Publicado em 19/09/2019 - 16:02 e atualizado em

Entrevista com Adriano de Paula Rabelo




Senso incomum nos tempos líquidos

 

Entrevista com Adriano de Paula Rabelo

 

Acaba de ser publicado, pela editora Aglaia, de São Paulo, o livro Ouriço: senso incomum, do escritor mineiro Adriano de Paula Rabelo. A obra é composta por uma coletânea de frases sobre os grandes temas da humanidade: o amor, a morte, Deus, o tempo, a política, a linguagem. O autor, que no ano passado foi finalista do Prêmio SESC de Literatura e neste ano foi indicado ao Prêmio Jabuti por seu livro de contos Desabraçar, falou nesta entrevista sobre seu novo trabalho.

 

Seus aforismos, em grande parte, buscam desconstruir frases feitas e expressões consagradas repetidas por muita gente em nossa cultura. O que o levou a fazer isso?

 

Tudo o que é repetido indefinidamente gasta-se e perde força expressiva, passando a não mais dizer muita coisa. Lembro-me de um episódio da infância, no finalzinho dos anos 1970, quando eu disse a palavra “bunda” diante de meu avô, que era um homem bastante severo, à antiga. Aquilo provocou-lhe um escândalo inaudito, e fui duramente repreendido por pronunciar aquela barbaridade, aquele termo tão assombrosamente vulgar. Eu, que muito respeitava meu avô, fiquei sem saber onde enfiar a cabeça. De lá para cá, a palavra foi sendo usada com tanta frequência que foi perdendo a conotação negativa até se tornar um vocábulo comum, presente até mesmo na fala dos mais pudicos, dos mais educados e dos mais elegantes. É preciso sempre renovar as formas de expressão, enxergar o mundo por outros ângulos. Nenhuma ideologia, nenhuma religião, nenhum discurso, enfim, abarcam a complexidade da realidade e a vastidão da vida. Sempre ficam lacunas, interditos e não ditos clamando por serem expressos. Por isso a literatura, a arte em geral, e a reflexão crítica são infinitas.

 

O Brasil e o mundo vivem atualmente uma crise da linguagem, não?

 

Sem dúvida. A internet deu voz pública a todo mundo. Basta acessar as redes sociais ou os fóruns de discussão, postar um vídeo no YouTube. O que teoricamente seria algo bom, por ser democratizante e por ampliar os horizontes de todos nós, tornou-se um inferno de insultos, banalidades e vulgaridades de toda sorte, com pessoas vivendo e pensando exclusivamente dentro de uma bolha ideológica, exalando preconceitos e extremismos por meio de uma linguagem miserável. Foi o que vimos nas eleições do ano passado, em que não houve um debate construtivo de ideias, com argumentos válidos. Assistimos à apoteose das fake news, da bestialidade nas falas, da polarização estéril. E tudo isso gerando popularidade e dividendos políticos! Vimos certas palavras não mais dizendo o que elas significam, tais como “ideologia”, “comunista”, “nazista”. O sentido em que foram e ainda têm sido usadas se caracteriza por ser muito pessoal ou, no máximo, do âmbito de determinados grupos, constituindo uma espécie de autoverdade. Mas a linguagem é a grande mediadora que nos liga numa comunidade, e os sentidos das palavras têm uma história comunal. Quando passam a ser usadas pessoalmente ou com sentidos arbitrariamente dados a elas por grupelhos ideológicos, está rompida a capacidade de nos compreendermos e está aberto o caminho para a prática de abusos e violências. No Brasil e no mundo de hoje, parece que todos falam, mas ninguém ouve ninguém. Nem tem a disposição de fazê-lo.

 

Você identifica, na cena pública, um grande descompasso entre o que se diz e o que se faz?

 

O tempo todo. Agora mesmo estamos diante desta crise em que um ex-juiz e um procurador federal, que se autoproclamavam paladinos da moralidade na luta contra a corrupção, revelam-se como o Tartufo e o Falstaff da atual cena pública brasileira. Recentemente, na campanha eleitoral, vimos políticos gabando-se de não serem políticos. E desde sempre temos essa polícia, em grande parte apodrecida, em simbiose com o crime que deveria combater. É o mundo às avessas. Nossos filhos estão sendo educados assistindo ao mais deslavado cinismo das falas – em geral de moralistas – na esfera pública do país, amplificadas pelos meios de comunicação hoje onipresentes. É um tempo de trevas que, como sociedade, teremos de lutar muito para superar.

 

Voltando ao livro, como surgiu e o que ele possui de especial?

 

Sempre gostei de frases que dizem muito com poucas palavras. Durante muito tempo fui até um colecionador delas, primeiramente num caderno, depois no computador. Como sou um leitor voraz de todo tipo de assunto, elas sempre frequentaram meu dia a dia. Com o tempo, comecei eu mesmo a escrever minhas próprias frases a partir de observações e reflexões sobre a realidade, os acontecimentos pessoais e coletivos, as perplexidades que todos tempos diante dos mistérios da vida. Depois de vários anos, percebi que possuía material para um livro, este que está sendo lançado agora. Se é que ele possui algo de especial, é uma perspectiva peculiar a um sujeito ao mesmo tempo do interior de Minas e do mundo que está muito ciente dos limites de seu conhecimento, da fugacidade da vida e da fragilidade das coisas humanas.

 

 Por que Ouriço?

 

Os pensamentos expressos pelos aforismos contidos no livro se pretendem “espinhosos”, perturbadores, críticos, indo na contracorrente do senso comum. Mas, sem perder a ternura, em vários momentos são líricos, poéticos também. De modo que o ouriço, um animal cheio de espinhos mas não agressivo, é uma boa imagem para exprimir isso.

 

Na literatura contemporânea, proliferam-se as obras curtas e fragmentárias. Você acredita que essas formas simples e breves são expressão de uma era em que as pessoas vivem correndo de uma atividade para outra, de um relacionamento para outro, sem ter tempo para quase nada?

 

Sim, infelizmente, pois sou fã dos trabalhos extensos, com uma ampla abordagem da existência. Pensemos em Guerra e paz, de Tolstói, Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, Em busca do tempo perdido, de Proust, Fausto, de Goethe, Os miseráveis, de Victor Hugo, Os sertões, de Euclides da Cunha, Odisseia, As mil e uma noites, A divina comédia, D. Quixote, a Bíblia… Ninguém devia morrer sem ter lido essas grandes obras. Mas vivemos hoje os tempos líquidos, na definição de Bauman, em que tudo surge para não durar, não apenas as mercadorias, mas também as relações humanas, o trabalho, os projetos de vida. Numa época em que não temos tempo para quase nada, em que saltamos de uma coisa para outra, sem parar, a lógica desse estilo de vida só pode ser a do efêmero e do fragmentário. Embora essa lógica dificilmente abarque muita coisa da existência e do mundo, pode ser poética e profunda, como tantos trabalhos contemporâneos têm mostrado. A criatividade humana é inesgotável.

O livro Ouriço: senso incomum pode ser adquirido no site www.amazon.com.br

Minicurrículo
Adriano de Paula Rabelo é autor de livros no campo da literatura e do ensaísmo acadêmico, além de ter publicado traduções de textos literários. Tem atuado como professor de Literatura e Cultura Brasileira em universidades do Brasil e do exterior. Realizou doutorado em Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo e pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas. Em anos recentes trabalhou como docente no King’s College London, na Inglaterra, e na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Alguns de seus autores favoritos são Dostoiévski, Tchekhov, Machado de Assis, Eugene O’Neill, Céline, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade. Seu livro de cabeceira são os Ensaios, de Montaigne.