Revista LitCult – Vol.9 - 2. semestre 2015



A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES EM EÇA DE QUEIRÓS, JOSÉ EDUARDO AGUALUSA E J. BARAHONA: TRIANGULAÇÕES LUSÓFONAS – Jaqueline de Oliveira Brandão





A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES EM EÇA DE QUEIRÓS, JOSÉ EDUARDO AGUALUSA E J. BARAHONA: TRIANGULAÇÕES LUSÓFONAS

 

Jaqueline de Oliveira Brandão

Universidade do Estado de São Paulo (UNESP – ASSIS)

 

RESUMO: As conexões históricas e culturais entre Portugal, Brasil e África cada vez se estabelecem mais, e o resultado contribui para a construção de um sentido eminente através da literatura. Na expectativa de cooperar com mais um diálogo possível no âmbito da literatura, faz-se necessário pensar em Eça de Queirós (1845-1900), sobretudo na obra A correspondência de Fradique Mendes (1900), na qual foi instaurado um produtivo intertexto por intermédio da personagem Fradique Mendes. Esta nos leva a refletir sobre a permanência desse escritor nos romances contemporâneos, principalmente aqueles que retomam a personagem Carlos Fradique Mendes. Tal recuperação caracteriza-se pelas relações intertextuais e a possibilidade de transitar na literatura comparada, para asseverar, a partir das obras selecionadas Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes, de José Eduardo Agualusa (1997) e O manuscrito perdido, de José Barahona (2012), a subsequência predominante da personagem principal, Fradique Mendes.

PALAVRAS-CHAVES: Fradique Mendes; Intertextualidade; A correspondência de Fradique Mendes; Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes; O manuscrito perdido.

 

ABSTRACT: The cultural and historical connections between Portugal, Brazil and Africa are increasingly established and literature has an outstanding contribution in this process. In order to contribute to it we propose a possible dialogue with a productive intertextuality through the character Fradique Mendes, by Eça de Queirós (1845-1900), especially in his work A correspondência de Fradique Mendes (1900). It leads us to reflect on the permanence of this writer in contemporary novels, especially those who have recovered Carlos Fradique Mendes as their character. Such recovery is characterized by intertextual relations and the possibility of displacement in the field of Comparative Literature, as we can assert, from the two selected works Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes, by José Eduardo Agualusa (1997) and O manuscrito perdido, by José Barahona (2012), which both employ Queiroz’s protagonist Fradique Mendes.

KEYWORDS: Fradique Mendes; Intertextuality; A correspondência de Fradique Mendes; Nação crioula: A correspondência secreta de Fradique Mendes; O manuscrito perdido.

 

Currículo da autora: Professora contratada na rede estadual paulista de ensino de línguas portuguesa, inglesa e espanhola e aluna de Letras com habilitação em espanhol na Universidade Estadual Paulista – UNESP/Assis. Mestranda em letras na Universidade Estadual Paulista – UNESP-Assis.

A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES EM EÇA DE QUEIRÓS, JOSÉ EDUARDO AGUALUSA E J. BARAHONA: TRIANGULAÇÕES LUSÓFONAS

 

Jaqueline de Oliveira Brandão

Universidade do Estado de São Paulo (UNESP – ASSIS

 

Um escritor que não ensina outros escritores não ensina ninguém (BENJAMIN, 1994, p. 132).

 

Através das obras de Eça de Queirós, em especial A correspondência de Fradique Mendes, a qual este trabalho está voltado, percebemos que ele se incumbe da tarefa de propagar seus ideais a cerca de temas sociais. Sempre preocupado com temas existenciais e principalmente coletivos, ele utiliza-se da personagem Fradique Mendes para transpor suas aspirações e assim difundi-las.

Carlos Fradique Mendes é uma personagem criada no ano de 1868-69 por Jaime Batalha Reis, Antero de Quental e Eça de Queirós. De acordo com Simões, tal conjunto explicou a criação da personagem da seguinte forma: “pensamos em suprir uma das muitas lacunas lamentáveis criando, ao menos, um poeta satânico. Foi assim que apareceu Carlos Fradique Mendes” (SIMÕES, 1978, p. 181) no jornal lisboeta, Revolução de setembro, com alguns poemas satânicos reunidos e denominados Lapidárias.

