Revista LitCult - Vol.3 - 2002



A DUBIEDADE NARRATIVA EM CLARICE LISPECTOR: UM OLHAR SOBRE A HORA DA ESTRELA – Fabiana Rodrigues Carrijo





Resumo:
It will be suggested a reading of the novel A hora da Estrela, written by Clarice Lispector with a view to the narrative because it shows itself provocative and particular. Who tells the story seems to be a man nevertheless he allows himself to be “the other” of his own character, revealing a possible feminine side. Other features will be broach from this first one: the time’s subject – ambiguous in this narrative – as well as the dubious try to make a fiction which all the time shows itself as a non-fiction.

Texto:

A DUBIEDADE NARRATIVA EM CLARICE LISPECTOR: UM OLHAR SOBRE A HORA DA ESTRELA

Fabiana Rodrigues Carrijo

UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA

ABSTRACT: It will be suggested a reading of the novel A hora da Estrela, written by Clarice Lispector with a view to the narrative because it shows itself provocative and particular. Who tells the story seems to be a man nevertheless he allows himself to be “the other” of his own character, revealing a possible feminine side. Other features will be broach from this first one: the time’s subject – ambiguous in this narrative – as well as the dubious try to make a fiction which all the time shows itself as a non-fiction.

1- INTRODUÇÃO

O presente trabalho destina-se a fazer uma leitura da novela A hora da Estrela; sabe-se que esta constituirá apenas em mais uma entre tantas que se tem feito. Tal leitura se pautará pela análise e sugestão de um possível viés narrativo, congregando o duplo, ou seja, o “outro” da própria personagem.

Na realidade, esta possível androginia textual – nome com o qual denominou-se a especificidade desta narração dupla – em última instância – anuncia um tipo de narrativa polifônica, plurissignificante, como quer crer a terminologia de Bakhtin (1995), na qual a relação de alteridade está sempre presente, mesmo que sub-repticiamente.

No presente caso, a relação com o “outro” está na entrelinha de um discurso que opta pela relação dúbia com este outro. Andrógino, no sentido de entremostrar um narrador que não se constitui apenas masculino, mas se apresenta, em vários momentos, como a outra faceta, diga-se feminina. Dir-se-ia mais, se apresenta como a contraparte de um ser feminino.

Discutida a questão principal – a androginia textual – , tentar-se-á pontuar alguns aspectos da presente obrana qual percebe-se uma tentativa de criação de uma narrativa, aparentemente, ficcional, mas que, concomitantemente, se “desmente” o tempo todo, revelando-se não-ficcional e, de modo análogo, sendo a própria ficção.

Posteriormente, discutir-se-á o modo particular em que é tratada a noção do tempo na narrativa que ora se comenta. Deve-se dizer que todos estes aspectos a serem abordados na presente proposta de leitura, em primeira e última análise representam partes de um todo que, somadas, ajudam a compor a particular obra clariceana.

2- PERCORRENDO O CAMINHO DA ANDROGINIA TEXTUAL

Em A hora da estrela, o narrador Rodrigo S.M, em um processo de espelhamento, cria a personagem, Macabéa, como um duplo do narrador: “Vejo a nordestina se olhando ao espelho e – um ruflar de tambor –no espelho aparece o meu rosto cansado e barbudo”(H.E, 22). Como o Outro do Si-mesmo, Macabéa força sua existência na existência de Rodrigo (BORGES: 1999): “Apesar de eu não ter nada a ver com a moça, terei que me escrever todo através dela, por entre espantos meus” (H.E., 24). “(É paixão minha ser o outro. No caso a outra. Estremeço esquálido igual a ela.)” (H. E, 29). A possível feminilização do narrador, a partir desta determinação, se entrevê por indícios de que uma escrita masculina seria mais racional do que a que ele realiza. (BORGES: 1999). O narrador afirma “escrever com o corpo e o resultado desta escrita é uma névoa úmida”. Contudo, a tentativa de racionalizar a escrita aparece na contraposição seco/úmido: “O que eu narrarei será meloso? Tem tendência mas agora mesmo seco e endureço tudo”(H.E, 17) que caracteriza a contraposição entre a dureza masculina e a pretensa pieguice feminina : “. . .e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.”( H.E, 14)

