Revista Mulheres e Literatura – vol.13 – 20141069Revista Mulheres e Literatura – vol.14 – 1º semestre - 2015



CONOTAÇÃO E FIGURA EM KATHERINE MANSFIELD E EM CLARICE LISPECTOR – Patricia Gonçalves Tenório





 

Patricia Gonçalves Tenório

 

Universidade Federal de Pernambuco

 

Resumo: O presente estudo é fruto das disciplinas Bases da Teoria (2014-1), ministrada pela Prof. Dra. Lucila Nogueira, e Metodologia da Pesquisa Literária (2013-2), ministrada pelo Prof. Dr. Antony Bezerra no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco. Faremos uma aproximação entre os contos Felicidade (Bliss), de Katherine Mansfield e Felicidade clandestina, de Clarice Lispector, utilizando os conceitos de conotação, tratado por Roland Barthes em S/Z e de figura, trabalhado por Erich Auerbach em Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental.

 

Palavras-chave: Katherine Mansfield, Clarice Lispector, conotação, figura.

 

 

Abstract: This study is derived from the disciplines Bases of Theory (2014-1), taught by Prof. Dr. Lucila Nogueira, and Methodology of Literary Research (2013-2), given by Prof. Dr. Antony Bezerra, in the Post-graduate Program of Linguistics and Literature of Federal University of Pernambuco, Brazil. Here we will approach the short stories Bliss, by Katherine Mansfield, and “Felicidade clandestine” (Clandestine Happiness), by Clarice Lispector, employing the concepts of connotation, as used by Roland Barthes in S/Z, and figure, employed by Erich Auerbach in Mimesis: The Representation of Reality in Western Literature.

 

Keywords: Katherine Mansfield, Clarice Lispector, connotation, figure.


 

Conotação e Figura em Katherine Mansfield e EM Clarice Lispector

 

 

Patricia Gonçalves Tenório

Universidade Federal de Pernambuco

Sobre Katherine Mansfield

 

Kathleen Beauchamp Mansfield nasceu a 14 de outubro de 1888, em Wellington, Nova Zelândia, terceira filha entre os seis descendentes do casal inglês Sir Harold Beauchamp, comerciante e banqueiro abastado, e Annie Burnell Dyer, dona de casa. Em 1893, a família se mudou para Karori, próximo a Wellington, onde Kathleen vai adquirir belas recordações que serão utilizadas na sua futura obra.

Desde cedo foi reconhecida a sua vocação para a escrita, quando aos nove anos venceu um prêmio da escola com um texto chamado The Sea Voyage. Em 1903, mudou-se para estudar com as duas irmãs mais velhas em Londres, e, entre idas e vindas da Nova Zelândia, terminou por convencer os pais a firmar moradia na capital inglesa e aí viver até o fim de sua vida, aos trinta e quatro anos (1923), vítima de tuberculose.

Inquieta, inteligente e extremamente criativa, ao mesmo tempo dotada de uma personalidade muito forte, teve muitos problemas de relacionamento. Aos treze anos apaixonou-se por Arnold Trowell, violoncelista, o que a fez ter aulas de música com o pai de Arnold, fato que pode ter influenciado na cadência rítmica de seus contos. Aos vinte anos, em três semanas, conheceu, casou-se e separou-se no outro dia do primeiro marido, George Bowden.

Em 1908, após uma gravidez indesejada e um aborto espontâneo, foi rejeitada por sua mãe, Annie Dyer, que a excluiu do testamento por causa do comportamento sexual da filha. A partir de então, Kathleen Mansfield passa a ser conhecida por Katherine Mansfield, por sentir que precisava se afastar da família e da terra natal para se transformar numa escritora de verdade. Conheceu John Middleton Murry em 1908, com quem veio a casar-se em 1918, sendo ele o responsável pelos direitos autorais de sua obra após a sua morte.

Foram 88 contos escritos por K.M., como costumava assinar na revista The Athenaeum, editada pelo marido John Middleton Murry. Publicou três livros: In a German Pension (1911), Bliss (1920) e The Garden Party (1922). Os contos de K.M. vão de encontro aos padrões dos contos clássicos vigentes na época, que consistiam na preocupação com o enredo de ação e o tema principal, enquanto os dela utilizavam a linguagem poética na narrativa, eram narrados sem enredo, prevalecendo o tratamento da epifania, o que os aproximava da prosa poética. Por esses e outros fatores foram considerados contos modernos.

