Revista Mulheres e Literatura – vol. 2 - 1998



A construção do sujeito em Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres





A construção do sujeito em Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres

Geysa Silva

Universidade Federal de Juiz de Fora

Ler um livro é como um jogo, uma aventura que transforma o leitor. Encontramos
sempre mistério, corremos sempre um risco. É essa a proposta de
Clarice: fazer com que o leitor participe de sua história, entre no jogo,
sinta-se protagonista. O desafio é a construção do sujeito,
ou melhor: Lóri. Loreley, a sereia germânica que seduzia os navegantes
do Reno; a sereia de Campos a quem Ulisses resiste, fechando-se a seus encantos,
até que eles mesmos se tornem encantados.

Por que acompanhamos/vivemos a história de Lóri com tanta emoção
e/ou curiosidade? Talvez porque, para Lóri, tudo está por acontecer.
Nada é rápido, tudo se constrói lentamente, como se a natureza
estivesse acumulando a seiva da vida, mas sem perder o sentido de sua precariedade:

“[…] uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer.
Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para
a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi
a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei
olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde
logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas
é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também.
Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto
tempo for preciso” (Lispector, 1982: 25).

Talvez porque a narrativa concretize o próprio mistério da experiência:
ignoramos o início, desconhecemos o fim. A vírgula originária,
tal como nosso ancestral espermatozóide, não passa de uma continuação
que apenas aumenta o sentido de precariedade, enquanto os dois pontos finais
fazem desse relato algo infinitamente pungente, isto é, acentuam nosso
desconhecimento do fim.

Talvez porque esse livro, tão pequeno, encerra uma história que
foge de suas proporções físicas, desenrolando-se em “longos”
lapsos de tempo, com a grandeza e a severidade de uma narrativa bíblica.
Não por acaso, seu sub-título é o “Livro dos prazeres”,
numa referência aos livros do Velho Testamento.

Talvez porque Lóri e Ulisses sejam pessoas tão comuns. Professora
primária, professor universitário. De suas vidas só temos
poucas indicações, quadros pintados a distância, momentos
já vividos:

“Lóri já havia contado a Ulisses sobre o tempo que, em Campos,
os pais eram ricos e viajaram, demorando-se meses com os filhos num país
ou outro, até que, ao mesmo tempo em que sua mãe morrera, a fortuna
se reduzira a um terço” (Lispector, 1982: 46).

Vidas comuns e, no entanto, que profundidade de sentimentos já viam
escondidos naquela aparência irrelevante! Vidas comuns, mas vividas com
intensidade, com o prazer e dor de seres jogados num mundo, onde a felicidade
é quase sempre uma ficção. Um encontro, um amor, um “caso”.
Tudo muito humano, “demasiado humano”.

Ulisses e Lóri se construindo como sujeitos, enumerando fatos que, de
forma habitual, “atrapalham” o desenvolvimento de um romance (desses
romances que despertam a atenção para a história); as personagens
seguem suas trajetórias, mostrando que a existência é construída
a partir de escolhas, nem sempre conscientes e muitas vezes inconfessáveis.
Clarice valoriza os não-acontecimentos, fatos que nos negamos a realizar,
porém esta negação é nossa maneira de entrar no
mundo.

“E agora era ela quem sentia a vontade de ficar sem Ulisses, durante algum
tempo, para poder aprender sozinha a ser. Já duas semanas se haviam passado
e Lóri sentia às vezes uma saudade tão grande que era como
uma fome. Só passaria quando ela comesse a presença de Ulisses.
Mas às vezes a saudade era tão profunda que a presença,
calculava ela, seria pouco; ela queria absorver Ulisses todo. Essa vontade de
ela ser Ulisses e de Ulisses ser dela para uma unificação inteira
era um dos sentimentos mais urgentes que tivera na vida. Ela se controlava,
não telefonava, feliz em poder sentir” (Lispector, 1982: 133).