Sua primeira aparição foi em uma das cartas do romance policial, O mistério da Estrada de Sintra, de autoria conjunta de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão em 1870. Após alguns anos desaparecida, esta personagem é retomada em 1888 por Eça de Queirós, para efetivar seu ideal a partir da veemência em fazer dela uma personagem real e não ficcional. Para tanto, planeja reunir as cartas de Fradique e, a partir delas, revelar as incríveis reflexões do seu (suposto) autor após a sua morte, fazer com Fradique Mendes o que era de costume fazer com as grandes personalidades que haviam morrido: publicar suas cartas particulares. Desta maneira A correspondência de Fradique Mendes foi esboçada.

Primeiramente Carlos Fradique Mendes pode ser visto como uma personagem literária, que ganhou identidade e, posteriormente, foi considerada uma grande personalidade da época, a partir desse ponto de vista foi colocada em prática à intenção de Eça de Queirós de dar propriedade a tal personagem, fazendo com que Fradique Mendes fosse visto como um homem real, no ponto de vista físico, e ideal, em relação às suas infindáveis qualidades: “Assim, a personalidade de Fradique Mendes ganha uma consciência ideológico-cultural que o coloca numa posição diversa da que é própria das personagens dos romances ou dos contos”. Pondera Reis (2005, p. 35), além de Simões:

Carlos Fradique Mendes não é propriamente uma criação novelística, nem tão pouco uma personalidade real: a idealização de um certo conceito de humanidade. (…) Fora um ‘grande homem’ e um grande homem só pode ser retratado maior que o natural (SIMÕES, 1978, p. 185).

 

Ramos (1945) evidencia em seus estudos tal caráter criador e idealizador de Eça de Queirós em relação à sua personagem em que o próprio Eça comunica parte do segredo a um amigo: “Fradique não existe; é uma criatura feita de pedacinhos dos meus amigos. A robustez física, por exemplo, tirei eu do Ramalho” (p. 38). Contudo conclui que “n’A correspondência de Fradique Mendes não estão apenas os seus amigos, está o próprio Eça” (p. 9).

Ao chegarmos a este ponto, também há de se comentar sobre as aproximações entre criador e criatura, ou seja, entre Eça de Queirós e Fradique Mendes. Pois não há como desconsiderar alguns conceitos a respeito da heteronímia de Eça em Fradique, o que nos leva às reflexões feitas por Fradique em suas cartas que correspondem aos ideais de Eça, nos fazendo acreditar que o autor “se escondia por detrás do disfarce ideal do seu herói” (Da Cal, 1969, p. 63), no caso Fradique, há de se notar a presença de Eça, principalmente ideológica, em suas obras, contudo sua compleição em A correspondência de Fradique Mendes é praticamente física, pois ao longo da obra percebemos essa invasão, como pondera Da Cal:

Este ideal inatingível, esta vã tentativa de lograr uma forma “tão dúctil, penetrante, transcendente, que pudesse modelar o invisível e dizer o indizível”, é a meta que Eça se propunha, consciente da sua impossibilidade de alcançá-la. O drama psicológico de sua impotência diante deste ideal está obliqua e dolorosamente expresso na atitude de Fradique, que, desejando criar “uma prosa que ainda não há”, desiste de escrever (DA CAL, 1969, p. 63).

 

As semelhanças ideológicas arraigadas aos valores sociais relacionados à cultura e aos costumes da nação entre Eça e Fradique reflete a trajetória do próprio Eça de Queirós, revelando sua voz no discurso textual e como o objetivo deste era criar um ser que não fosse confundido com uma personagem de ficção, o que realmente ocorre, Fradique ganha personalidade e identidade próprias e assim difunde seus ideais:

Fradique aproxima-se, de facto, do estatuto e da linguagem de heteronímia, tendendo a ser um outro, autônomo em relação a quem o criou e não confundível com uma personagem de ficção; com isso, Fradique assume uma autonomia ideológica que permite dizer dele que possui um pensamento próprio: chamamos precisamente fradiquismo a esse pensamento e podemos entendê-lo como mais um dos ismos que proliferam na nossa cultura e na cultura europeia de fim de século. O facto de este ismo pode ser motivado por um proposito crítico, relativamente a essa prolixidade de movimentos e modas culturais, não lhe retira legitimidade; por outro lado, o fradiquismo pode ser entendido como alternativa ideológica ao pensamento da geração de 70, de que o Eça dos anos 80 se ia distanciando, sem assumir claramente esse distanciamento como ruptura: em certa medida, é ao fradiquismo que cabe cumprir essa função (REIS, 2005, p. 94).