Ricardo Piglia, em Formas breves (2004), ao diferenciar o conto moderno do conto clássico, considera que na Modernidade, após a Revolução Industrial, há a fragmentação da “unidade da vida”, e, consequentemente, fragmentação da “unidade da obra”, que passa do enredo com o início, meio e fim do conto clássico para um enredo “sem ação principal”, em que “os mil e um estados interiores vão se desdobrando em outros”. O conto “abandona o final surpreendente e a estrutura fechada”, trabalhando “a tensão entre as duas histórias, sem nunca resolvê-las”: a história que poderíamos chamar de aparente, no primeiro plano, e a história secreta, no segundo plano.

 

Sobre S/Z

S/Z foi escrito por Roland Barthes no intuito de analisar a novela de Honoré de Balzac, Sarrasine (1830), a partir de um “ouvir dizer”, ou melhor, “ouvir ler” de um estudo de Jean Reboul sobre ela, sendo que “sua própria escolha era devida a uma citação de Georges Bataille”. A utilização de S/Z para analisar os contos Felicidade (Bliss), de Katherine Mansfield, e Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, também se deveu a esse jogo de escolhas sem fim e à coincidência de citações e títulos quase homônimos de alguns contos de Mansfield e Lispector.

Sarrasine narra a história do escultor com este nome, narrada por um jovem diante de sua amada em uma festa. As camadas de história se repetem em abismo e, ao significar a camada mais profunda – o segredo do escultor –, o narrador, a amada, e nós leitores vamos nos significando e transmitindo um para o outro o mesmo estranhamento: a castração de Zambinella, amor proibido de Sarrasine.

Trazendo a novela de Balzac “de frente para trás”, Roland Barthes nos apresenta, frase por frase, a estrutura do texto. Utiliza cinco códigos na análise – hermenêutico (enigmas), sema (sentido), proiarético (ações seriadas), simbólico (profundidade e segredo) e cultural (citações de uma ciência ou de uma sabedoria). Construindo os conceitos de tecido das vozes, antítese, conotação e denotação, ironia, paródia, personalidade, figura, (…) entre tantos outros, ao mesmo tempo em que os aplica no texto Sarrasine, Barthes, no seu “fazer-fazendo” de S/Z, aos poucos desvenda os segredos da ficção e nos fornece instrumentos para que nós mesmos desvendemos, aqui, os segredos do conto Felicidade (Bliss), de Katherine Mansfield, além de colocá-lo em contato com Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector.

Felicidade (Bliss) de Katherine Mansfield foi provavelmente escrito entre 1915 e 1919, e foi publicado na revista The English Review e posteriormente no livro Bliss and other stories (1920). Trata-se da estória de Bertha Young, uma jovem esposa e mãe de família de classe média alta da Londres do início do século XX que, certo dia, sente-se tomada por um sentimento indefinível, que não consegue nomear. Poderíamos dizer que o conto narra a estória do encontro de Bertha com ela mesma, inédito nessa jovem mulher acostumada com os pequenos momentos de felicidade proporcionados por acontecimentos exteriores, de fora para dentro, e que agora pareciam estar sendo vivenciados de dentro para fora. Talvez seja esse o motivo do conto se chamar Bliss, Êxtase, em português, e não Happiness, que indicaria uma felicidade externa. A “felicidade” de Bertha é provocada pelo encontro com a amiga Pearl Fulton, que guarda o segredo da própria traição com o marido de Bertha, Harry.

 

Conotação e denotação

Roland Barthes assim define os conceitos de conotação e denotação em S/Z:

 

Estruturalmente, a existência de dois sistemas considerados diferentes, a denotação e a conotação, permite ao texto funcionar como um jogo, pois cada sistema reenvia para outro, de acordo com a necessidade de criar uma certa ilusão. Ideologicamente, por fim, este jogo assegura vantajosamente ao texto clássico uma certa inocência; dos dois sistemas, denotativo e conotativo, um deles evidencia-se: o da denotação; a denotação não é o primeiro dos sentidos, mas finge ser; sob tal ilusão, ela não é, finalmente, senão a última das conotações (aquela que, simultaneamente, parece inaugurar e fechar a leitura) (…). (BARTHES, 1970, p. 15).