O que distingue Lóri de Ulisses? A profissão. Paradoxal, porque
ambos são professores. Ulisses, o sábio, com um orgulho indisfarçável
de sua profissão. Ulisses que aprendeu a disparidade entre as coisas
como realmente são e como parecem ser. Ulisses que aprendeu que não
basta ter a verdade se ela não se transforma em fato.

“Temos sorrido em público do que não sorriríamos
quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura.
Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória
nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade
com que se escapa da peste, Lóri e esperarei até você também
estar mais pronta” (Lispector, 1982: 50).

De outro lado, temos Lóri, a iniciante: todavia sua profissão
(professora primária), sem aprofundamento intelectual, lhe dá
a possibilidade de defrontar-se com os fatos sem a proteção de
qualquer teoria, apenas com os próprios olhos e ouvidos, sua grande vantagem;
não excluir os fatos para facilitar o destino das próprias teorias,
ainda que com isso elas sejam desmentidas. Lóri aceita o desafio proposto
pelo sábio; Lóri, a simples. E Lóri compreende que não
deve excluir os acontecimentos simplesmente porque ultrapassam sua compreensão.
Pensa que a sabedoria, e também seus limites, é descobrir-se a
si mesma.

“Mas também seria por vezes tomada de um êxtase de prazer
puro e legítimo que ela mal podia adivinhar. Aliás já estava
adivinhando porque se sentiu sorrindo e também sentiu uma espécie
de pudor que se tem diante do que é grande demais. Ser-se o que se é
era grande demais e incontrolável. Lóri tinha uma espécie
de receio de ir longe demais. Sempre se retinha um pouco como se retivesse as
rédeas de um cavalo que poderia galopar e levá-la Deus sabe aonde.
Ela se guardava. Por que e para qué? Para o que estava ela se poupando?
Era um certo medo de sua capacidade, pequena ou grande. Talvez se contivesse
por medo de não saber os limites de uma pessoa” (Lispector, 1982:
140).

Lóri vive atormentada por dilemas e defronta-se com encruzilhadas que
a fazem deter-se em seu caminho. Constata, com Ulisses, que os homens são
incapazes de decidir que vida estão a viver. O que pode fazer, então,
a respeito da vida, uma professora primária em crise existencial? No
discurso da personagem está colocada a pergunta de Clarice, pergunta
que ela não pretende responder, por considerar a resposta impossível,
mas para explorar a própria pergunta. Lóri não quer perder-se
na alienação de si mesma, mas também não deseja
naufragar no auto-conhecimento. Sua postura, quase sempre cautelosa, equilibra
com dificuldade um sujeito em construção, pois o espelho, em que
tenta se ver, pode refletir, ameaçadora, a imagem de Ulisses e, em razão
das semelhanças, diluir as diferenças, aquilo que os distingue,
não dos outros, porém um do outro e os torna insubstituíveis.

Clarice narra a construção de um Eu; construção
tão particular que é impossível de ser estudada. E assim
esta construção vira romance.

Sartre dizia que é preciso “apanhar a história pelo rabo”.
E Lóri agarra cada acontecimento, para encadeá-lo em algum sentido.
Age com paciência e com paixão, sabendo que o passado não
é o que aconteceu, mas o relato de alguém sobre o que aconteceu.

“Era cruel o que fazia consigo própria: aproveitar que estava em
carne viva para se conhecer melhor já que a ferida estava aberta. Mas
doía demais mexer-se nesse sentido” (Lispector, 1982: 27).

Lóri teme, indiscriminadamente, a rapidez daqueles que já sabem
o que desejam encontrar, antes do encontro e a alienação dos que
povoam a vida com fantasmas, enquanto a vida mesma vai passando sem que percebam
isso. Para ela, uns e outros deixam a existência de fora, fazem pregação
intelectual ou colocam os simulacros no lugar do concreto.

