ESCRITORES



A Carne





Autor: Júlio Ribeiro
Título: A Carne
Idiomas: port
Tradutor:
Data: 06/06/2005

A CARNE

 

 

Capítulo I

 

 

Júlio Ribeiro

 

 

O doutor Lopes Matoso não foi precisamente o que se pode chamar de um homem feliz.

Aos dezoito anos de sua vida, quando apenas tinha completado o seu curso de preparatórios, perdeu pai e mãe com poucos meses de intervalo.

Ficou-lhe como tutor um amigo da família, o coronel Barbosa, que o fez continuar com os estudos e formar-se em Direito.

No dia seguinte ao da formatura, o honesto tutor passou-lhe a gerência da avultada fortuna que lhe coubera, dizendo:

-Está rico, menino, está formado, tem um bonito futuro diante de si. Agora é tratar de casar, de ter filhos, de galgar posição. Se eu tivesse filha você já tinha noiva; não tenho, procure-a você mesmo.

Lopes Matoso não gastou muito tempo em procurar: casou-se logo com uma prima de quem sempre gostara, e junto à qual viveu felicíssimo por espaço de dois anos.

Ao começar o terceiro, morreu a esposa, de parto, deixando-lhe uma filhinha.

Lopes Matoso vergou à força do golpe, mas, como homem forte que era, não se deixou abater de vez; reergueu-se e aceitou a nova ordem de coisas que lhe era imposta pela imparcialidade brutal da natureza.

Arranjou de modo seguro seus negócios, mudou-se para uma chácara que possuía perto da cidade, segregou-se dos amigos, e passou a repartir o tempo entre o manusear de bons livros e o cuidar da filha.

Esta, graças às qualidades da ama que lhe foi dada, cresceu sadia e robusta, tornando-se desde logo a vida, a nota alegre do eremitério que se constituíra Lopes Matoso.

Visitas de amigos raras tinha ele, porque mesmo não as acoroçoava: convivência de famílias não linha nenhuma.

Leitura, escrita, gramática, aritmética, álgebra, geometria, geografia, história, francês, espanhol, natação, equitação, ginástica, música, em tudo isso Lopes Matoso exercitou a filha porque em tudo era perito: com ela leu os clássicos portugueses, os autores estrangeiros de melhor nota, e tudo quanto havia de mais seleto na literatura do tempo.

Aos quatorze anos Helena ou Lenita, como a chamavam, era uma rapariga desenvolvida, forte, de caráter formado e instrução acima do vulgar.

Lopes Matoso entendeu que era chegado o tempo de tornar a mudar de vida, e voltou para a cidade.

Lenita teve então ótimos professores de línguas e de ciências; estudou o italiano, o alemão, o inglês, o latim, o grego; fez cursos muito completos de matemáticas, de ciências físicas, e não se conservou estranha às mais complexas ciências sociológicas. Tudo lhe era fácil, nenhum campo parecia fechado a seu vasto talento.

Começou a aparecer, a distinguir-se na sociedade.

E não tinha nada de pretensiosa, bas-bleu: modesta, retraída mesmo, nos bailes, nas reuniões em que não de raro se achava, ela sabia rodear-se de uma como aura de simpatia, escondendo com arte infinita a sua imensa superioridade.

Quando, porém, algum bacharel formado de fresco, algum touriste recém-vindo de Paris, ou de New York queria campar de sábio, queria fazer de oráculo em sua presença, então é que era vê-la. Com uma candura adoravelmente simulada, com um sorriso de desdenhosa bondade, ela enlaçava o pedante em uma rede de perguntas pérfidas, ia-o pouco a pouco estreitando em um círculo de ferro e, por fim, com o ar mais natural do mundo, obrigava-o a contradizer-se, reduzia-o ao mais vergonhoso silêncio.

Os pedidos de casamento sucediam-se: Lopes Matoso consultava a filha.

-É i-los despedindo, meu pai, respondia ela. Escusa que me consulte. Já sabe, eu não me quero casar.

-Mas, filha, olha que mais cedo ou mais tarde é preciso que o faças.

-Algum dia talvez, por enquanto não.

-Sabes que mais? estou quase convencido de que errei e muito na tua educação: dei-te conhecimentos acima da bitola comum e o resultado é ver-te isolada nas alturas a que te levantei. O homem fez-se para a mulher, e a mulher para o homem. O casamento é uma necessidade, já não digo social, mas fisiológica. Não achas, de certo, homem algum digno de ti?

-Não é por isso, é porque ainda não sinto a tal necessidade do casamento. Se eu a sentisse casar-me-ia.

-Mesmo com um homem medíocre?

-De preferência com um homem medíocre. Os grandes homens em geral não são bons maridos. Demais, se os tais senhores grandes homens escolhem quase sempre abaixo de si, por que eu que, na opinião de papai, sou mulher superior, não faria como eles, escolhendo marido que me fosse inferior?

-Sim, para teres uns filhos palermas…

-Os filhos puxariam por mim: a filosofia genésica ensina que a hereditariedade direta do gênio e do talento é mais comum da mãe para o filho.

-E do pai para a filha, não?

