ESCRITORES



GRANDE SERTÃO: VEREDAS





Autor: João Guimarães Rosa
Título: Grande Sertão: Veredas, Grande Sertão
Idiomas: port, ita
Tradutor: Edoardo Bizzarri(ita)
Data: 28/12/2004

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

I

João Guimarães Rosa

– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu -; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas… Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda parte.

Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só: o Que-Diga. Vote! não… Quem muito se evita, se convive. Sentença num Aristides – o que existe no buritizal primeiro desta minha mão direita, chamado a Vereda-da-Vaca-Mansa-de-Santa-Rita – todo o mundo crê: ele não pode passar em três lugares, designados: porque então a gente escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha que avisando: – “Eu já vou! Eu já vou!…” – que é o capiroto, o que-diga… E um Jisé Simplício – quem qualquer daqui jura ele tem um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa; razão que o Simplício se empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem também que a besta pra ele rupêia, nega de banda, não deixando, quando ele quer amontar… Superstição. Jisé Simplício e Aristides, mesmo estão se engordando, de assim não-ouvir ou ouvir. Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época, tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem, no Andrequicé. Um Moço de fora, teria aparecido, e lá se louvou que, para aqui vir – normal, a cavalo, dum dia-e-meio – ele era capaz que só com uns vinte minutos bastava… porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras! Ou, também, quem sabe – sem ofensas – não terá sido, por um exemplo, até mesmo o senhor quem se anunciou assim, quando passou por lá, por prazido divertimento engraçado? Há-de, não me dê crime, sei que não foi. E mal eu não quis. Só que uma pergunta, em hora, às vezes, clareia razão de paz. Mas, o senhor entenda: o tal moço, se há, quis mangar. Pois, hem, que, despontar o Rio pelas nascentes, será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses… Então? Que-diga? Doidera. A fantasiação. E, o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma, com as presenças!

Não seja. Eu, pessoalmente, quase que já perdi nele a crença, mercês a Deus; é o que ao senhor lhe digo, à puridade. Sei que é bem estabelecido, que grassa nos Santos-Evangelhos. Em ocasião, conversei com um rapaz seminarista, muito condizente, conferindo no livro de rezas e revestido de paramenta, com uma vara de maria-preta na mão – proseou que ia adjutorar o padre, para extraírem o Cujo, do corpo vivo de uma velha, na Cachoeira-dos-Bois, ele ia com o vigário do Campo-Redondo… Me concebo. O senhor não é como eu? Não acreditei patavim. Compadre meu Quelemém descreve que o que releva efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes – dão encosto. Compadre meu Quelemém é quem muito me consola – Quelemém de Góis. Mas ele tem de morar longe daqui, na Jujujã, Vereda do Buriti Pardo… Arres, me deixe lá, que – em endemoninhamento ou com encosto – o senhor mesmo deverá de ter conhecido diversos, homens, mulheres. Pois não sim? Por mim, tantos vi, que aprendi. Rincha-Mãe, Sangue-d’Ouro, o Muitos-Beiços, o Rasga-em-Baixo, Faca-Fria, o Fancho-Bode, um Treciziano, o Azinhavre… o Hermógenes… Deles, punhadão. Se eu pudesse esquecer tantos nomes… Não sou amansador de cavalos! E, mesmo, quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio. Será não? Será?

De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso…

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa importância. Tomara não fosse… Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela – já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar… Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: “menino – trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento… Estrumes… O diabo na rua no meio do redemunho…

Hem? Hem? Ah. Figuração minha, de pior pra trás, as certas lembranças. Mal haja-me! Sofro pena de contar não… Melhor, se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca-doce pode de repente virar azangada – motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. E que isso é? Eh, o senhor já viu, por ver, a feiúra de ódio franzido, carantonho, nas faces duma cobra cascavel? Observou o porco gordo, cada dia mais feliz bruto, capaz de, pudesse, roncar e engolir por sua suja comodidade o mundo todo? E gavião, corvo, alguns, as feições deles já representam a precisão de talhar para adiante, rasgar e estraçalhar a bico, parece uma quicé muito afiada por ruim desejo. Tudo. Tem até tortas raças de pedras, horrorosas, venenosas – que estragam mortal a água, se estão jazendo em fundo de poço; o diabo dentro delas dorme: são o demo. Se sabe? E o demo – que é só assim o significado dum azougue maligno – tem ordem de seguir o caminho dele, tem licença para campear?! Arre, ele está misturado em tudo.

Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – compadre meu Quelemém diz. Família. Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é… Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois – e Deus, junto. Vi muitas nuvens.

Mas, em verdade, filho, também, abranda. Olhe: um chamado Aleixo, residente a légua do Passo do Pubo, no da-Areia, era o homem de maiores ruindades calmas que já se viu. Me agradou que perto da casa dele tinha um açudinho, entre as palmeiras, com traíras, pra-almas de enormes, desenormes, ao real, que receberam fama; o Aleixo dava de comer a elas, em horas justas, elas se acostumaram a se assim das locas, para papar, semelhavam ser peixes ensinados. Um dia, só por graça rústica, ele matou um velhinho que por lá passou, desvalido rogando esmola. O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta… Eh, pois, empós, o resto o senhor prove: vem o pão, vem a mão, vem o são, vem o cão. Esse Aleixo era homem afamilhado, tinha filhos pequenos; aqueles eram o amor dele, todo, despropósito. Dê bem, que não nem um ano estava passado, de se matar o velhinho pobre, e os meninos do Aleixo aí adoeceram. Andaço de sarampão, se disse, mas complicado; eles nunca saravam. Quando, então, sararam. Mas os olhos deles vermelhavam altos, numa inflama de sapiranga à rebelde; e susseguinte – o que não sei é se foram todos duma vez, ou um logo e logo outro e outro – eles restaram cegos. Cegos, sem remissão dum favinho de luz dessa nossa! O senhor imagine: uma escadinha – três meninos e uma menina – todos cegados. Sem remediável. O Aleixo não perdeu o juízo; mas mudou: ah, demudou completo – agora vive da banda de Deus, suando para ser bom e caridoso em todas suas horas da noite e do dia. Parece até que ficou o feliz, que antes não era. Ele mesmo diz que foi um homem de sorte porque Deus quis ter pena dele, transformar para lá o rumo de sua alma. Isso eu ouvi, e me deu raiva. Razão das crianças. Se sendo castigo, que culpa das hajas do Aleixo aqueles meninozinhos tinham?!

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Fonte: Rosa, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 17ª.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. Cap. 1. p. 7-12.

 

GRANDE SERTÃO: ROMANZO.

I

João Guimarães Rosa

“Nonnulla. I colpi che vossignoria ha sentido non erano di rissa di uomini, no, Dio ne guardi. Ho sparato contro un albero, dietro la casa, dalla parte del torrente. Per esercizio. Lo faccio tutti i giorni, mi piace; fin da quando ero appena un ragazzo. E lí, sono venuti a chiamarmi. Per via di un vitello: un vitello bianco, erratico, gli occhi che manco un cristiano – che era apparso; e con faccia di cane. Cosi m’hanno detto; io non l’ho voluto vedere. E poi, con le labbra rovesciate in fuori, per difetto di nascita, quello sembrava ridere come una persona. Faccia di gente, faccia di cane: decisero – era il demonio. Popolo ignorante. L’hanno ammazzato. Il padrone non so neppure chi fosse. Erano venuti a chiedermi in prestito le armi, le ho date. Non sono superstizioso. Vossignoria ha ragione di ridere… Veda: quando è sparatoria vera, per prima cosa i cani si mettono ad abbaiare, immediatamente – allora, poi, si va a vedere se ci sono scappati dei morti. Vossignoria deve compatire, questo è il sertão. C’è chi dice di no: il vero sertão, dicono quelli, è piú avanti addentro nei Campos Gerais, fine di strade, terre alte, oltre l”Urucuia. Sciocchezze. E quelli di Corinto e di Curvelo, allora, non chiamano forse sertão questi posti qui? Ah, è maggiore! Il luogo sertão si riconosce: è dove i pascoli mancano di steccati; dove uno può andare dieci, quindici leghe, senza trovare una casa abitata; e dove il criminale vive a suo piacere, lontano dalle strette delle autorità. L’Urucuia viene dalle montagne di ponente. Ma, oggi, lungo il suo corso, c’è di tutto – signore fazende, pascoli di sponde fertili, tratti di greto coltivati, piantagioni che vanno da una macchia all’altra, foreste enormi, addirittura di vergini ce ne sono ancora, là. I Gerais corrono tutto all’intorno. Questi Gerais non hanno misura. Infine, ognuno trova buono quel che piú gli fa comodo, vossignoria lo sa: cioce o scarponi, è questione di opinioni… Il sertão è in ogni parte.