Este sentido duplo de narrar, anuncia, ainda que sub-repticiamente, uma androginia textual em A hora da estrela, uma vez que há uma mixagem de vozes, tanto o narrador quanto a personagem protagonista se acham de tal modo imbricados, que um depende do outro para ter vida : Macabéa só possui vida no discurso ficcional criado por Rodrigo S.M, assim que S.M põe fim a existência de Macabéa, o mesmo acontecerá com ele mesmo: “Macabéa me matou. Ela estava livre de si e de nós. Não vos assusteis, morrer é um instante, passa logo, eu sei porque acabo de morrer com a moça.”(H.E, 86). Tal excerto sugere-nos a enorme coincidência entre autor/personagem, bem como a reversibilidade entre os membros deste par, já que os termos podem ser transpostos de uma posição para outra, sem que este processo implique em perda de função.

Do ponto de vista da escrita feminina, “este mecanismo de cessão da voz narrativa a um homem, faz-se como um pretexto para destruir internamente um discurso institucionalizadamente masculino”.(BORGES:1999). Daí a constante luta do narrador contra a pieguice que ele considera feminina por excelência. Por outro lado, a androginia textual que se instala mediante este processo, expressa um propósito de “conciliação do masculino – feminino como um gesto novo de escrita”. (Engelmann: 1996, 56).

Este exercício de concessão da voz a um narrador masculino, faz-se através de um exercício para manter-se junto a personagem (permanecer no nível da personagem) – no caso do narrador (Rodrigo) e distante dela (no caso do Autor):

Agora não é confortável: para falar da moça tenho que não fazer a barba durante dias e adquirir olheiras escuras por dormir pouco, só cochilar de pura exaustão, sou um trabalhador manual. Além de vestir-me com roupa velha rasgada. Tudo isso para me pôr no nível da nordestina. (H.E,19)

No fato de distanciar-se da personagem, deve-se dizer,distanciar-se de seu excesso. Um excesso que se caracteriza por elementos ausentes, já que sua natureza é lacunar.

Há uma estreita ligação entre o narrador Rodrigo S.M e a protagonista Macabéa, como se insistiu ao longo deste texto: “… e preciso falar dessa nordestina senão sufoco. Ela me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela. Escrevo em traços vivos e ríspidos de pintura.” (H. E, 17).

O narrador Rodrigo S.M, não é só o narrador, é a contraparte de Macabéa; sua identidade vai sendo paulatinamente desdobrada através de Macabéa; ao falar de Macabéa, Rodrigo S.M “se fala”: “Pareço conhecer nos menores detalhes essa nordestina, pois se vivo com ela. E como muito adivinhei a seu respeito, ela se me grudou na pele qual melado pegajoso ou lama negra”.(H. E, 21).

Acrescentando, o narrador ainda comenta que “a ação desta história terá como resultado minha transfiguração em outrem e minha materialização enfim em objeto.” (H.E, 27), ou sejaé sugerido desde as primeiras linhas da novela um possível travestimento, se é que assim, poder-se-á tomá-lo. Deve-se dizer que o termo travestimento não será utilizado aqui na acepção de transposição estilística de caráter parodístico como surge veiculada, por exemplo, na terminologia genettiana, mas como um processo de transformação aparente do masculino em feminino e vice-versa.

Quanto ao possível travestimento do narrador em outrem, deve-se dizer que, na constituição da presente narrativa, por diversos momentos, o Rodrigo S.M profere sobre o fato da narrativa já estar escrita, de algum modo, nele mesmo: “Ainda bem que o que eu vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim. Tenho é que me copiar com uma delicadeza de borboleta branca”.(H.E, 20)

Vale mencionar que a tarefa de escrever a narrativa, ou seja, de se copiar, não é tão fácil como se pensa. Em diversos momentos tem-se a representação de que ela é bastante dolorosa, árdua, repleta de lutas, horas e horas se constituindo, se desfacelando, se destecendo, se fragmentando, acompanhada do jogo de ficcionalização e desficcionalização da narrativa:

Pois a datilógrafa não quer sair dos meus ombros. Logo eu que constato que a pobreza é feia e promíscua. Por isso não sei se minha história vai ser_ ser o quê? Não sei de nada, ainda não me animei a escrevê-la. Terá acontecimentos? Terá. Mas quais? Também não sei. Não estou tentando criar em vós uma expectativa aflita e voraz: é que realmente não sei o que me espera, tenho um personagem buliçoso nas mãos e que me escapa a cada instante querendo que eu o recupere. (H. E, 22).