Aplicando os conceitos de conotação e denotação em Felicidade (Bliss) encontramos metáforas que apontam, relacionam, anunciam, prefiguram um acontecimento futuro a partir de um acontecimento presente, ou seja, conotam o que virá (ainda) a acontecer. Podemos tomar como exemplo dois trechos elencados da dissertação de mestrado de Patrícia Peter dos Santos Zachia Alan, “A tradução da prosa poética de Katherine Mansfield em português: um estudo comparado” (2011, UFRS) quando trata da tradução de Bliss por Ana Cristina César e dois outros trechos por nós elencados na tradução de Maura Sardinha:

 

Um gato cinzento, arrastando-se pelo chão, atravessou furtivamente o gramado, seguido por um gato negro, como se fosse a sua sombra. A passagem dos dois gatos, tão precisa e rápida, provocou em Bertha um estranho arrepio.

“Gatos são coisas aflitivas!” (MANSFIELD, in CÉSAR, 1999, p. 314).

E então ela partiu, Eddie atrás, como o gato negro seguindo o gato cinzento. (MANSFIELD, in CÉSAR, 1999, p. 322).

 

Patrícia Alan considera que os personagens Eddie (escritor) e Pearl (amiga de Bertha e amante de Harry) são o preenchimento da configuração anteriormente anunciada nos gatos negro e cinzento que rondavam o jardim da enigmática pereira de Bertha Young.

Seguem agora os trechos elencados por nós com o mesmo sentido de conotação/denotação explicitado por Roland Barthes em S/Z:

 

Havia tangerinas e maçãs, coloridas com o rosa dos morangos. Algumas peras amarelas, macias como seda, umas uvas verdes cobertas por fina camada prateada e um grande cacho das vermelhas. Estas últimas tinham sido compradas para combinar com o novo tapete da sala de jantar. Sim, isso parecia um pouco exagerado e absurdo, mas foi a real razão de tê-las comprado. Pensara na loja: – Preciso de umas vermelhas para trazer o tapete para a mesa. – E isso lhe parecera bastante sensato na ocasião (MANSFIELD, 1997, p. 9).

Eram queridos – queridos – e ela adorava tê-los ali, a sua mesa, oferecendo-lhes deliciosos vinhos e comidas. Na verdade, ansiava por lhes dizer como eram encantadores, e que grupo decorativo formavam, como pareciam realçar um ao outro e como a faziam lembrar de uma peça de Tchecov! (MANSFIELD, 1997, p. 22).

 

As frutas decorativas anunciam, prefiguram, conotam o grupo decorativo dos amigos de Bertha e Harry Young: o Sr. e a Sra. Norman Knight, Eddie Warren e Pearl Fulton. Um amigo (uma fruta) realçava o(a) outro(a), um texto ilumina o outro, feito se relacionando os dois tempos “aparentemente” desconexos.

 

Quando Clarice Lispector encontra Katherine Mansfield

O primeiro contato da escritora ucraniana-brasileira Clarice Lispector com a escrita de Katherine Mansfield ocorreu quando Clarice era ainda muito jovem.

 

(…) aos quinze anos, com o primeiro dinheiro ganho com trabalho meu, entrei altiva porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar. Folheei quase todos os livros dos balcões, lia algumas linhas e passava para outro. E, de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! E, contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. Só depois vim a saber que a autora não era anônima, sendo, ao contrário, considerada um dos melhores escritores de sua época: Katherine Mansfield. (LISPECTOR, 2004, p. 22).

