signo. Barthes afirmava que:

 

No mais realista dos romances, o referente não tem “realidade” que se imagine a desordem provocada pela mais comportada das narrações, se suas descrições fossem tomadas ao pé da letra, convertidas em programas de operações, e, muito simplesmente, executadas. Em suma (…), o que se chama de “real” (na teoria do texto realista) não é nunca senão um código de representação (de significação) não é nunca um código de execução (COMPAGNOM, 2006, p. 107).

 

A única maneira aceitável de colocar a questão das relações entre literatura e a realidade é formulá-la em termos de ilusão referencial, ou segundo a célebre expressão de Barthes, como “efeito do real”. A questão da representação volta-se então para o verossímil como convenção ou código partilhado pelo autor e pelo leitor.

A referência não tem realidade: o que se chama de real não é senão um código. A finalidade da “mimesis” é de produzir uma ilusão do discurso verdadeiro sobre o mundo real. Barthes (apud COMPAGNON, 2006, p. 110) diz: “O que existe por trás do papel não é o real, o referente, é a referência, a sutil imensidão das escrituras”.

Assim se manifesta uma nova teoria, a elaboração da sintaxe do texto literário no momento em que uma semântica deveria ser trazida a luz, a intertextualidade, que se apresenta como uma maneira de abrir o texto.

Kristeva (apud COMPAGNON, 2006, p. 111) afirma: “Todo texto se constrói como um mosaico de citações e transformações de um outro texto”. Bakhtin (apud COMPAGNON, 2006, p. 111) no que diz respeito à intertextualidade, designa o diálogo entre os textos no sentido amplo: “é o conjunto social considerado como um conjunto textual”.

Riffaterre reconhece que a única referência que importa nos textos literários é que falam de si mesmos e de outros textos. O intertexto é a percepção, pelo leitor, de relações entre uma obra e outra que a precederam ou se lhe seguram, sendo, um mecanismo para a leitura literária. Ela é a própria literariedade. A referencialidade se dá no texto e no leitor.

Pode-se descrever um fato histórico, preenchendo-o com argumentos, numa relação poética, a partir do momento em que expõe linguisticamente, a constituição de uma determinada história. O autor tenta estabelecer esse caráter poético do trabalho histórico e especificar o elemento figurativo seja ele de metonímia, sinédoque, ironia ou metáfora.

Independente de uma história contar fatos reais, que ocorreram historicamente, a narração desses fatos nunca conseguirá ser exatamente a expressão da realidade do que aconteceu, pois ela é escrita pela ótica do autor, que seleciona pela sua opinião ou pela intencionalidade da obra: “A literatura é uma seriedade prazerosa, isto é, não é a seriedade de um dever ser feito ou de uma lição a ser apreendida, mas uma seriedade estética, uma seriedade de percepção” (WARREN; WELLEK, 1962, p. 26).

Na obra Terra sonâmbula, vários personagens são diluídos, desessencializados, ou seja, há uma desrealização do ser. Eles estão preocupados somente com a sobrevivência e em como se manter vivos. Tudo isso faz parte da cotidianidade e da mundanidade desses personagens, que aparecem na medida em que o seu discurso se intercala na linguagem da obra, simultaneamente com a trajetória de suas ações.

 

  1. A busca do sentido do ser no discurso literário

Empregamos aqui, como suporte teórico-filosófico, as ideias de Martin Heidegger, em sua obra Ser e tempo (1988), a qual tem como objetivo investigar o sentido do Ser, começando pela análise do ser que nós próprios somos. Criando uma terminologia própria, Heidegger denominou o “modo de ser” do ser humano, nossa existência, com a palavra DASEIN, cujo sentido é ser-aí, estar-aí. Analisando a vida humana, o filósofo descreveu três etapas que marcam a existência inautêntica do ser:

1 – Fato da existência – o ser humano é lançado ao mundo, sem saber por quê. Ao despertar para a consciência da vida, já está aí, sem ter pedido para nascer;

2 – Desenvolvimento da existência – o ser humano estabelece relações com o mundo. Para existir, projeta sua vida e procura agir no campo de suas possibilidades. Move uma busca permanente para realizar aquilo que ainda não é.

3 – Destruição do eu – tentando realizar seu projeto, o ser humano sofre a interferência de uma série de fatores adversos que o desviam de seu caminho existencial. O seu eu se dissolve na cotidianidade. Em vez de se tornar o si-mesmo, torna-se o que os outros são.

A partir desse estado de angústia, abre-se para o homem, segundo Heidegger, uma alternativa: fugir de novo para o esquecimento de sua dimensão profunda, isto é, esquecer-se do ser e retornar ao cotidiano, ou superar a própria angústia, manifestando seu poder de transcendência sobre o mundo e sobre si mesmo.