Enquanto isso o narrador de O livro dos prazeres procura ir mostrando que viver
o amor é coisa muito difícil. Shakespeare nos lembra que “O
verdadeiro amor nunca é suave.” Esta é uma verdade universal
e válida para qualquer momento. O esforço de construção
do sujeito, na vivência da paixão, assola de dor o ser ainda aberto
para os grandes encontros. Lóri, entre sofrimentos e prazeres, tenta
compreender a difícil confluência do afeto com o sensual. Ela não
quer nem a moralidade fácil e culposa, nem o erotismo dos amores inconstantes
e fugidios, ou seja, sujeito à idealização ou sujeito à
banalidade:

“Ela conhecia o mundo dos que estão tão sofridamente à
cata de prazeres e que não sabiam esperar que eles viessem sozinhos.
E era tão trágico: bastava olhar numa boate, à meia luz,
os outros: era a busca do prazer que não vinha sozinha e de si mesmo”
(Lispector, 1980: 82).

A experiência de Lóri é infiltrada de tentação,
em que os impulsos e as defesas se conjugam num encontro anárquico de
revelações súbitas e surpreendem o próprio amor,
colocando-o em questão. Clarice, através de Lóri, desnuda
o medo intolerável da perda, a reencenação de envolvimentos
amorosos anteriores e a decisão de correr riscos. Riscos enfrentados
com ansiedade e enlevo, testemunhos da precariedade dos sentimentos. Tudo isso
contado de maneira inimitável.

“Era um corpo consigo mesma dessa vez. Escura, machucada, cega —
como achar nesse corpo a corpo um diamante diminuto mas que fosse feérico,
tão feérico como imaginava que deveriam ser os prazeres. Mesmo
que não os achasse agora, ela sabia, sua exigência se havia tornado
infatigável. Ia perder ou ganhar? Mas continuaria seu corpo a corpo com
a vida. Nem seria com sua própria vida, mas com a vida. Alguma coisa
se desencadeara nela, enfim. E aí estava ele, o mar” (Lispector,
1982: 82).

Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres é um livro inclassificável
e escapa de qualquer tentativa de comparação. Ao término
da leitura, lembramo-nos de A Náusea e de A Convidada, livros que perseguem
a angústia do nada, a construção do sujeito pela construção
do amor. Mas Uma aprendizagem… é diferente. A narrativa, apesar de
linear, não tem início, meio e fim, porque só tem meio.
Estamos diante de uma história que demanda especial atenção
para a linguagem. Isso porque o verdadeiro protagonista não é
Lóri nem Ulisses: é a linguagem, ou a forma como a autora a usa.
O enredo, bastante simples, resume-se a uma entrega, à concretização
de um caso amoroso. O narrador, porém, acrescenta comentários,
inserindo a si próprio na história. O que menos interessa é
o enredo puro, em meio ao prazer do narrador de utilizar tanto a linguagem elaborada
como a reflexão filosófica:

“Era uma noite muito bonita: parecia com o mundo. O espaço escuro
estava todo estrelado, o céu em eterna muda vigília. E a terra
embaixo com suas montanhas e seus mares.

Lóri estava triste. Não era uma tristeza difícil. Era
mais como uma tristeza de saudade. Ela estava só. Com a eternidade à
sua frente e atrás dela. O humano é só” (Lispector,
1982: 82).

O romance é uma longa tessitura de olhares, de gestos e aproximações,
que culminaram com o encontro de dois seres que vencem o desconhecimento para
celebrar a comunhão. O livro mostra emoções: raciocínio
e paixão, em simbiose. Uma aprendizagem… é, no fundo, a linguagem
falando sobre o Ser e o tempo, tal como Heidegger. Muito se tem discutido as
influências existencialistas na obra de Clarice, todavia não se
pode fugir a essa constatação. Até mesmo as raízes,
cristãs do existencialismo estão aí implícitas,
especialmente a “Carta aos romanos”, capítulo 7, onde o tema
é a morte e a ressurreição. Lóri e Ulisses morrem
de uma certa forma, morrem para um passado que desejam ultrapassar e renascem
na glorificação do amor.