Nascida Haya Pinkhasovna Lispector (em russo: ??? ?????????? ?????????) numa família judaica, Clarice Lispector foi a terceira filha de Pinkhas Lispector e de Mánia Krimgold Lispector. Nasceu a 10 de novembro de 1920 em Tchechelnyk, Ucrânia, enquanto seus pais percorriam várias aldeias do país fugindo da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa de 1918-1920, chegando ao Brasil quando tinha um ano e dois meses de idade. No Brasil, por questão de segurança, seu pai mudou o nome de todos com exceção da sua irmã Tânia que era um nome brasileiro comum na época. Clarice morou em Recife durante toda a sua infância. Aos nove anos sua mãe morreu e aos quinze anos a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde Clarice fez a faculdade de Direito e se casou com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos, Pedro e Paulo. Percorreu diversos países acompanhando seu marido, entre eles, Itália, Estados Unidos e Suíça. Divorciou-se em 1959, passando a residir no Rio de Janeiro com os dois filhos, o mais velho, Pedro, esquizofrênico.

Clarice Lispector escreveu diversos livros de romances, crônicas e contos, entre eles, Perto do coração selvagem (1943), Maçã no escuro (1961), Paixão segundo G. H. (1964), A legião estrangeira (1964), Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (1969), Água viva (1973), A hora da estrela (1977), além de escrever crônicas para o Jornal do Brasil e a revista Veja. Segundo a pesquisadora Susana de Sá Klôh (2005), “é comum encontrarmos, quando se fala em Clarice Lispector, o termo epifania: seus textos frequentemente levam a uma revelação, a uma descoberta que só é feita através de uma entrega aos sentidos, nunca pela racionalização”. Clarice Lispector faleceu em 1977, no Rio de Janeiro, vítima de câncer.     

Comparando os dois contos das autoras, verificamos que eles convergem e divergem ao mesmo tempo em alguns pontos. Além do título do primeiro em inglês, Bliss, remeter literalmente a Êxtase, em português, feito vimos antes, e não a Felicidade, o que poderíamos supor uma felicidade superficial, o sentimento que no caso da personagem Bertha Young é inominável, é claramente nomeável em Clarice Lispector:

 

Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada (LISPECTOR, 1971; in 1998, p. 12).

Felicidade clandestina é um pequeno conto de Lispector, aparentemente autobiográfico (porque a autora realmente morou na infância em Recife, cidade-cenário do texto), que narra a estória de uma pobre menina atormentada pela menina rica, filha de um dono de livraria, lugar que Clarice “gostaria de morar”. A pobre menina atormentada pela menina rica por esta última reter e não emprestar, dia após dia, As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Ao final do conto, a mãe da menina rica descobre assustada a maldade da própria filha e libera a pobre-menina-Clarice a ter o livro por “quanto tempo quiser”.

 

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados (LISPECTOR, (1971 in) 1998, p. 10).  

Enquanto em K.M. ocorre esse apontamento conotativo-metafórico do que irá se realizar e preencher no futuro, em C.L. o jogo é sempre adiado, a entrega do livro da menina rica para a menina pobre é adiada dia após dia, ou como Roland Barthes indica, “cada sistema reenvia para outro”, na “necessidade de criar uma certa ilusão”. Ou mesmo como Wolfgang Iser afirma, um adiamento do fim do jogo do texto quando então se encontrará o sentido.

 

Se considerarmos ser o significado o resultado do jogo textual, então este só pode provir da suspensão do movimento do jogo que, com alta frequência, envolve a tomada de decisões. Mas qualquer decisão eclipsará inúmeros aspectos provocados pela mudança e interação constantes e, daí, pela reiteração variada de posições do jogo, de modo que este, por si mesmo, se contrapõe a chegar ao fim (ISER IN LIMA, 1979, p. 108).

Poderia se dizer que o conto Felicidade (Bliss), de Katherine Mansfield influenciou na escrita de Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector. Talvez sim. Mas se considerarmos o título em inglês, Bliss (Êxtase) como uma felicidade de fora para dentro em contraposição ao sentimento que aquecia o peito dessas duas personagens, Bertha Young e a pobre-menina-Clarice, sentimento que brota, jorra de dentro para fora, apesar de ser uma “coisa clandestina”, poderíamos apontar como divergência o fora para dentro em Bertha, o dentro para fora em Clarice, mas poderíamos considerar ao mesmo tempo convergente por ser esse sentimento inominável para Bertha e clandestino para Clarice, o que possivelmente, essa ambiguidade, essa relação antitética de nominável/inominável deva-se a uma relação ambígua entre a personagem Bertha Young e a personagem Pearl Fulton, entre a menina rica e a pobre menina, uma relação de amor e ódio, de desejo e repulsa coexistindo nas mesmas almas, na alma de Bertha/Katherine, na alma de Clarice/Clarice.