Surge então um dos temas-chave de Heidegger: o homem pode transcender, o que significa afirmar que ele está capacitado a atribuir um sentido ao ser (CHAUI, in Heidegger, 1996, p. 10).

Distingue Heidegger duas espécies de linguagem, uma original e outra derivada.

A linguagem original exprime diretamente o ser, mostra o ser, revela-o e o traz para a luz. Ela é a fonte primordial do aparecer das coisas. O falar original está na base de todo movimento do universo: ela é a relação de todas as coisas.

O filósofo atribui à linguagem original uma densidade ontológica fundamental: a palavra é aquilo que sustenta o ser em todas as coisas.

A linguagem derivada é a linguagem humana, a qual consta de duas fases, uma da resposta e outra da proclamação. Os mortais falam enquanto correspondem à linguagem, que pode ser de dois modos: percebendo e respondendo. Toda palavra pronunciada é sempre resposta; faz com que o ser humano entre numa “servidão libertadora”, na qual o homem é encarregado de transferir o dizer original que não tem som, para o som da palavra.

Heidegger refere-se à linguagem como forma essencial para cultivar o homem junto à natureza, se posicionar de maneira questionadora e ascender, neste mundo em que o consumismo é prioridade. É preciso ter um diálogo com o todo, ter a sensibilidade para se aproximar da poesia da linguagem. A ciência e o cálculo manipulam e objetam o ser, gerando um descompasso, um desequilíbrio, impossibilitando-o de pensar, refletir e se questionar, não dando a oportunidade ao ser de se transcender em sua existência.

A teoria da linguagem de Heidegger consiste numa desconstrução da ideia de Sujeito, e, portanto, de subjetividade.

A linguagem eleva o homem à sua defesa e à sua magnitude. Ela converte o ser em fertilizador, em eloquência transgressora e revela a supremacia do direito ao humano pela libertação da palavra.

Podemos perceber na análise abaixo o ser humano (Dasein) lançado ao mundo, sem saber por que e ao despertar para a consciência da vida, já esta aí sem ter pedido para nascer. Ele estabelece relações com o mundo (ambiente natural e social historicamente situado). Para existir o Dasein projeta sua vida e procura agir no campo de suas possibilidades. Move-se em busca permanente para realizar aquilo que ainda não é. Mas mostrará em sua essência. Em outras palavras, existir é construir um projeto.

Vamos tomar um capítulo de Terra sonâmbula, cujo título é “A lição de Siqueleto, para mostrar seus personagens e, pela linguagem, analisar sua trajetória.

Tuahir é um contador de histórias que não sabe ler, e se baseia na tradição oral e em suas experiências cotidianas e espontâneas. Ele pode ajudar Muidinga com seus ensinamentos de vida e restaurar a memória perdida deste. Metonimicamente, esse idoso representa a sociedade primitiva, sem acesso à escrita, mas enriquecido pelos conhecimentos práticos orais recebidos das gerações anteriores. Parte importante dessa cultura, a oratura mítica da ancestralidade, a linguagem de Tuahir, será o elo entre o passado e o presente, entre Muidinga e Siqueleto.

Um velho que se achava sem esperanças, que não via sentido na vida, agora passa a sonhar a partir de seu encontro com Muidinga e os cadernos de Kindzu. Temos o sonho mostrado em uma de suas falas:

 

Que a nossa terra ia aquietar, todos se familiariam, moçambicanos. E nos visitaríamos como nos tempos, roendo caminhos sem nunca mais termos medo.

– Verdade isso? Pergunta o desdentado.

Longe se houve tiros, a guerra continua a infligir seus estrondos. Tuahir prossegue, arrebatado: diz que ouviu falar de países ricos onde a gente já nem tem que cavar a terra: enterra-se a enxada, bem direito no chão. Do cabo brotam árvores, plantas cheias de verde, mas o aldeião já anoitecera, queixo no peito. Seu mundo já era esse que Tuahir anunciara, de extensos sossegos” (COUTO, 2007, p. 67).

 

Tuahir é revigorado no momento que ele introduz sua linguagem ancestral para auxiliar Muidinga a manter contato com o velho Siqueleto, estabelecendo uma ponte entre eles.

Em contraponto temos Muidinga, um menino que fora encontrado por Tuahir em um campo de refugiados, e que, prestes a ser enterrado, é salvo pelo velho.  Perde a memória, não se lembra de onde veio e quem é, o que lhe causa mais sofrimento.

O menino recebe os ensinamentos de Tuahir, lê os cadernos de Kindzu, vai recobrando a memória coletiva e descobre que conhece também a escrita. Quando encontra uma mala com cadernos o menino descobre que podia lê-los, o que lhe abre enormes possibilidades.

Tuahir, por seu lado, também acaba recebendo influência dos escritos de Kindzu que vão sendo lidos por Muidinga, em voz alta.