 

Em A correspondência de Fradique Mendes, a personagem principal tem sua existência circunscrita num período marcante, que é durante as décadas finais do século XIX, o que o transforma num personagem finissecular, além de aproximá-lo das tendências dos homens deste período, que se caracteriza por ser arraigado a um sentimento de pessimismo, além do Dandismo, que de certa maneira substitui à boêmia, a qual os criadores da personagem, por volta de 1869, vivam os efeitos.

Hauser (1972) esclarece que em um dandy não é seu exterior marcado pelos trajes elegantes e modos requintados que realmente interessa, mas sim sua “superioridade íntima e a independência, a inobjetividade prática e o desinteresse da vida e da ação”. Para isso utiliza-se das explicações de Baudelaire para evidenciar as singularidades da filosofia do dandismo:

Para Baudelaire, o dandy é a acusação viva de uma democracia estandardizada. Reúne em si todas as virtudes do cavalheirismo ainda hoje possíveis; está sempre a altura de qualquer situação e nada o assombra; nunca é vulgar e conserva sempre o sorriso frio e estoico. O dandismo é a última manifestação do heroísmo numa época de decadência, um acaso, o último feixe de luz radiante do orgulho humano (HAUSER, 1972, p. 1.087).

 

Além disso, Medina (1974) confirma a obsessão por esse sentimento de decadência no país, evidenciando o anseio e preocupação de Eça e outros intelectuais em utilizar-se de tal sentimento de declínio:

A obsessão da decadência nacional, dum progressivo e inelutável declínio de todo o País, complexo de morbos, reações, profecias e desesperos que poderíamos resumir na expressão de miséria portuguesa, atravessa todas as grandes obras literárias da segunda metade do século XIX português (MEDINA, 1974, p. 33).

 

E faz uso das palavras de Antero de Quental, quando este se refere às condições de Portugal, de forma simbólica e metafórica, ao dizer que a nação portuguesa encontra-se doente em tal período:

Portugal é uma nação enferma do pior gênero de enfermidade, o langor, o enfraquecimento gradual, que sem febre, sem delírio, consome tanto mais seguramente quanto se não vê órgão especialmente atacado, nem se atina com o nome da misteriosa doença. A doença existe, todavia. O mundo português agoniza, afetado de atonia, tanto na constituição íntima da sociedade, como no movimento, na circulação da vida política (Antero de Quental, Portugal perante a revolução de Espanha – 1868 (Apud João Medina. Eça político. Lisboa: Seara Nova, 1974, p. 33).  

 

Portanto, Eça de Queirós utiliza-se da personagem Fradique em A correspondência de Fradique Mendes, numa época em que a Europa passava por uma crise, mas a situação de Portugal atingia matizes ainda mais acentuados, pois era o último país da Europa, por seu atraso e ineficácia em todas as instituições, talvez por esse motivo a personagem ganha características físicas, mas principalmente ideológicas conforme o momento histórico vigente, assim como elucida Simões:

Em maio de 1888 já se vislumbravam os primeiros sintomas de uma decadência que, se não atingia a virilidade estilística do grande romancista, pelo menos lhe afetava seriamente o desassombro e a irreverência críticas. Com efeito, por essa altura concebia Eça de Queiros a Correspondência de Fradique Mendes, primeiro passo para a entronização da figura agora, por assim dizer, o avesso da personalidade modelada pelo Cenáculo (SIMÕES, 1945, p. 77).