-De certo, e por isso é que eu sou o que sou.

-Lisonjeira!

-Lisonjeiro é papai que quer à fina força que eu seja moça-prodígio, e tanto tem feito que até eu já começo a acreditar. Voltando ao assunto, sobre casamento temos conversado, não falemos mais nisso.

E não falaram. Lopes Matoso ia despedindo os pretendentes com grandes afetações de mágoa – que a menina não queria casar, que era uma original, que ele bem a aconselhava, mas que era trabalho baldado, mil coisas enfim que suavizassem a repulsa.

Sempre no mesmo teor de vida chegou Lenita aos vinte e dois anos, quando um dia amanheceu Lopes Matoso a queixar-se de um mal-estar indescritível, de uma opressão fortíssima no peito. Sobreveio um acesso de tosse, e ele morreu de repente sem haver tempo de chamar um médico, sem coisa nenhuma. Matara-o uma congestão pulmonar.

Lenita quase enlouqueceu de dor: o imprevisto do sucesso, o vácuo súbito e terrível que se fez em torno dela, a superioridade e cultura do seu espírito que refugia a consolações banais, tudo contribuía para acendrar-lhe o sofrimento.

Dias e dias passou a infeliz moça sem sair do quarto, recusando-se a receber visitas, tomando inconscientemente, a instancias dos famulos, algum ligeiro alimento.

Por fim reagiu contra a dor: pálida, muito pálida nas suas roupas de luto, ela apareceu aos amigos do pai, recebeu os pêsames fastidiosos do estilo, procurou por todos os meios afazer-se à vida solitária que se lhe abria, vida tristíssima, erma de afetos, povoada de lembranças dolorosas. Tratou de dar direção conveniente aos negócios da casa, e escreveu ao coronel Barbosa, avisando-o de que se retirava temporariamente para a fazenda dele.

Os negócios da casa nenhuma dificuldade ofereciam: a fortuna de Lopes Matoso estava quase toda em apólices e ações de estradas de ferro. Sendo Lenita, como era, filha única, não havia inventário, não havia delonga alguma judicial.

A resposta do coronel Barbosa não se fez esperar – que fosse, que fosse quanto antes; que sua velha esposa entrevada folgara doidamente com a notícia de ir ter junto de si uma moça, uma companheira nova; que com eles só morava um filho único, homem já maduro, casado, mas desde muito separado da mulher, caçador, esquisitão, metido consigo e com os seus livros; enfim que se não demorasse com aprontações, que atabulasse, e que marcasse o dia para ele a ir buscar.

Uma semana depois estava Lenita instalada na fazenda do velho tutor de seu pai: tinha levado consigo o seu piano, alguns bronzes artísticos, alguns bibelotscuriosos e muitos livros.

 

 

Capítulo II

 

 

Pior do que na cidade, horrível foi a princípio o isolamento de Lenita na fazenda.

A velha octogenária, além de entrevada, era muito surda. O coronel Barbosa, pouco mais moço do que a mulher, sofria de reumatismo, e, às vezes, passava dias e dias metido na cama. O filho, o divorciado, estava caçando havia meses no Paranapanema.

O trabalho da fazenda era dirigido por um administrador caboclo, homem afável, mas ignorantíssimo sobretudo o que não dizia com a lavoura.

Lenita comia quase sempre só na vastíssima varanda; depois de almoçar ou de jantar ia conversar com o coronel, e fazia esforços incríveis para conseguir fazer-se ouvir da velha que, resignada e risonha, aumentava com a mão trêmula a concha de orelha para apanhar as palavras.

Tal entretenimento cansava a moça, e ela recolhia-se logo aos seus cômodos para ler, para procurar distrair-se.

Tomava um livro, deixava; tomava outro, deixava; era impossível a leitura.

Apertava-lhe, constringia-lhe o animo a lembrança do pai. E tudo lho fazia lembrar – uma passagem marcada a unha em um livro, uma folha dobrada em outro.

Saía, ia de novo conversar, tornava a voltar, tornava a sair, era um inferno.

A mulher do administrador, carinhosa já por índole, recebera do patrão recomendações especiais a respeito de Lenita.

A todo o momento eram copos de leite quente, copos de garapa, café, doces, frutas.

Lenita ora recusava, ora aceitava uma ou outra coisa, indiferentemente, só por comprazer à boa mulher.

O coronel Barbosa dera a Lenita uma sala independente, um quarto amplo com duas janelas, e uma alcova; pusera-lhe às ordens, para seu serviço especial, uma mulatinha esperta, de alta trunfa e cor deslavada, e também um molecote acaboclado, risonho, de dentes muito brancos.

Lenita, por vezes, passava horas e horas à janela, contemplando as dependências da fazenda.