Para se copiar, é imprescindível tomar cuidado, como o narrador mesmo adverte, de se estar sobrevoando, de se estar em um espaço tênue, entre o limiar do espaço térreo e as alturas, ou seja, de estar no intervalo, no triz: “. . . com a delicadeza de borboleta branca”. Será com o intuito de não se contaminar, de não se misturar, imbricar, o que, de fato, está tão sub-repticiamente, contaminado, imbricado, como a noz e a semente?

Deve-se mencionar que em A hora da estrela há todo um jogo, através do processo de ficcionalização e desficcionalização do real. Em alguns momentos, tem-se uma tentativa de justificar, de nomear e, de contar quantos e quem são ou serão os possíveis personagens da novela, que possíveis sinas as esperam e assim por diante. Contudo em outros momentos, o narrador, quer fazer crer que a personagem construída, inventada, é passível de ser real, ou melhor, de se constituir em realidade, para que todos “a vejam, andando pelas ruas”:

A história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S.M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e ‘gran finale’ seguido de silêncio e de chuva caindo.” (H.E, 12-13). “De uma coisa tenho certeza: essa narrativa mexerá com uma coisa delicada: a criação de uma pessoa inteira que na certa está tão viva quanto eu. Cuidai dela porque meu poder é só mostrá-la para que vós a reconheçais na rua, andando de leve por causa da esvoaçada magreza. (H. E, 19).

Reafirmando o que se anunciou no parágrafo anterior, existe uma tentativa dupla de ficcionalização e desficcionalização na presente narrativa; concomitantemente à descrição de uma narrativa ficcional aparece também a desficcionalização desta narrativa, na medida em que o narrador, a todo o momento, quer fazer parecer que a Macabéa não é tão irreal assim, já que é possível ir reconhecendo-a pouco a pouco, e talvez, dentro de nós mesmos, no caso, os leitores. Contudo, por outro lado, não nos deixa esquecer que se trata de uma narrativa que vai se constituindo, na medida em que o narrador vai aventando e explicitando os fatos, os recursos narrativos – digam-se “fictícios” ou não – que lança mão para a construção de sua narrativa.

Posteriormente, o narrador segue configurando a construção da narrativa e, de modo velado, faz-se ler, ainda que implicitamente, uma tentativa de sugerir que seu papel não é tão somente o de escritor, mas, bem mais que isto – na medida em que, além de ser uma das personagens principais (ou de dividir com a mesma o papel principal – o “outro” dela mesma) – representa também aquele que conduz até mesmo o respirar alheio: “Na verdade sou mais ator porque, com apenas um modo de pontuar, faço malabarismos de entonação, obrigo o respirar alheio a me acompanhar o texto”.(H.E, 23). Este “ator”, em alguns momentos, assume a réplica dos leitores, representando o papel de ser o “outro” de nós mesmos e, quem sabe, dele próprio? Faz perguntas, assume comportamento, dúvidas que antes mesmo de os leitores as pensarem, responderem e encenarem, ele (o narrador) já as têm prontas, respondidas. Para utilizar um termo do teatro, o narrador encena e contracena com ele mesmo, ou melhor, com os diversos “outros” com os quais convive, seja dando por sua convivência, seja negando-a:

(Há os que tem. E há os que não têm.É muito simples: a moça não tinha. Não tinha o quê? É apenas isso mesmo: não tinha. Se der para me entenderem, está bem. Se não, também está bem. Mas por que trato dessa moça quando o que mais desejo é trigo puramente maduro e ouro no estio?) (H.E, 25)

(Estou passando por um pequeno inferno com esta história. Queiram os deuses que eu nunca descreva o lázaro porque senão eu me cobriria de lepra). (Se estou demorando um pouco em fazer acontecer o que já prevejo vagamente, é porque preciso tirar vários retratos dessa alagoana. E também porque se houver algum leitor para essa história quero que ele se embeba da jovem assim como um pano de chão todo encharcado. A moça é uma verdade da qual eu não queria saber. Não sei a quem acusar mas deve haver um réu) (H.E, 39)

No tocante ao tempo, na presente narrativa, deve-se destacar que ele é totalmente ambíguo e, parece obedecer ao mesmo jogo de ficcionalização e desficcionalização já sugerido inicialmente. Aliás, é em conseqüência deste jogo de ficção e não-ficção que se justifica a noção do tempo aqui empregada:”Quero acrescentar à guisa de informação sobre a jovem e sobre mim, que vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.”(H.E, 18)