 

Sobre figura

No prefácio de Figura, de Erich Auerbach, Modesto Carone, seu tradutor para o português, resume o pensamento do filólogo alemão: “(…) na ‘figura’ um acontecimento terreno é elucidado pelo outro; o primeiro significa o segundo, o segundo ‘realiza’ o primeiro” (CARONE, in AUERBACH, 1997, p. 9).

A partir da tentativa dos primeiros Padres da Igreja Católica de unir figuras do Antigo Testamento (Davi, Moisés, Elias) com a figura do Cristo no Novo Testamento para angariar novos seguidores, Auerbach, em Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental, elege diversas obras, desde Homero até Virgínia Woolf, mostrando uma obra apontando para a outra, uma prefigurando a outra, até chegar ao romance moderno.

Trazendo esse exemplo para o nosso estudo, se no primeiro conto as metáforas conotativas apontam, prefiguram em um trecho anterior o que será realizado, preenchido por outro trecho posterior, o adiamento do empréstimo do livro no segundo conto também se adequa ao sistema de conotação/denotação/figura sem fim da menina rica para com a menina pobre, sendo esta última preenchida de “felicidade”, apesar de “clandestina”, ao final do texto.

Além da conotação/denotação, prefiguração/preenchimento no interior dos textos, consideramos os mesmos procedimentos de aplicação desses conceitos na vida dessas autoras que tanto se assemelham: a mudança dos nomes, os casamentos infelizes, a solidão criadora, a introspecção narrativa. E, apesar da diferença no tempo e no espaço, o que foi prefigurado na escrita de Katherine Mansfield, mais de 50 anos antes, foi preenchido na escrita de Clarice Lispector, nesse enredo “sem ação principal”, em que “os mil e um estados interiores vão se desdobrando em outros”, como se confirmasse a constatação de Clarice Lispector diante da escrita de Katherine Mansfield: “Mas esse livro sou eu!”

 

Referências Bibliográficas

ALAN, Patrícia Peter dos Santos Zachia. A tradução da prosa poética de Katherine Mansfield em português: um estudo comparado, 2011, 215 f. Dissertação (Mestrado em Literatura Comparada), Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011. Disponível em:

http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/54084/000851155.pdf?sequence=1 Acesso em 13 de junho de 2014.

AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. Vários tradutores. São Paulo: Perspectiva, 2011.

AUERBACH, Erich. Figura. São Paulo: Ática, 1997.

BARTHES, Roland. S/Z. Tradução Maria de Santa Cruz e Ana Mafalda Leite. Lisboa, Portugal: Edições 70, (1970 in) 1999.

CÉSAR, Ana Cristina. Crítica e Tradução. São Paulo: Ática, 1999.

GOTLIB, Nádia Battella.  Clarice Fotobiografia. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.

ISER, Wolfgang. O jogo do texto. In: A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Tradução e Organização Luís da Costa Lima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

LISPECTOR, Clarice. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

MANSFIELD, Katherine. As filhas do falecido coronel e outras histórias. Tradução Luiza Lobo e Maura Saldanha. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.

MANSFIELD, Katherine. Diários e cartas. Tradução Julieta Cupertino. Rio de Janeiro: Revan, 1996.

PIGLIA, Ricardo. Formas breves. Tradução José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

SALAMON, Julie. An enigmatic author who can be addictiveThe New York Times, 11 de março de 2005.

http://www.nytimes.com/2005/03/11/books/11sala.html?_r=2&adxnnl=1&oref=slogin&adxnnlx=1190410388-ADSqGRk9GJuvqkwRgvNAHg&.

Acesso em 13 de junho de 2014.

WIKIPEDIA: http://pt.wikipedia.org/wiki/Clarice_Lispector#Obra.

 

 

Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br



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