 

Tal período também culmina com a última fase da vida literária de Eça de Queirós, segundo Miguel Real (2006) em “O último Eça”. É como se Eça revisitasse e revisasse, com intenção de melhorar, toda sua criação literária, para isso passa a alicerçar sua estratégia discursiva em três pontos centrais, basicamente voltados à: revisão subjetiva das impressões psicológicas; revisitação de cada momento e tema e, por fim, se vale do método comparativo.

Deste modo, podemos notar que A correspondência de Fradique Mendes não privilegia apenas a realidade social exterior, como a fase realista de Eça, mas sua realidade interior, adotando principalmente o método comparativo, que conforme Miguel Real é “a comparação entre tempos diversos, entre civilizações diversas e entre fases diversas de uma mesma civilização” (REAL, 2006, p. 133).

Dentre suas características, podemos destacar que Fradique Mendes é uma pessoa totalmente civilizada, elegante, possuidor de grande fortuna e de uma vasta inteligência, por isso sofisticado e intelectual, além de ser extremamente culto e inovador em todos os aspectos, mas principalmente por seus ideais revolucionários pela época.

Por ser um viajante incansável, sempre por onde quer que ele fosse, ou seja, em todo e qualquer país que visitasse, ele se adaptava e era bem recebido, tornava-se parte integrante e atuante, quase nativo dos lugares que visitava, um verdadeiro cosmopolita.

Fradique é perfeito em seus atos, nunca deixa a desejar ou exagera, mas sua tendência ao perfeccionismo não permite que ele publique seus escritos, portanto ele se recusa a demonstrar suas elucubrações, muitas vezes por considerar não ter propriedade para dedicar-se a tão nobre atividade.

Carlos Fradique Mendes não é só um modelo de homem e cidadão para os demais de sua geração, como intencionava seu criador a princípio, mas por ter preocupações de ordem sociais, também se torna um paradigma atemporal pela sua capacidade de percepção crítica, sendo um chamariz para outros escritores quando estes anseiam fazer da arte uma expressão da sociedade, interessados dessa forma, nos problemas existenciais de ordem social.  

Por ser essa personagem tão singular e representar uma provocação à apatia da sociedade, Fradique Mendes mexe com o imaginário de escritores, especialmente por criarem a partir da possibilidade de existir outras cartas, artifício adotado por eles, fazendo com que se apropriem dessa personagem significativa de Eça de Queirós para, assim como ele, criarem obras expressivas e, portanto, eternizar tanto o criador (Eça de Queirós), quanto à criatura (Fradique Mendes).

Deste modo, a construção de obras como Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes e O manuscrito perdido nada mais é do que a (re)apropriação significativa principalmente da personagem, ou seja,  os diálogos existentes entre as três obras literárias possuem a princípio e explicitamente a personagem Fradique Mendes, como eixo de suas produções.  

Como marca característica nas literaturas do século XIX, o intento em reconstruir a identidade nacional, ou pelo menos reafirmá-la faz com que os escritores retomem antigos paradigmas para engendrar e recuperar elementos da cultura contidos pelos fatos históricos recorridos neste período.

Há, portanto, a necessidade de elucidar um dos recursos de que José Eduardo Agualusa e José Barahona se valem, que é a intertextualidade, de tal modo empregada, acaba por revelar a relação existente entre as literaturas portuguesa, angolana e brasileira.

Tais intertextos estabelecidos com a obra A correspondência de Fradique Mendes, nos faz elucidar o conceito de intertextualidade, que conforme Julia Kristeva, a qual aclarou as definições propostas por Mikhail Bakhtin e concluiu que “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é a absorção e transformação de um outro texto” (KRISTEVA, 1974, p. 64).

Kristeva ainda complementa dizendo que o texto literário nunca é uma produção pronta e acabada, mas sempre se refere a outro. Sendo assim é: “um cruzamento de superfícies textuais, um diálogo de diversas escrituras: do escritor, do destinatário (ou da personagem), do contexto cultural atual ou anterior” (KRISTEVA, 1974, p. 62).

Nesta mesma vertente, explica José Luiz Fiorin (1999, p. 29) que “a intertextualidade é o processo de incorporação de um texto em outro, seja para reproduzir o sentido incorporado, seja para transformá-lo”, desse processo resulta a literatura, visto que ela se realiza através de diálogos constantes de textos, ou seja, a literatura contemporânea é o fruto das obras anteriores, portanto a intertextualidade revitaliza a literatura.

