Publicado em 25/03/2013 - 19:02 e atualizado em

CRYSTAES PARTIDOS




Autor: Gilka Machado
Título: CRYSTAES PARTIDOS
Idiomas: port
Tradutor: –
Data: 18/05/2005

CRYSTAES PARTIDOS

 

Gilka Machado

 
 

Silencio

 
 
Mysteriosa expressão da alma das cousas mudas,
Silencio – pallio immenso aos enigmas aberto,
espelho onde a tristeza universal se estampa.
Silencio – gestação das dôres crueis, agudas,
solenne imperador da Treva e do Deserto,
estagnação dos sons, berço, refugio e campa.
 
Silencio – tenebroso e insondavel oceano,
tudo quanto nos teus abysmos vive immerso,
tem a secreta voz dos rochedos, das lousas.
És a concentração do sêr pensante, humano,
a vida espiritual e occulta do universo,
a communicação invisivel das cousas.
 
Um intimo pezar toda tua alma invade,
ó meu velho eremita! ó monge amargurado!
Dentro da cathedral da verde natureza,
ouço-te celebrar a missa da Saudade
e invocar a remota effigie do Passado,
dando-me a communhão sublime da tristeza.
 
Seja engano, talvez, do meu cerebro enfermo,
mas eu comprehendo os teus sentimentos profundos,
eu te sinto cantar olentes melopéas…
Foste o inicio de tudo e de tudo és o termo.
Silencio – concepção primitiva dos mundos,
cosmopéa etheral de todas as idéas.
 
Silencio – solidão de symptomas medonhos,
pantano onde do mal desenvolvem-se os vermes,
fonte da inspiração, rio do esquecimento,
lagôa em cujo fundo os sapos dos meus sonhos,
postos alheiamente, inanimes, inermes,
fitam de estranho ideal o fulgor opulento.
 
Ó Silencio! Ó visão subjectiva da Morte!
– refúgio passional que eu sempre busco e anceio,
gôso de recordar… torturas e confortas,
pois fazes com que ao teu influxo eu me transporte
ao seio da Saudade, a esse funereo seio
– esquife onde revejo as illusões já mortas.
 
Da scisma na minha alma o triste cunho imprimes,
és o somno, o desmaio, o natural mysterio,
trazes-me a sensação dos gélidos tormentos;
e si nesse teu ventre hão germinado os crimes,
no teu cérebro enorme, universal, ethereo,
têm-se desenvolvido os grandes pensamentos.
 
 

Rosas

 
 

I

 
 
Cabe a supremacia á rosa, entre o complexo
das flôres, pelo viço e pela pompa sua,
e o arôma que ella traz sempre á corolla annexo
o coração humano excita, enleva, estua.
 
Quando essa flôr se ostenta á luz tibia da Lua,
o luar busca enlaçal-a, amoroso, perplexo,
e ella sonha, estremece, oscilla, ri, fluctua
e desmaia, ao sentir esse etheral amplexo.
 
Si é rosea lembra carne ardente, palpitante…
nívea – lembra pureza e nada ha que a supplante,
rubra – de certa bocca os labios nella vejo.
 
Seja qualquer a côr, por sobre o hastil de cada
rosa, vive a Mulher, nos jardins flôr tornada:
– symbolo da Volupia a excitar o Desejo.
 
 

II

 
 
Rosas cujo perfume, em noutes enluaradas,
é um sortilegio ethereo a transpôr as rechans;
rosas que á noute sois risonhas, floreas fadas,
de cutis de velludo e tenras carnes sans.
 
Sejaes da côr do luar ou côr das alvoradas,
rosas, sois no perfume e na alegria irmans,
e todas pareceis, á luz desabotoadas,
a concretisação dos risos das Manhans!
 
Ó rosas de carmim! Ó rosas roseas e alvas!
ha nesse vosso odôr toda a maciez das malvas,
a púbere maciez do pêcego em sazão.
 
Dae que eu possa gosar, ao vosso collo rente,
esse perfume, a um tempo excitante e emolliente,
numa dubia, sensual e suave sensação!
 
 

Sensual

 
 
Quando, longe de ti, solitaria, medito
neste affecto pagão que envergonhada occulto,
vem-me ás narinas, logo, o perfume exquisito
que o teu corpo desprende e ha no teu proprio vulto.
 
A febril confissão deste affecto infinito
ha muito que, medrosa, em meus labios sepulto,
pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,
á minha castidade é como que um insulto.
 
Si acaso te achas longe, a collossal barreira
dos protestos que, outr’ora, eu fizera a mim mesma
de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.
 
Mas, si estás ao meu lado, a barreira desaba,
e sinto da volupia a ascosa e fria lêsma
minha carne polluir com repugnante baba…
 
 

Olhos verdes

 
 
Ha na vibrante côr dos teus olhos, creatura,
a virential frescura
dos verdes e viçosos vegetaes;
teus olhos são, na côr e na espessura,
florestas virginaes,
onde das illussões o alacre bando
passa, de quando em quando,
cantando…
 
Olhos de expressões graves e fidalgas,
postos na introversão dos intimos scismares.
Olhos que lembram solitarias algas,
pompeando á superficie esmaecida dos mares.
 