Del demonio? Non dico nulla. Vossignoria domandi qui agli abitanti. Per sciocca cautela, non ne pronunciano il nome – dicono soltanto: il Lo-dica-chi-vuole. Puah! non… Chi molto si evita, ci sta sempre addosso. A quello che si racconta di un certo Aristide – quel tale che abita nel primo palmeto di buritís alla mia mano destra, chiamato Vereda-della-Vacca-Mansa-di-Santa-Rita – ci credono tutti: lui non poù passare in tre posti, designati: perché allora si sente un pianterello, dietro a lui, e una vocetta che avvisa: “Vengo anch’io! Vengo anch’io!…” ed è l’incappucciato, il Lo-dica-chi-vuole… E un certo Peppe Simplicio – di cui qualsiasi persona di qui giura che lui si tiene un diavolo in casa, un piccolo satanassino, prigioniero, costretto ad aiutarlo in ogni traffico in cui lui si mette; ragion per cui Simplicio si trova ben avviato sulla strada della ricchezza. Basta, per questo dicono anche che la cavalcatura davanti a lui rizza il pelo, scarta di lato, non lo lascia montare, quando lui vorrebbe… Superstizione. Peppe Simplicio e Aristide, con queste storie, che sentono e non sentono, ci si stanno addirittura ingrassando. Considere ancora vossignoria: proprio adesso, in questi giorni, c’è chi racconta che il Diavolo in persona s’è fermato, di passagio, ad Andrequicé. Un Giovane forestiero, sarebbe apparso, e lí si vantò che, per venire qui – roba, normale, a cavallo, di un giorno e mezzo – lui era capace di farcela in appena un venti minuti… perché avrebbe costeggiato il Rio di San Francisco girando per le sorgenti. O, anche, chi sa – senza offesa – se non è stato, per esempio, addirittura vossignoria ad annunciarsi cosí, quando è passato di là, tanto per il gusto di spassarsela? No, no, non me ne faccia colpa, so bene che lei non è stato. E non l’ho detto per male. Solo che una domanda, al momento giusto, a volte, chiarisce la ragione e ci dà pace. Ma, vossignoria comprenda: quel tal giovane, seppure esiste, ha voluto ridere alle spalle degli altri. Perché, eh, fare il giro del Rio per le sorgenti, è la stessa cosa che andare avanti e indietro per l’interno di questo nostro Stato, viaggio che ci vogliono almeno un tre mesi… E allora? Lo-dica-chi-vuole? Vaneggiamento. Una fantasticheria. E, la precauzione di dargli cosí quei nomi di copertura, è proprio un chiedere a tutti i costi che quello formi forma, con tanto di presenza!