Ao entendermos que a intertextualidade é a presença de um texto em outro, percebemos que esse evento ocorrido contribui para o enriquecimento e até mesmo o enobrecimento tanto do hipotexto (texto fonte) quanto do hipertexto (texto derivado), ao estabelecer novas e diferentes interpretações.

Sendo assim, é através da intertextualidade que são elucidados elementos que Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes e O manuscrito perdido evocam de A correspondência de Fradique Mendes, contudo também é necessário demarcar a importância de mais um procedimento crucial para o estudo, que é a literatura comparada, visto que ela trata das interrelações entre duas ou mais literaturas.

Dentre as inúmeras vertentes da Literatura Comparada, aqui será dada ênfase, sobretudo, ao estético, ou seja, aos elementos estruturais das obras analisadas e suas noções históricas, pois como explica Carvalhal:

A literatura comparada permite que ampliem os horizontes do conhecimento estético, (…) leva-nos para o amplo jogo dos discursos e faz-se também leitura do texto na História. Eis a dimensão que a literatura comparada reintroduz nos estudos literários de hoje: a da historicidade contextual (CARVALHAL, 2003, p. 5).

 

Além de ser uma eficiente estratégia de leitura e forma eficaz de investigação ao confrontar textos, a literatura comparada é um recurso que possibilita uma exploração apropriada nos estudos literários, assim como pondera Carvalhal:

Pode-se dizer, então, que a literatura comparada compara não pelo procedimento em si, mas como recurso analítico e interpretativo, a comparação possibilita a esse tipo de estudo literário uma exploração adequada de seus campos de trabalho e o alcance dos objetivos a que se propõe. Em síntese, a comparação mesmo nos estudos comparados, é um meio, não um fim (CARVALHAL, 1992, p. 7).

 

Deste modo, é através dessas duas vertentes que alcançamos uma análise mais significativa e singular a respeito das revisitações da obra de Eça de Queirós A correspondência de Fradique Mendes, principalmente em relação ao personagem principal e outros elementos da narrativa e dos aspectos sociais, que nortearam as produções de José Eduardo Agualusa e José Barahona, fazendo reviver e dialogar a tradição literária, a partir de revisitações de temas, traços culturais e históricos, além de algumas particularidades de estilo.

Dentre muitos elementos em comum nas três obras, o realce primordial está na personagem Fradique Mendes, também há de se destacar outras características que culminam, como por exemplo, a preferencia pelo gênero epistolar, além da temática que demonstra sempre um pensamento voltado às questões sociais.

Através do diálogo entre literatura e história em que as obras são construídas, percebemos esta retomada do passado para recontá-lo a partir de outros vieses, abordando o colonialismo português, a escravidão, o tráfico negreiro, aludidos, em especial, em Nação crioula.

Já em O manuscrito perdido, entramos em contato com o resultado de todo este processo para a formação da sociedade brasileira, que hoje convive com os resquícios deste período, como o que sobrou das aldeias indígenas, o estado lamentável em que os descendentes de escravos africanos se encontram, além da necessidade de se formar um movimento dos trabalhadores rurais sem terra (MST).

Tais relações explícitas de intertextualidade nos põem a par das reconstruções da memória cultural dos espaços percorridos por essa personagem tão significativa, que é Fradique Mendes, a partir destas novas inserções das cartas em espaços angolanos e brasileiros, dá-se um diálogo com a história de vida do imortal Carlos Fradique Mendes e nos permite legitimar o transito intertextual relacionado ao contexto, ao tempo e ao espaço em que se dão os fatos narrados nas três obras.

A correspondência de Fradique Mendes, em relação a sua estrutura, foi dividida em duas partes: a primeira, considerada introdutória, denominada “Memórias e notas” é uma espécie de biografia idealizada, engendrada numa situação narrativa testemunhal, comum de gênero de relato. Ramos pondera a respeito de tal parte do livro:

Ora o livro traz o seguinte subtítulo, muito significativo: Memórias e Notas, que aproxima-nos de um memorialista de ideias, de impressões literárias e de gostos estéticos (…) trata-se agora de fazer principalmente a biografia intelectual de Carlos Fradique Mendes, “verdadeiro grande homem, pensador original, temperamento inclinado às ações fortes, alma requintada e sensível” (RAMOS, 1945, p. 181).