Estava esta a meia encosta de um outeiro a cuja fralda corria um ribeirão. Em frente estendia-se o grande pasto. A monotonia de verdura clara era quebrada aqui e ali pelo sombrio da folhagem basta de alguns paus-d’alho deixados propositalmente para sombra, e pelo amarelo sujo das reboleiras de sapé. Ao fundo, de um lado, em corte brusco, a mata virgem, escura, acentuada, maciça quase, confundindo em um só tom mil cores diversíssimas; de outro em colinas suaves, o verde-claro alegre e uniforme dos canaviais agitados sempre pelo vento; mais além, os cafezais alinhados, regulares, contínuos, como um tapete crespo, verde-negro, estendido pelo dorso da morraria. Em um ou outro ponto, a terra roxa de pedra-de-ferro, desnudada, punha uma nota estrídula de vermelho-escuro, de sangue coagulado.

E sobre tudo isso, azul, diáfano, puro, cetinoso, recurvava-se o céu em uma festa de luz branca, vivificante, mordente…

Quando se embruscava o tempo a paisagem mudava: o céu pardacento, carregado de nuvens plúmbeas, como que se abaixava, como que queria afogar a terra. O revestimento verde perdia o brilho, empanava-se, amortecia em um desfalecimento úmido.

Lenita deu em sair, em passear pelas cercanias, ora a pé, acompanhada pela mulata, ora a cavalo, seguida pelo rapazinho.

Mas o exercício, a pureza do ar, a liberdade do viver da roça, nada lhe aproveitou.

Uma languidez crescente, um esgotamento de forças, uma prostração quase completa ia-se apoderando de todo o seu ser: não lia, o piano conservava-se mudo.

Com a morte do pai, parecia ter-se-lhe transformado a natureza: já não era forte, já não era viril como em outros tempos. Tinha medo de ficar só, tinha terrores súbitos.

Ia para o quarto da entrevada, recostava-se em uma cadeira preguiçosa, e aí se deixava ficar quieta horas e horas, mal respondendo às perguntas solícitas do coronel…

Quando voltava para os seus aposentos, tomada em caminho por um pavor inexplicável, agarrava-se trêmula à mulata.

Não podia comer, tinha um fastio desolador, cortado por desejos violentos de coisas salgadas, de coisas extravagantes.

Sobrevieram-lhe salivações constantes, vômitos biliosos quase incoercíveis.

Uma manhã não se pôde levantar.

Acudiram apressados o coronel e a mulher do administrador; abeiraram-se do leito, instando com a enferma para que tomasse um chá de erva-cidreira, um remédio qualquer caseiro, enquanto não vinha o médico que se tinha mandado chamar a toda a pressa.

Quando este chegou estava Lenita abatidíssima: emaciada, lívida, com os olhos afundados em uma auréola cor de bistre, comprimia o peito, estertorava sufocada. Uma como bola subia-lhe do estômago, chegava-lhe à garganta, estrangulava-a. No alto da cabeça, um pouco para a esquerda, tinha uma dor circunscrita, fixa, lancinante, atroz: era como se um prego aí estivesse cravado.

E seu sistema nervoso estava irritadíssimo: o mais ligeiro ruído, o jogo de luz produzido pelo abrir da porta arrancava-lhe gritos.

O doutor Guimarães, médico já velho, de fisionomia inteligente e bondosa, aproximou-se da cama, examinou a enferma detidamente, em silêncio, sem tomar-lhe o pulso, sem incomodá-la na mínima coisa, baixando-se muito, com as mãos cruzadas nas costas, para ouvir-lhe a respiração, para escutar-lhe os gemidos, para atentar-lhe nas contrações da face.

-Quando começou isto, coronel? perguntou.

-Doente tem ela estado desde que aqui chegou, mas assim, ruim, é só hoje.

-Sufoco! acudam-me! gritou de repente Lenita e, revolvendo-se, escoucinhando, dilacerava a camisa com as mãos ambas, arranhava o peito. Um rubor súbito, vivíssimo, colorira-lhe o rosto, brilhavam-lhe os olhos de modo insólito.

-Sei o que isto é, disse o médico; tenho pela frente um conhecido velho, não me dá cuidado, volto já.

E saiu.

Poucos minutos depois reapareceu, trazendo uma seringuinha de Pravaz.

-Dê-me o braço, minha senhora; vou fazer-lhe uma injeção, e verá como daqui a pouco nada mais há de sentir.

Lenita estendeu a custo o braço nu, e o doutor, tomando-o, pôs-se a beliscá-lo morosamente, demoradamente, em um lugar só, na altura do bíceps; depois segurando a parte malaxada entre o dedo índice e o polegar da mão esquerda, com a direita fez penetrar por baixo da pele a agulha do instrumento e, calcando no cabo do pistão, injetou todo o conteúdo do tubo de vidro.

Lenita, apesar de seu estado de irritabilidade nervosa, nem pareceu sentir.

O efeito foi pronto. Dentro de pouco tempo as faces descoraram, cessaram as crispações nervosas dos membros, ceifaram-se os olhos, e um suspiro de alívio intumesceu-lhe o peito.

Adormeceu.

-Deixemo-la assim, disse o médico, deixemo-la dormir, quando acordar estará boa. Todavia vou receitar: não dispenso para estes casos o meu brumureto de potássio.

E saíram nos bicos dos pés. Junto de Lenita ficou a mulher do administrador.

 

 

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Fonte: RIBEIRO, Júlio. A carne. São Paulo: Editora Três, 1972. p. 23-30.



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