Anteriormente, ou seja, nas páginas iniciais da narrativa, o narrador havia sugerido que o tempo da narrativa é o próprio da narração. Veja-se: “Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido.” (H.E,12). A todo o momento, percebe-se que os elementos que “deveriam” localizar, referir-se – os chamados dêiticos – cumprem mais a tarefa de não-localizar, ou localizar, dubiamente, enveredando os leitores para um caminho não marcado temporalmente, ou marcado com tendência a não-marcar: “Mas voltemos a hoje. Porque, como se sabe, hoje é hoje. Não estão me entendendo e eu ouço escuro que estão rindo de mim em risos rápidos e ríspidos de velhos.” (H.E, 20).

O transcorrer do tempo, dos dias também é sugerido de forma ambígua: “Enquanto isso – as constelações silenciosas e o espaço que é tempo que nada tem a ver com ela e conosco. Pois assim se passavam os dias. (H.E, 31)”. “E assim se passava o tempo para a moça esta” (H.E, 27).

É importante destacar, ainda, com referência ao tempo, que o mesmo se apresenta duplo, já que tanto se refere ao próprio tempo da construção da narrativa – em que se dispende para escrevê-la, para compor as personagens e a própria ficção – quanto ao tempo cronológico, específico da personagem e do narrador e de sua inserção na realidade pretensamente evolutiva, histórica. O próprio narrador retoma esta questão, nas páginas iniciais da novela:

Pergunto-me se eu deveria caminhar à frente do tempo e esboçar logo um final. Acontece porém que eu mesmo ainda não sei bem como esse isto terminará. E também porque entendo que devo caminhar passo a passo de acordo com um prazo determinado por horas: até um bicho lida com o tempo. E esta é também a minha primeira condição: a de caminhar paulatinamente apesar da impaciência que tenho em relação a essa moça. (H.E,16)

O emprego do tempo, a ficção e a não-ficção, bem como o processo de travestimento, de se transfigurar em outrem, ou melhor, de se configurar em um “outro” de outrem, está muito bem sugerida em A hora da estrela. Em diversas ocasiões encontra-se o narrador se incluindo, se assumindo como o “outro”. Nas passagens seguintes tem-se uma possível amostra do que se tem sugerido até o momento:

Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar: eu sou, eu sou, eu sou. Quem era é que não sabia. Fora buscar no próprio profundo e negro âmago de si mesma o sopro de vida que Deus nos dá.(H. E, 84)”. “Ela estava enfim livre de si e de nós” (H. E, 86).

“Nestes últimos três dias, sozinho, sem personagens, despersonalizo-me e tiro-me de mim como quem tira uma roupa. Despersonalizo-me a ponto de adormecer”.(H. E, 70).

Retomando a questão da transfiguração, do travestimento do narrador em personagem e vice-versa; mais uma vez, tem-se a sugestão de que narrador e personagem estão intimamente misturados, tal como denuncia o fragmento que segue:

Para desenhar a moça tenho que me domar e para poder captar sua alma tenho que me alimentar frugalmente de frutas e beber vinho branco gelado pois faz calor neste cubículo onde me tranquei e de onde tenho a veleidade de querer ver o mundo. Também tive que me abster de sexo e de futebol. Sem falar que não entro em contacto com ninguém.Voltarei algum dia à minha vida anterior? (H.E, 23).

É como a pele que aderiu à noz. Findo o espetáculo para Macabéa, metaforizado pelo estrelato: estrela de mil pontas estilhaçada em várias direções, assim finda também para Rodrigo S.M., seu “autor”.