Non sia mai. Io, personalmente, a lui non ci credo quasi più, grazie a Dio: è quanto dico a vossignoria, con tutto candore. So che è ben consolidato, che si estende per i Santi-Vangeli. Una volta, ebbi occasione di parlarne con un giovane seminarista, molto a posto, che consultava il libro delle preghiere e indossava i paramenti, e aveva una verga di mariapreta in mano – mi disse che andava ad aiutare il prete, a estirpare il Detto, dal corpo vivo di una vecchia, a Salto-dei-Buoi, andava col parroco di Campo-Redondo… Si figuri. Vossignoria non è come me? Non ci credetti per niente. Il mio compare Clemente spiega che quel che si manifesta in effeti sono gli spiriti bassi disincarnati, di terza categoria, che sbaraondano nelle peggiori tenebre, con una gran voglia di appiccicarsi ai vivi – per appoggio. Il mio compare Clemente è che mi dà molto conforto – Clemente do Gois. Ma lui purtroppo abita lontano da qui, a Gigiugian, Vereda del Burití Scuro… Basta, lasciamo stare che – in indemoniamento o con appoggio – anche vossignoria deve averne conosciuti diversi, uomini, donne. Non è cosí? Quanto a me, tanti ne ho visti, che ho imparato. Il Ghignone, Sangue-d’Altro, il Labbruto, Squarcia-in-Basso, Lama-Fredda, il Godi-Chiappe, un Treciziano, il Rugginoso… l’Ermogene… Di quelli, un mucchio. Se potessi dimenticare tanti nomi… Non sono domatore di cavalli! E poi, se uno si mette a fare la vita del jagunço, è già per qualche entrante competenza del demonio. Non è cosí? No?

In principio, io facevo e mi agitavo, ma quanto a pensare, non pensavo. Me ne mancavano i tempi. Ho vissuto estraendo il difficile dal difficile, pesce vivo sulla graticola: chi macina nel duro, non può fantasticare. Ma, adesso, fattomi quest’ozio, e senza piccole inquietudini, me ne sto a pancia all’aria. E mi sono creato questo gusto, di speculare idee. Il diavolo esiste o non esiste? Me lo domando. Salvognuno. Queste malinconie. Vossignoria vede: esiste la cascata d’acqua; e allora? Ma la cascata è terreno scosceso, e acqua che viene giú, precipitando; vossignoria consuma quell’acqua, o spiana quel terreno, ci rimane forse la cascata? Vivere è una faccenda molto pericolosa…

Mi spiego: il diavolo vige dentro l’uomo, nelle increspature dell’uomo – o è l’uomo rovinato, o l’uomo degli occulti. Sciolto, di per sé, libero cittadino, è che non esiste diavolo nessuno. Nessuno! – è quel che dico. Vossignoria concorda? Mi dichiari tutto, con franchezza – è grazia grande che mi fa: e chiedere posso, con molto calore. Questo caso – per stravaganti che io possa sembrare – è di particolare interesse per me. Magari non fosse… Ma, non mi dica che vossignoria, cosí assenato e istruito, crede nella persona di quello?! No? La ringrazio. La sua alta opinione mi dà forza. Già la sapevo, me l’aspettavo – con certezza! Ah, la gente, nella vecchiaia, ha bisogno di avere la sua brezza di riposo. La ringrazio. Non c’è diavolo nessuno. Neppure spirito. Non l’ho mai visto. Se qualcuno doveva vederlo, ero proprio io, questo suo servo. Se le raccontassi… Bene, il diavolo regola il suo nero essere, nelle creature, nelle donne, negli uomini. Perfino: nei bambini – dico io. Non c’è forse il detto: “ragazzino – roba del diavolo?” E negli usi, nelle piante, nelle acque, nella terra, nel vento… Sterco… Il diavolo per la via, in mezzo al vortice…