 

A segunda parte é composta pelas cartas particulares escritas por Fradique, ou seja, o que sobrou dele, nas quais ele expõe muitos de seus pensamentos a respeito de fatos da época, os quais ele mostrava suas inquietações diante do esfacelamento da sociedade lusitana causada pelas constantes transformações políticas e sociais, chegando a criticar seu país e tudo o que lhe pertence, ao dizer, logo em sua segunda carta: “Tudo tende a ruína num país de ruínas” (carta a Madame de Jouarre, p. 49), além de tecer considerações sobre religião e literatura, por exemplo.

Agualusa em Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes também evidencia a mestiçagem entre a narrativa ficcional e a narrativa histórica. A obra corresponde ao autêntico gênero epistolar, pois se estrutura apenas por cartas, através das quais conhecemos, além de ideologias de Fradique em relação ao sistema escravocrata, seus ideais a respeito do movimento abolicionista e também se aprofunda numa vertente mais romântica, ao por em destaque a relação amorosa entre o protagonista e a personagem, também expressiva, Ana Olímpia.

Fradique Mendes de Agualusa, agora inserido num novo contexto, faz parte de uma ficcionalização de acontecimentos históricos referentes ao último navio negreiro que zarpou de Angola rumo ao Brasil, de extrema relevância estabelecida pelo diálogo do contexto histórico de Angola, Brasil e Portugal.

Notamos, ainda, que o subtítulo da obra Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes faz referência evidente ao título da obra primeira do autor Eça de Queirós A correspondência de Fradique Mendes, apenas com o acréscimo do adjetivo “secreta” conferindo, desta maneira, um tom de mistério a respeito da vida de Fradique Mendes, que Eça de Queirós não teve acesso, por isso não incluiu em sua obra.

Através da leitura da correspondência que antes era secreta, descobrimos novos pensamentos de Fradique através das cartas remetidas aos seus destinatários, inclusive o próprio Eça de Queirós, transformado, desta forma, em personagem, portanto com essas novas cartas conhecemos um outro lado de Fradique que ainda não nos havia sido apresentado.   

Sendo assim, tanto A correspondência de Fradique Mendes quanto Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes representam a realidade do contexto em que são inseridas e as memórias da personagem principal. Ambas as obras dialogam com a história, já que contextualizam determinados acontecimentos factuais.

Já o livro O manuscrito perdido é uma adaptação do documentário da mesma forma intitulado, que conforme seu criador afirma, foi idealizado a partir das obras de Eça de Queirós e José Eduardo Agualusa. Ao ser transcrito em livro também remete ao romance epistolar por ser uma troca de correspondência entre o cineasta e o escritor angolano, autor de Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes.

José Barahona evidencia a utilização do gênero epistolar e também sua inspiração para a criação do livro a partir da sigla P.S. expressão latina “post scriptum”, que significa depois de escrito, usada comumente em finais de cartas para acrescentar informações não contidas no corpo da carta:

P.S.

Este livro foi adaptado do filme “O Manuscrito Perdido”, que por sua vez foi livremente inspirado nos livros “A correspondência de Fradique Mendes”, escrito por Eça de Queirós, e “Nação crioula, a correspondência secreta de Fradique Mendes”, escrito por José Eduardo Agualusa (BARAHONA, 2012, p. 99).

 

Contudo, a intenção agora é de percorrer o caminho feito no Brasil por Fradique de Eça de Queirós e Agualusa, ou seja, do final do século XIX, porém nos dias de hoje, em busca de um manuscrito perdido, que continha reflexões acerca da origem da sociedade brasileira e questões sociais, como a escravidão e a luta dos índios, entretanto, nessa busca Barahona entra em contato com o resultado desse período anterior e relata para seu destinatário, José Eduardo Agualusa.