É negada a Macabéa a condição de ser fêmea, os ideais estabelecidos para o feminino, não correspondem às suas proporções. Macabéa é “como um cabelo na sopa não dá vontade de comer”. Por outro lado, Glória encarna os padrões estabelecidos para o feminino. É desejada, representa o que o “outro”, no caso, o masculino deseja: “carnes fartas”. “Pelos quadris adivinhava-se que seria boa parideira”(H.E,60). Diferentemente, se configurava Macabéa, já que tinha ovários murchos, além de não se mostrar feminina. Macabéa incomoda Olímpico com toda sua negatividade, sua não-feminilidade, mas, por outro lado, incomoda-nos ainda mais. E, é , nesse sentido, que a personagem ganha em autonomia; não realiza os desejos de Olímpico – de fêmea nutriz, ou seja, não corresponde aos desejos encarnados para o “feminino,” no caso por Olímpico, nem tampouco a efetivação dessas mesmas possibilidades. A personagem deseja ser desejada, mas tal experiência fica circunscrita à experiência individual da falta, da ausência, ou seja, fica restrita aos sonhos, devaneios da personagem – É só no sonho, que Macabéa, aparentemente, “supre” sua ausência, sua natureza lacunar, já que simbolicamente parece realizar um íntimo e intuitivo desejo de ser mulher, de se configurar em “outro” que não ela mesma.

Como se observa, na própria fala do narrador: Macabéa engravida a si mesma, ao negar-se para o “outro” (Olímpico), nega-se a exteriorizar uma possível feminilidade, constituindo assim numa estranha positividade. Negar-se ao desejo do outro talvez seja o maior mérito desta personagem, toda constituída por lacunas. O valor positivo de Macabéa, talvez seja o da supressão da falta, o da manutenção das lacunas. (Cf. BORGES:1999). Macabéa permanece lacunar, não lhe é permitida a continuidade pela espécie. Por outro lado, tanto Glória quanto Olímpico encarnam papéis de seres “nutrires”, tanto um como o outro possui a capacidade de se perpetuarem pela continuidade da espécie, o que, analogamente, como já se discutiu, é negado a Macabéa. “Olímpico era um diabo premiado e vital e dele nasceriam filhos, ele tinha o precioso sêmen. E como já foi dito ou não dito, Macabéa tinha ovários murchos como um cogumelo cozido”(H.E,58-59).

Quanto às iniciais do narrador, deve-se dizer que elas não são aleatórias nesta novela: “o que, com efeito, importa é o que é dito, não quem o diz: as relações de linguagem e o que subentendem, não o sujeito ocasional que as profere”.(TADIÉ: 1992, 67). Acrescentando J.Yves Tadié comenta que as iniciais constituem em um poderoso factor de despersonalização, de desindividualização, de desrealização.

Poder-se-ia ainda entrever que tal observação vale tanto para as iniciais de personagens, quanto para o narrador, que é o que interessa, neste momento. Rodrigo S.M, não é tão somente um narrador, ele é o narrador sem individualidade exterior; o que conta não é esta exterioridade, mas o que o anonimato vai-lhe permitindo exibir por dentro, o que lhe vai à alma, no pensamento. E, este peculiar anonimato, nos é revelado pela palavra, pela linguagem, pela articulação, pelo arranjo desse discurso dúbio, duplo. Tanto assim o é que, nas diversas caracterizações exteriores de Rodrigo, ele se acha refletido por um espelho e, como toda e qualquer imagem especular, se acha invertida. Rodrigo se encontra em Macabéa, e Macabéa se reflete como um Rodrigo, de aparência “cansada e barbudo”. Nenhum dos dois chega a ter individualidade própria, Macabéa um tantinho mais que Rodrigo, ou seria o inverso? Macabéa, no final da narrativa, morre e ao morrer mata também seu autor, no caso Rodrigo.

Cumpre ressaltar ainda, que o presente anonimato, garantido em parte, pelo jogo com as iniciais do nome do narrador, revela que ele (o anonimato) e a cumplicidade, não são só do narrador/ personagem, mas do leitor/autor; autor/ personagem; leitor/ narrador/ personagem/autor, não importando a ordem dos fatores, mas sua eterna reversibilidade, bem como o desafio de se colocar no lugar do “outro”: (“Se o leitor possui alguma riqueza e vida bem acomodada, sairá de si para ver como é às vezes do outro … Bem sei que é assustador sair de si mesmo, mas tudo o que é novo assusta…” ( H.E, 30).

É sabido que o exercício empreendido pelo narrador, de se manter próximo a Macabéa e, ao mesmo tempo, distante dela, não é nada fácil, tantas vezes sugerido pelo Rodrigo S.M. Se o exercício de se aproximar dela é desgastante, ficar sem ela também é motivo de falta, de necessidade: “Nestes últimos três dias, sozinho, sem personagem, despersonalizo-me e tiro-me de mim como tira uma roupa. Despersonalizo-me a ponto de adormecer”.(H. E, 70). É só se livrando de uma de suas “personas”, de tanta exaustão que Rodrigo consegue descansar e acaba por adormecer um pouco. Entretanto, logo em seguida, na narrativa (três dias, no tempo discorrido ficticiamente pelo narrador), o mesmo (narrador) já sente falta de sua Macabeazinha, e decide, novamente retomar a personalização, o uso da persona.