Siqueleto, que aprisionou Muidinga e Tuahir em uma rede, não falava português, comunicando-se apenas na sua língua ancestral. Tuahir traduzia o que Siqueleto falava. Muidinga questiona o velho Siqueleto:

 

O velho aldeão se atenta para escutar, através da tradução de Tuahir. Por que motivo ele não recebia bem os visitantes como ordenavam as velhas leis hospitaleiras? De facto responde o velho: Não é assim a maneira de nossa raça. Antigamente quem chegava era bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos dedos (COUTO, 2007, p. 67).

 

O velho e o menino, ainda prisioneiros de Siqueleto, “fumam com o gosto de serem eles mesmos o incenso, fumam como se em seus dedos esfumassem o tempo, como se não houvesse rede impedindo-os de sair” (COUTO, 2007, p. 68). Quando, por um buraco da rede, Muidinga consegue retirar um braço, apanha um pau e escreve no chão a palavra “SIQUELETO”, e este observa os escritos: “Que desenhos são esses? – pergunta Siqueleto. – É o teu nome, responde Tuahir. – Esse é o meu nome?” (COUTO, 2007, p. 69).

Como se fosse um ritual sobre algo importante, Siqueleto roda limpando rabiscos em volta da palavra, depois se ajoelha como um ato de agradecimento e sorri para o chão como manifestação de encantamento e contemplação. Logo em seguida cantarola uma canção. Parece interiorizar-se para encontrar o ser que estava em sono profundo. E que, de repente, desperta e compreende que o silêncio da palavra escrita no chão mostra-lhe um possível processo de produção de sentido. Silenciado entende uma dimensão do não dito.

Dessa forma vale dizer que a palavra o remeteu e o transportou numa relação fundamental com o indizível, este recheado de significâncias. Pois o vazio é a ausência de conhecimento. Teve o seu primeiro contato com o desconhecido, aquilo que é sugerido por meio da palavra.

Como não tinha para quem passar suas origens e histórias (era o último habitante da aldeia), Siqueleto consegue enxergar a possibilidade de não ser esquecido. Imediatamente ele busca uma faca e corta a rede libertando os prisioneiros e estes o acompanham: “Frente a uma grande árvore Siqueleto ordena algo que o jovem não entende. – Está mandar que escrevas o nome dele” (COUTO, 2007, p. 67).

No tronco da árvore Muidinga grava, letra por letra, o nome do último habitante da aldeia: SIQUELETO. “Agora podem-se ir embora. A aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore” (COUTO, 2007, p. 69).

A partir do nome gravado no sangue da árvore, Siqueleto realiza-se como ser independente, Assim percebemos que o ser só pode ser determinado e deslocado de seu espaço exterior para o interior a partir do seu sentido com ele mesmo, ou seja, um ser autônomo, independente e indefinível: “Então ele mete o dedo no ouvido, vai enfiando mais e mais fundo até que sente o surdo som de qualquer coisa se estourando. O velho tira o dedo e um jorro de sangue repuxa da orelha. Ele se vai definhando até se tornar do tamanho de uma semente” (COUTO, 2007, p. 68).

Assim, sua transformação em semente sugere a perenização do ser pela linguagem.

 

  1. Considerações finais

O que nos interessa é que a palavra poética e filosófica em Terra sonâmbula mostra que a linguagem é distinção fundamental entre o homem referencial e desreferencial, sendo a manifestação do ser do homem na busca de sua existência e identidade, numa perspectiva autêntica, representando a transcendência do personagem, por meio da desalienação diante de si, do outro e para o mundo.

Heidegger (1988, p. 176) nos ensina que “a linguagem é a morada do ser”. É através dela que o ser se manifesta como sentido por meio dele mesmo e com o outro. Ela é o lugar onde o ser acontece, sobretudo porque se trata de um dizer, um determinar, um mostrar, um deixar aparecer, um ver, um sentir. É por ela que se dá a revelação do sentido do ser.

A preservação das espécies se dá por meio do sêmen, do sangue e sempre deixará os seus descendentes para dar continuidade à vida. No caso do homem, além da preservação da espécie como todos os animais, temos a preservação do ser. Esta preservação se dá por meio da linguagem, dos discursos tanto falados como escritos, uma vez que o indivíduo sem linguagem perde a capacidade humana, de percepção do real e da essência verdadeira das coisas.

 

  1. Referências bibliográficas

CHAUÍ, Marilena (1996). Introdução. In: HEIDEGGER, Martin. Conferências e escritos filosóficos. São Paulo: Nova Cultural.

COMPAGNON, Antoine (2006). O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonte: Editora UFMG.

COUTO, Mia (2007). Terra sonâmbula. São Paulo: Ed. Companhia das Letras.

HEIDEGGER, Martin (1987). Ser e tempo. Petrópolis: Vozes.

WARREM, Austin; WELLEK, René (1962). Teoria da Literatura. São Paulo: Europa América.



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