“Talvez por uma necessidade de proteger essa alma nova demais, nele e
nela, foi que ele sem humilhação mas com uma atitude inesperada
de devoção e também pedindo clemência para não
se ferirem nesse primeiro nascimento – talvez por isso tudo é que se
ajoelhou diante dela” (Lispector, 1982: 160).

É sintomática a lembrança do pai que acode à memória
de Lóri. Em seu renascimento, a comparação entre Ulisses
e a figura paterna se torna inevitável. Os fantasmas da infância
tém de ser exorcizados, sem o que nada se produzirá. Lóri
renega o papel de Pietá para ser Lilith, a primeira mulher, aquela que
é igual a Adão, que possui sabedoria e feitiço. Em meio
ao tema do início, Clarice introduz o tema do fim. Sutilmente, coloca-se
o mitologema do “eterno retorno”: nascimento, morte e ressurreição.
Por discutir morte e ressurreição, discutem a questão da
temporalidade.

“Haviam-se passado momentos ou trés mil anos? Momentos pelo relógio
em que se divide o termo, trés mil anos pelo que Lóri sentiu quando
com pesada angústia, toda vestida e pintada, chegou à janela.
Era uma velha de quatro milénios” (Lispector, 1982: 40).

Desse modo, enquanto Hegel vislumbrava o fim da dialética da História
e a entrada final da humanidade no reino eterno do Espírito Absoluto,
Clarice nos lembra que, como Ulisses e Lóri, somos corpos e que a perfeição
seria o reino dos Corpos Unificados; a eternidade seria a maneira de ser de
afetos irreprimidos. Ulisses e Lóri preparam-se para o Sabat da eternidade,
aquela época em que o tempo não mais existirá.

Através da voz do narrador, intimista apesar de estar na terceira pessoa,
o livro acompanha a odisséia às avessas: Um Ulisses que espera,
uma Loreley que realiza a viagem: viagem do conhecimento, sabendo que conhecer
é condenar-se ao sofrimento. Esquecer o que uma vez se soube é
pura ilusão.

“O que acontecia na verdade com Lóri é que, por alguma decisão
tão profunda que os motivos lhe escapavam – ela havia por medo cortado
a dor. Só com Ulisses viera aprender que não se podia cortar a
dor – senão se sofreria o tempo todo” (Lispector, 1982: 41).

Ao contrário dos niilistas que queriam a verdade, mas não puderam
suportar a explosão dessa verdade, Lóri constata e aceita a verdade
da existência. Reconhece que todo prazer que desconsiderar a dor ou ignorá-la,
graças à aparente e passageira plenitude da felicidade, é
necessariamente um prazer falsificado.

Na odisséia de Lóri, não são apenas os papéis
de Ulisses e da sereia que se encontram invertidos. A paródia (no sentido
literal do termo: discurso paralelo) se amplia. Se Ulisses não queria
ser reconhecido, Lóri persegue seu auto-conhecimento. Para isso é
preciso esgotar o sabor do sofrimento (e saber equivale a conhecer e a ter gosto
de) pois, só no decorrer de uma vida rica em emoções, conseguimos
nos diferenciar até a completa caracterização. Se Homero
quer nos fazer esquecer nossa própria realidade, Clarice, ao contrário,
quer nos inserir no mundo de Lóri. Em Homero há uma tranqüila
aceitação da existência humana. O verso 360, da Odisséia
diz-nos: “pois na desgraça os homens logo envelhecem”. Há
apenas uma constatação, os heróis não se insurgem
contra isto. Lóri, por sua vez, nada aceita com passividade. Ela está
à procura de uma única realidade que julga verdadeira.

