Publicado em 23/11/2018 - 01:08 e atualizado em

Resenha: Ivan Neves Marques Júnior  – Resenha de Desabraçar, de Adriano de Paula Rabelo




UM LIVRO DENSO NA ERA DOS “MEMES”

Ivan Neves Marques Júnior

Doutorando em Latim pela Universidade de São Paulo

 

Resenha de Desabraçar, de Adriano de Paula Rabelo

São Paulo: Patuá, 2018. 198 páginas

 

A última frase do letreiro colocado na porta do Inferno, por Dante versado na “Divina Comédia”, traz os seguintes dizeres: “Lasciate ogne speranza, voi ch’entrate” (“Abandonai toda a esperança, vós que entrais”). Ali, depois que leu todos os dizeres daquela inscrição na entrada, Dante logo reclamou com seu mestre, Virgílio, sobre a dureza daquelas palavras. Afinal, o que pode doer mais? A destinação ao inferno ou uma placa, na sua porta, dizendo que qualquer fio de esperança deve ser deixado na sua entrada?

Não sei por quais trâmites do meu pensamento, minhas sensações ao término do primeiro conto de “Desabraçar” (Adriano de Paula Rabelo, Patuá, 2018, 198 páginas, R$ 40,00), cujo título é “Só se morre sozinho”, me remeteram a este trecho do poema de Dante Alighieri. Nesta primeira estória, um homem aidético e hospitalizado narra, no presente, os momentos em que seu quadro de saúde piora enquanto sua fragmentada, desestruturada e traumatizada família, perdendo a esperança, assiste à sua passagem pela porta do inferno. Esse personagem, levado às consequências dos seus atos, nos conta também que eventos, conduzidos por ele, levaram-no àquela situação e corroeram a vida de todos seus familiares.

O leitor, numa perplexidade paulatina, sente, logo nas primeiras páginas da obra, um soco no estômago e, de cara, é surpreendido pela estrutura narrativa adotada pelo autor: personagens-narradores contam, em primeira pessoa e no tempo presente, uma estória de suas vidas que, por sua vez, se torna o pretexto para uma narrativa subjacente, no tempo passado, cuja conexão com a atual é cronológica, mnemônica ou afetiva. Essa estrutura, heterodoxa àquela habitual dos contos (que conta com um conflito claramente demarcado no tempo e no espaço, reservando à narrativa um momento de clímax), faz com que os eventos do tempo passado eclodam no tempo presente, trazendo simultaneamente para esse instante o conflito e o clímax.

Assim, a mistura entre o impacto do conto de entrada e o volume conflitivo dos demais, associados a essa “sui generis” forma de contar uma estória, deixam o leitor com uma sensação de estar à deriva, “abandonado” pela falta da conhecida estrutura das narrativas a que está habituado a ler e pego de surpresa no meio de acontecimentos em que a crua realidade da vida (repleta de dissoluções, mentiras, crises conjugais, abandonos, morte etc.) se revela inexorável.

É preciso muita coragem para, hoje em dia, iniciar um livro dessa maneira e, sobretudo, construí-lo numa estrutura assim. Vivemos num mundo de cínicos reducionismos. Um mundo que, por exemplo, tenta nomear suas figuras midiáticas por meio de letras e números: CR7, R9, H13, B17… Infelizmente, não se trata mais de dizer que perdemos o fôlego para o argumento mais trabalhado, o texto mais alongado e estruturado, para os sermões de Vieira ou para um simples livro sequer. Nós já perdemos tudo: a palavra, a frase, o parágrafo… Já tentou você, leitor, argumentar contra um “meme”?

Este mais novo trabalho de Adriano de Paula Rabelo, talento que desponta em nossa reduzida safra de escritores, é um alívio neste nosso inferno em que o caldeirão é a mídia e as redes sociais o tridente.

Tal como a vida, que traz momentos de desilusão, outros de resignação (aquelas situações em que dizemos que tudo poderia ser pior), outros de desamparo, tristeza, raiva ou desencanto, os contos assim se alternam desencadeando as descobertas da vida tendo como chave o advento da morte, presente ela própria por vezes e, em outras, figurada, na forma de uma mudança de residência ou de um relacionamento que acabou. O saldo, porém, é a conclusão de que não há abrigo para a nossa condição humana. Somos invariavelmente levados pela correnteza da vida social, do instinto de sobrevivência, de procriação, e até mesmo de nossas vontades, sobre as quais, na verdade, não exercemos controle algum.

O livro traz essas lições numa escrita fluida, que em muitos momentos lembra a prosa de Machado de Assis, sobretudo nas elucubrações dos personagens quando retratam, eles próprios, sua relação com os outros.

Não obstante o estilo do autor ainda revelar a necessidade de soltar um pouco mais sua escrita, desprendendo-a da norma culta e deixando-a mais próxima das condições psicológicas ou emocionais do personagem, seu texto tem o mérito maior de adequar seu estilo à atmosfera presente no conto, de tal modo que acabamos sentindo o pesar dos instantes de morte e desencanto com a vida, a platitude da velhice que vê o fim da vida chegar e até mesmo a doçura da criança que se vê de repente pertencente a uma nova família por ocasião do casamento do pai.

A se lamentar somente uma coisa. É uma pena que um livro tão bem escrito e que muito pode nos ensinar seja, aqui no Brasil, uma obra para iniciados na literatura. Por que um país desse tamanho não é um berço onde autores com Adriano Rabelo e tantos outros possam ser nutridos? A vida tem seus requintes de crueldade, não é mesmo? Não bastasse sermos um país de poucas livrarias e de bibliotecas sucateadas ou mesmo inexistentes, somos agora uma sociedade que só aprende vendo “memes” nas redes sociais. Não temos mais tempo nem paciência para a leitura, para depreender um argumento, para analisar uma obra artística em toda sua completude. Leia “Desabraçar” e suas eclosões de sentimentos e você entenderá o que estou tentando aqui dizer. Você se deparará com pensamentos e emoções que sequer tinha percebido ou, no melhor dos casos, esqueceu-os. Aí então você, leitor, perceberá que a riqueza da vida é o que realmente importa, e não a nova mensagem que te chama no celular. Poderá ver a diferença entre a perenidade da existência em toda sua complexidade e a efemeridade e tosquice dos “memes” sobre política e outras bobagens. Você vai se lembrar de uma passagem bíblica, bastante repetida nesses últimos dias: “conhecereis a verdade e ela vos libertará”. Mas se prepare, pois a verdade e a liberdade são verdadeiras entidades humanizantes, com todo o significado que o termo abarca e que nem sempre estamos preparados para entender.