Portanto, tais intertextualidades enfatizam a permanência de Eça de Queirós e confirmam a atualidade de sua criação, concretizando, desta forma, sua imortalidade, pois ele se faz presente ao conseguir manter sua obra permanentemente na memória dos leitores e por conservar a personagem Fradique Mendes viva no universo literário.

A presença de Eça de Queirós é constante em seus legatários, por isso este olhar voltado à influência de tal escritor nas obras supracitadas de Agualusa e Barahona, levando em conta a personagem que Eça, Batalha e Antero de Quental criaram transita entre o mundo transato e o contemporâneo, comprovando, deste modo, que a permanência de A correspondência de Fradique Mendes através das revisitações desta obra queirosiana por escritores contemporâneos, ratifica sua perpetuidade.

A correspondência de Fradique Mendes nos permite inferir, ainda, uma nova perspectiva de compreensão das condições sociais do período discutido, mas ao ser intensamente revisitada nos proporciona uma ampliação de elementos fundamentais presentes em obras como Nação crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes e O manuscrito perdido e assim como o legado deste ínterim na atualidade, também porque coloca em evidência as intrincadas relações das obras com a escravidão, a sociedade e outras questões históricas e existenciais relevantes.

Sendo completamente possível legitimar a afirmativa de que Eça de Queirós é uma das expressões maiores na literatura de língua portuguesa, principalmente ao que se referem às suas produções, em especial A correspondência de Fradique Mendes, que podem ser consideradas fontes de estudos, recriações e inspirações para seus sucessores, pois através de suas obras entramos num mundo do qual não nos apetece sair, visto que aproxima nações, recupera o passado e instaura bons caminhos para o futuro, especialmente no campo cultural.

 

NOTAS

 

AGUALUSA, José Eduardo. Nação crioula – a correspondência secreta de Fradique Mendes. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001.

BARAHONA, José. O manuscrito perdido. São Paulo: Tordesilhas, 2012.

BENJAMIN, Walter, Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

BOTOSO, Altamir; DOCA, Heloisa Helou. Estudos de literatura africana contemporânea. Bauru, SP: Canal 6, 2012.

CARVALHAL, Tania Franco. O próprio e o alheio: ensaios de Literatura Comparada. São Leopoldo: Unisinos, 2003.

CARVALHAL, Tania Franco. Literatura Comparada. São Paulo: Ática, 1992.

DA CAL, Ernesto Guerra. Língua e estilo de Eça de Queiroz. Rio de Janeiro: Editora da USP, 1969.

FIORIM, José Luiz. Polifonia textual e discursiva.In: FIORIM, José Luiz; BARROS, Diana Luz Pessoa de. Dialogismo, polifonia e intertextualidade. São Paulo: Edusp, 1999.

GUIMARÃES, Luiz de Oliveira. O espírito e a graça de Eça de Queiroz. Lisboa: João Romano Torres, 1945.

HAUSER, Arnold. História social da literatura e da arte. Trad. Walter H. Geenem. 2a

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KRISTEVA, Julia. A palavra, o diálogo e o romance. In: KRISTEVA, Julia. Introdução à semanálise. Tradução de Lúcia Helena França Ferraz. São Paulo: Perspectiva, 1974.

MACEDO, Tânia; CHAVES, Rita. Literaturas de língua portuguesa: marcos e marcas – Angola. São Paulo: Arte & Ciências, 2007.

MEDINA, João. Eça político (Ensaios sobre aspectos políticos-ideológicos da obra de Eça de Queiroz). Lisboa: Seara Nova, 1974.

QUEIRÓS, Eça. A correspondência de Fradique Mendes. In: Obras de Eça de Queiroz. Lisboa: Lello & Irmão, s. ed. v. 2.

RAMOS, Feliciano. Eça de Queirós e os seus últimos valores. Lisboa: Edição da revista Ocidente, 1945.

REAL, Miguel. O último Eça. Lisboa: Quidnovi, 2006.

REIS, Carlos. O essencial sobre Eça de Queirós. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2005.

SIMÕES, João Gaspar. Eça de Queirós – a obra e o homem. 3ª ed. Lisboa: Arcádia, 1978.

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