Olhos onde do olhar alheio mal escondes
a tua alma aisteroide, a tua alma singular,
pois, coma através das frondes
côam-se pelo espaço as filandras do luar,
 
 
tua alma os olhos te ablue, inunda,
transvasa e o rosto te illumina e banha
de uma luz albuginea, luz estranha,
luz que do luar supponho oriunda.
 
Ha nos teus olhos a verdura intensa
das aguas mortas, das estagnações,
e quem os vê, depressa, pensa
vêr tenros tinhorões…
 
Olhos de cujo olhar os gonfalões desfraldas,
e deixas a rolar por todo o ambiente,
como uma chuva undante, uma chuva esplendente,
uma diliquescencia de esmeraldas.
 
Quando entreabro do sonho os fenestraes postigos
e aos teus olhos amigos,
para melhor os vêr, envio o olhar,
tuas pupillas julgo orvalhados pascigos
onde, sempre a pastar,
vive, das illusões proprias só das creancinhas,
o armento de ovelhinhas.
 
Olhos que lembram folhas pendidas,
folhas do vento na aza levadas,
postas em tristes, hiemaes jazidas
de alvacentas estradas.
 
Olhos macios,
cujos olhares supponho rios
a desaguarem nos olhos meus;
olhos de tal mysticismo feitos
que, olhos herejes ficam sujeitos,
só por fital-os, a crêr em Deus.
 
Divinos olhos, cujas pupillas,
langues, tranquillas,
são duas malvas,
malvas escuras,
abertas sempre sobre as brancuras
das corneas alvas…
 
Olhos com os quaes meus olhos maravilhas
de luz,
olhos que são abandonadas ilhas
do oceano á flux…
ilhas distantes,
apparecidas em alto mar,
onde os meus olhos – dous navegantes,
andam buscando sempre aportar.
 
Olhos serenos, olhos de creança,
de olhar queixoso como onda mansa,
como onda calma,
que lasso, leve, langue se lança
na praia solitaria da minha alma.
 
Olhos solennes e scismadores,
verdes como os oceanos, como as franças,
olhos – embalsamadas esperanças
postas sobre o brancor de estaticos andores.
 
Olhos tristonhos,
por onde vejo, em procissão e em côro,
desfilarem verdes sonhos,
sob os arcos triumphaes dos supercilios de ouro.
 
 

Espirituaes

 
 

I

 
 
Do meu amôr por ti como contar-te a historia,
si nem sei desde quando em meu cerebro o trago,
erguido assim como uma igreja merencorea,
da qual tu sempre foste o milagroso orago?
 
De ha tanto não te vêr, apenas, na memoria,
conservo do teu rosto um simulacro vago,
e, como desse amôr gôso supremo e gloria,
lembro de um teu sorriso o espiritual afago.
 
O meu amôr por ti é intangivel e puro,
desprovido de ardor, desprovido das ancias
dos prazeres carnaes, ephemeros e escassos.
 
Amôr em que o meu sêr totalmente depuro,
amôr que te dedico através das distancias,
como um sol a outro sol, através dos espaços.
 
 

II

 
 
O meu amôr por ti é uma arvore exilada,
verde, em pleno vigor da juvenil chimera,
que, na ampla vastidão de solitaria estrada,
ama outra arvore que, de longe, a anceia e espera.
 
Que importa da tristeza o hinverno ponha em cada
folha sua uma ruga e a torne velha e austera?
para que ella resurja, alegre e remoçada.,
a Esperança virá qual uma Primavera.
 
E ha-de este nosso amôr esperançoso e lindo,
os nossos corações, ó meu longinquo amante!
cada vez mais encher, frondejando… subindo…
 
Amôr mudo e soffrente, amôr calmo e tristonho
– arvore a receber de outra arvore distante
o alvo pollen da dôr para a anthese do Sonho.
 
 

III

 
 
Para que deste amôr nunca a memoria laves
vivamos sempre assim, a distancia sujeitos,
tu – ignorando sempre os meus defeitos graves,
eu – ignorando sempre os teus leves defeitos.
 
Como duas eguaes e extraordinarias naves
irão – rumo do ideal – nossas almas de eleitos,
ambas vogando sobre os mesmos sonhos suaves,
ao desejo que as move e imflamma nossos peitos.
 
Cada vez entre nós mais a distancia augmentando,
para que esse almo ideal, tantos annos sonhando,
não vejamos fugir num rapido momento,
 
e sintamos, então, immoveis, lado a lado,
essa nausea, esse tedio, esse aniquilamento
que vem sempre depois de um desejo saciado.
 
 
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Fonte: MACHADO, Gilka. Crystaes Partidos: poesias. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunaes, 1915. p. 13-14; 28-29; 41-45; 54-56.