É preciso lembrar que, no conjunto, a presente narrativa possui uma identidade não andrógina, embora o processo narrativo se revele desse modo, percebe-se, no todo, que há uma voz feminina, ainda que a mesma sirva-se de um narrador duplo como se procurou sugerir até o momento.

Nesse sentido, há uma particularidade discursiva no interior desta obra, uma vez que ela utiliza um expediente um tanto quanto paradoxal – narrador andrógino – mas narrativa, predominantemente, com temática e problemática, de certo modo, voltada para o feminino, ou seja, se faz ouvir uma dicção feminina na presente narrativa. Será que, poder-se-ia vislumbrar, nesta atitude, uma necessidade de se criar uma obra harmônica, um discurso congregando o duplo, a eterna procura da perfeição, da completude de se unir os dois gêneros: tanto o masculino quanto o feminino, em uma única narrativa? Preferiu-se deixar a indagação em aberto, pois, mais que seguir uma resposta, um único caminho, é imprescindível deixá-lo a ser escolhido.

3- CONCLUSÃO

A relação com o “outro” como se procurou tornar possível na presente leitura, não é pautada pela harmonia, mas justamente o inverso, se apresenta conflituosa, dolorosa, fragmentada, multifacetada.

Macabéa representa não somente uma feminilidade negada, como também a não perpetuação da espécie. Sua espécie, diga-se lacunar por essência, se finda, não consegue prosseguir. Se, por um lado, Glória – sua colega de trabalho – representa tão somente o que o “outro” almeja, no caso as aspirações patriarcais de Olímpico, sugerindo assim que o corpo da mesma (Glória) está interdito por apenas satisfazer às estas mesmas aspirações – os desejos masculinos, por outro lado percebe-se que Macabéa permanece neste sentido, neutra: não realiza nem as pretensões patriarcais de Olímpico, nem tampouco a efetivação dessas mesmas possibilidades.

O que se demonstrou com este olhar, entre os vários possíveis para a presente novela, seria a noção de travestimento presente na obra A hora da estrela, ou seja, um narrador andrógino – aparentemente masculino, mas que implicitamente se transfigura em feminino –, seja no modo como concebe a noção de narrador, seja a temática, propriamente feminina, contradições subentendidas na composição da narrativa: seco/úmido (dureza masculina versus a pieguice tida como feminina por excelência).

Resta mencionar que, apesar de se ter uma possível dubiedade narrativa em A hora da estrela, a mesma, como se demonstrou, fica circunscrita apenas à narração, já que, no conjunto, ainda se faz notar uma dicção feminina, seja da temática, seja do modo como a autora articula o discurso e a teia narrativa, sugerindo a eterna busca harmônica; quem sabe agora, possível na narrativa? E passa a congregar, assim, em uma mesma narrativa, ambas vozes, tanto masculina quanto feminina.

4- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKTHIN, Michael. Marxismo e filosofia da linguagem. 7a ed. São Paulo: Hucitec,1995

BORGES, Luciana. Aprendendo o EU: o universo feminino em Clarice Lispector. Dissertação. Universidade Federal de Goiás, Goiânia,1999.

ENGELMANN, Magda S.C. O jogo elocucional feminino.Goiânia: Editora da U.F.G, 1996.

FIORIN, José Luiz. As astúcias da enunciação: as categorias de pessoa, espaço e tempo.. São Paulo Ática,1996. (Ensaios)

GENETTE, Gérard. Introdução ao arquitexto. Lisboa, Veja Universidade, 1998.

GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: Uma vida que se conta. São Paulo, Ática, 3a ed.1995.

HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org) Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro, Rocco, 1.999.

NUNES, Benedito. O tempo na narrativa. São Paulo, Ática, 1998.

SHARPE, Peggy. (org) Entre resistir e identificar-se: para uma teoria da prática da narrativa brasileira de autoria feminina. Florianópolis: Editora Mulheres; Goiânia: Editora da UFG, 1997.

TADIÉ, J.Yves. O romance no século XX. Lisboa, Dom Quixote, 1992.



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