Eh? Eh? Ah. Immaginazione mia, dal peggio all’indietro, i ricordi certi. Accidenti a me! Reccontare non mi fa male… Anzi, presti attenzione: ebbene, in uno stesso terreno, e con lo stesso formato di rami e di foglie, non cresce la manioca buona, che si mangia comunemente, e la manioca selvatica, che uccide? Ora, vossignoria ha già visto questa stranezza? La manioca dolce può all’improvviso diventare arrabbiata – per quale motivo, non so; a volte si dice che è perché ripiantata sempre nello stesso terreno, con talee continuate – si va facendo amara, di tanto in tanto, si avvelena da sé. E, ora, veda: l’altra, la manioca selvatica, anche quella, può a volte divenire buona, chi sa perché, da poterla mangiare senza alcun male. E questo che è? Eh, vossignoria ha già visto, per caso, la bruttezza di odio increspato, grintuto, sul muso di un serpente a sonagli? Ha osservato il maiale grasso, bruto felice ogni giorno di piú, capace, potesse, di sgrufolarsi e di trangugiare per la sua porca comodità il mondo tutto? E falchi, corvi, in alcuni l’aspetto già rappresenta il bisogno di tagliare avanti a loro, di squarciare e fare a pezzi a colpi di becco, sembrano forbici bene affilate da un desiderio malvagio. Tutto. Ci sono perfino razze di pietre sbagliate, orribili, velenose – che inquinano di morte l’acqua, se giacciono in fondo a un pozzo; il diavolo dorme dentro di esse; sono il demonio. Si sa? E il demonio – che è solo cosí il significato di un’intelligenza maligna – ha l’ordine di seguirne il cammino, ha licenza di battere la campagna?! Basta, lui sta mescolato in tutte le cose.

Quel che consuma, che va consumando il diavolo, dentro la gente, a poco a poco, è il ragionevole soffrire. E l’allegria d’amore – dice il mio compare Clemente. La famiglia. Davvero? Sí, e no. Vossignoria può essere d’accordo e può non esserlo. Tutto è e non è. Ogni puí grave criminale feroce, quasi sempre è buon marito, buon figlio, buon padre, ed è buon amico-dei-suoi-amici! Ne conosco. Solo che hanno i dopo – e Dio, insieme. Ho visto molte nuvole.

Ma, a dire il vero, i figli, anche addolciscono. Guardi: un tale chiamato Alessio, residente a una lega dal Passo del Pubo, sul Torrente della Sabbia, era uomo delle maggiori cattiverie a freddo che mai si fosse visto. C’era, vicino alla sua casa, una piacevole piccola pescaia, tra le palme, con trairas, grandi fuori del comune, stragrandi, di fatto, che divennero famose; Alessio dava loro da mangiare, all’ora giusta, e quelle si erano abituate a venir fuori dai nascondigli, per mangiare, sembravano pesci ammaestrati. Un giorno, cosí solo per scherzo grossolano, ammazzò un vecchietto che passava di là, mezzo invalido e chiedeva l’elemosina. Vossignoria stia pur certo – c’è gente, in questo mondo noioso, che ammazza solo per vedere un altro fare una smorfia… Eh, dunque, poi, il resto vossignoria comprovi: viene il pan, vien la man, viene il san, viene il can. Quel tale Alessio aveva famiglia, con figli piccoli; e quelli erano il suo amore, tutto, uno sproposito. Presti bene attenzione, manco era passato un anno, dall’ammazzare quel vecchietto povero, e i bambini di Alessio s’ammalarono. Epidemia di morbillo, si disse, ma complicato; non guarivano mai. Poi, finalmente, guarirono. Ma i loro occhi divennero rossi rossi, in un’infiammazione di blefarite ribelle; e successivamente – quel che non so è se accadde a tutti insieme, o prima all’uno e poi all’altro – quelli rimasero ciechi. Ciechi senza il condono di un tantinello cosí di questa nostra luce! Immagini vossignoria: una scaletta – tre bambini e una bambina – tutti accecati. Senza rimedio possibile. Alessio non perse il senno; ma cambiò: ah, cambiò per completo – adesso vive dalla parte di Dio, sudando per essere buono e caritatevole a tutte le ore della notte e del giorno. Sembra addirittura che sia diventato felice, quel che prima non era. Lui stesso dice di essere stato un uomo fortunato, perché Dio ha voluto aver compassione di lui, e mutare la rotta della sua anima. Quando ho inteso questo, mi è venuta rabbia. Per via dei bambini. Se si trattava di castigar lui, che colpa delle malefatte di Alessio avevano quelle creaturine?

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Fonte: Rosa, João Guimarães. Grande sertão: romanzo. Tradotto da Edoardo Bizzarri. Firenze: Giangiacomo Feltrinelli Editore, 1970. Cap. 1. p. 9-13.



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