A história de Lóri, feita de retalhos, tem de ser apreendida
pelo leitor para configurar um signo comum: a construção do sujeito.
Construção que se opera como a dos heróis bíblicos,
pois o discurso alude a algo implícito, que permanece inexprimido. Em
“O Livro de Jó” ou o “Livro dos Reis” Deus dá
suas ordens em discurso direto, entretanto cala seus motivos e sua intenção.
Quando quer provar a fé e confiança de Abraão, diz apenas:
“Toma teu único filho, a quem tanto amas.” Em O livro dos prazeres,
o discurso fragmentado expõe pensamentos e sentimentos de maneira oblíqua,
sugeridas pelo silêncio das interrupções:

“Lóri, eu vou estar tão ocupado que talvez o jeito seja
casarmos para estarmos juntos – Talvez seja melhor. Talvez o melhor seja (…)”
(Lispector, 1982: 170).

Em Lóri, a construção do sujeito assume aspectos do drama
fáustico. Sua paixão pelo conhecimento arrasta-a a um pacto não
verbalizado com Ulisses: o pacto da castidade. Por outro lado, Ulisses mefistofélico
não quer apenas o corpo de Lóri e sim, também a alma. Para
apossar-se da própria alma Lóri precisa desnudar o rosto, arrancar
a máscara. A máscara que simula o prazer e dissimula a dor, que
protege e envergonha, como na cena do táxi, em que é confundida
com uma prostituta.

Na verdade, a festa a que Lóri comparecera era uma alegoria das “mascaradas”
italiana. Lóri percebe isso. Arranca a máscara para ganhar dignidade.
E a dignidade está longe de ser algo dado ou acabada. Ela é uma
conquista de si mesmo e, neste processo, encontra-se prazer e dor, cria-se uma
história para si e a partir de si. Porque não só fazemos
parte da totalidade como podemos conquista o mundo, sem sermos dominados por
ele. A grande lição de O livro dos prazeres é a dignidade
humana.

A travessia de Lóri mostra que a especificidade do ser humano não
é somente o racionalismo, como vira Aristóteles, ou imortalidade,
como prega o cristianismo, mas sua prerrogativa de autocriar-se. A longa espera
reflete a condição humana por excelência. A opção
é um efeito, um resultado; a causa está no poder de chegarmos
até lá. A liberdade é, portanto, um princípio positivo
de ação e o homem tem de usá-la para ir se construindo
como sujeito. Ninguém ou coisa alguma faz com que o homem, por si, seja
bom ou mau. Toda decisão passa pelo poder de escolha, situado no foro
íntimo da consciência individual, que é uma instância
de autonomia. Pico della Mirandola já dizia: “Poderás descer
ao estado de animalidade ou subir à dignificação divina
e isso pelo poder de tua decisão pessoa” (Mirandola, 1988: 6). É
essa decisão que faz Lóri recusar Ulisses, mesmo desejando-o:

“Tudo o que ele dissera – sobretudo o tom com que dissera – era no sentido
de apaziguá-la. E tão forte ela se sentiu através dele
que, refeita e calma, disse-lhe:

— Prefiro ficar ainda algum tempo sozinha, mesmo que seja tão
difícil.

— É um sacrifício para mim também. Mas faça
como quiser, se é disso que você precisa” (Lispector, 1982:
134).

Qual o verdadeiro sentido de Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres? Que
relação existe, substancial, entre aprendizagem e prazer? O que
torna a luta de Lóri tão difícil? Em Lóri, como
em todos nós, o princípio de realidade desencadeia defesas contra
a dor; aferrando-se a esta contingência, Lóri deixa de ser. E só
ao redescobrir o princípio do prazer, adquire a possibilidade de ser.

Referências Bibliográficas

BÍBLIA SAGRADA. Trad. João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro,
Sociedade Bíblica do Brasil, 1971.

FREUD, Sigmund. Mas allá del principio del placer. In: Obras Completas.
Trad. Luiz López – Ballesteros y Torres. Madrid:,Biblioteca Nueva, 1981.

LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Rio de Janeiro,
Nova Fronteira, 1982.

MIRANDOLA, Pico della. A dignidade do homem. Trad. Luiz Feracine. São
Paulo, GRD, 1988.



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